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“Les Revenants”: a continuidade dos Zombie Movies

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A série francesa “Les Revenants”, criada em 2012 por Fabrice Gobert, inspirada no filme homônimo de 2004, de Robin Campillo, é não apenas a melhor zombie series da atualidade, mas um passo diferenciado no mundo do gênero.

Em meu primeiro texto ao Catárticos – sobre a série “The Walking Dead” -, fiz uma introdução à história dos zombie movies, abordando as principais características comuns aos bons filmes do gênero. Convido-o a ler esta introdução para compreender por que considero, a despeito da natureza dúbia dos que retornam da morte, ambos filme e série uma continuidade deste consagrado gênero.

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A série se baseia em um filme homônimo de Robin Campillo, de 2004. No filme, as pessoas que morreram recentemente retornam à vida com uma personalidade apática, discernimento questionável, mas aparente capacidade motora regular. Diferente da série, “Les Revenants” de Campillo assume a perspectiva dos vivos face à tragédia. Sutilmente, porém, o diretor nos indica que os “mortos” não se resumem à apatia indicada pelos pesquisadores – que, à medida que procuram saber mais sobre eles, progressivamente os segregam. Neste sentido, marcou-me a cena em que Mathieu (Jonathan Zaccaï) – um dos que retornaram -, em conversa íntima com Rachel (Géraldine Pailhas), sua esposa, alega estar com calor, interrompendo o momento íntimo entre eles para um mergulho. Em seguida, um corte para a visão subjetiva dos balões de temperatura instalados pela cidade – a temperatura corporal dos que retornaram mantém-se em média inferior à dos vivos -, indicando que a temperatura corporal de Mathieu continua inferior à de Rachel: aparentemente não era o calor que o levava a querer mergulhar, embora, pela supracitada perspectiva adotada pelo autor, não possamos saber exatamente o que se passa por sua cabeça.

Retirando o gore tradicional aos zombie movies, Campillo discute o tema central do gênero; exatamente o oposto do que ocorre na incorporação ao Cinema Comercial, o qual opta por suavizar e profissionalizar o gore e não absorve o propósito central, sem o qual não há qualquer sentido (a incorporação do gore a grandes produção já não faz qualquer sentido). Aborda questões sociais diante do retorno dos mortos, a segregação direta e indireta produzida pelo medo do diferente, sendo este por si só suficiente, ainda que não haja exatidão sobre sua consistência. Conecta-se aos filmes do gênero também no sentido da formação subjetiva do espectador: a linearidade dos acontecimentos – o concreto do enredo – não é tão importante quanto as ideias que se formam em sua cabeça em relação às situações postas. Conecta-se de forma limitada a “Incidente em Antares”, de Érico Veríssimo, tendo em vista que em seu livro, Veríssimo utiliza-se do realismo fantástico em tom não só sociológico, mas também conectado a uma realidade histórica e social específica, enquanto “Les Revenants” não se vincula a uma realidade histórica, explorando o ser humano em abstrato.

Les Revenants

“Les Revenants” é a série que deveria ter surgido há muito tempo, em lugar de séries como “The Walking Dead”, a partir do momento em que o público geral passou a se interessar pelos gêneros proibidos dos 70s & 80s. Com uma climatização próxima a “Twin Peaks”, de Lynch, embora não assustadora, prenderá o espectador a um mundo do qual não sairá automaticamente ao final de um episódio. Em lugar do medo ou do susto, Fabrice Gobert opta pelo assustador, pelo sombrio, inserindo o espectador ao mundo que inspirou, optando pela sensação de medo de forma constante e climatizada em lugar de utilizar-se de picos de adrenalina. Tal climatização conta, ainda, com composição da trilha sonora do Mogwai (a qual você pode ouvir na íntegra, gratuitamente, aqui).

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Ao contrário de Campillo, Gobert opta por adotar ambas perspectivas, inserindo-nos também à perspectiva confusa dos mortos frente ao seu retorno, à sua natureza e como se inserem na sociedade diante da situação. Sem esquecer por completo a abordagem social do filme e até então exposta, opta por dar enfoque ao drama, o que é necessário à continuidade de uma série, ao menos a longo prazo. Opta por construir histórias paralelas, como uma forma de apresentar melhor os personagens, para depois entrelaçá-las, construindo o drama. Como se passa em uma pequena cidade nas montanhas, não só a climatização, mas o entrelace das situações paralelas entre os personagens também é facilitado e funciona bem.  A adoção de ambos lados da história atua lado a lado com a complexidade dos conflitos: o espectador não é um terceiro que sabe como as coisas deveriam desenrolar e torcem para tanto; conhecemos os dois lados, compreendemos a razão que há em ambos e, no entanto, nas situações pessoais específicas, são inconciliáveis. Todo este mix torna o drama de “Les Revenants” profundo e interessante, fugindo do entretenimento sem esforços e sem acréscimos.

Com a recente morte de Gabriel García Márquez, um dos pais do realismo fantástico, é curiosa a coincidência de um resgate a um filme de 2004 para a construção desta série, que teve sua segunda temporada recentemente adiada para 2015. “Les Revenants” é a continuidade lógica dos zombie movies para esta era da queda de barreiras preconceituosas com o trash dos 70s & 80s, absorvendo o discurso ao drama profundo e bem climatizado, em lugar de explorar o gore como se fosse uma obrigação ou um band-aid que esconda o fato de que aquela obra é baseada comercialmente em algo que se tem atualmente como cool e pode ser rentável.

 

Trailer do Filme

Trailer da Série

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