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Lost in Translation & Her

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Por que não podemos suportar a solidão? Uma pergunta circunstancial, de diversas tonalidades, capaz de parar o mundo em qualquer circunstância.

 

Fazer o café às cinco da manhã. Minha mesa no trabalho. A primeira vez em que cheguei ao apartamento e minha gata não estava na porta. Olhar o céu pela janela do meu quarto, à noite. O colégio. Dirigir na chuva pela primeira vez. Colocar a cabeça no chuveiro da casa dos meus pais, com eles viajando. O mês seguinte à mudança de cidade do meu melhor amigo. A vista do MAM em Niterói, à noite, durante os dias de semana. O quarto dos meus avós no carnaval. A cadeira do Cinema, antes de começar o filme. Meu quarto quando meu irmão se mudou. Chegar em casa após a primeira vez em que fui a um bar sem companhia. Tirar a aliança. Um livro de madrugada com o dimmer baixo. Procurar distância de um grupo de amigos para fumar, após uma risada.

A solidão não é ruim. É o medo do perpétuo que a estraga. O prazer de subir em arranha-céus e admirar a paisagem urbana. À distância. Onde ninguém pode nos ouvir. Mas de onde temos certeza de que a cidade ainda está lá. A vida em sociedade, em sua rotina, é um sacrifício para evitar o insuportável.

Em coletivo, formamos nossas ambições e competimos profissionalmente. Mas não é tudo o que nosso estilo de vida nos traz. Construímos nossa ideia de amor e profundidade psicológica no Cinema, em nossos livros e nas grandes histórias de que ouvimos falar. Assim nos formamos, assim nos distanciamos. A vida se torna cada vez mais imaginária. Somos bons nisso. São grandes e belas ideias. É o meio de criamos coisas que nos dão prazer diariamente, das quais gostamos muito. Mas estamos todos sozinhos. Esperando que as coisas aconteçam como idealmente desejamos.

“But men labor under a mistake. The better part of the man is soon plughed into the soil for compost. By seeming fate, commonly called necessity, they are employed, as it says in an old book, laying up treasures which moth and rust will corrupt and thieves break through and steal. It is a fool’s life, as they will find when they get to the end of it, if not before

(…)

Actually, the laboring man has not lesure for a true integrity day by day; he cannot afford to sustain the manliest relations to men; his labor would be depreciated in the market. He has no time to be any thing but a machine. How can he remember well his ignorance – which his growth requires – who has so often to use his knowledge?”.
Henry David Thoureau – “Walden; or, Life in the Woods”

Embora teoria de cinéfilos, inquestionavelmente, “Lost in Translation” (2003), escrito e dirigido por Sofia Coppola, e “Her” (2013), escrito e dirigido por Spike Jonze, comunicam-se. Ambos filmes têm a mesma temática central: a solidão.

!!Contém Spoilers!!

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Em 2003, Charlotte, interpretada por Scarlett Johansson, sente-se sozinha em seu casamento com John, à época, fotógrafo, trabalhando com músicos, em boa fase de sua carreira (Em semelhança a John, Spike Jonze dirigiu quarenta e quatro clipes musicais nos 90s e até o fim de seu casamento com Sofia, em 2003). Não só por isso. Aparentemente seu círculo social soa plano para ela, recém-formada em filosofia e com todas as possíveis interrogações sobre si mesma. Perdida em Tóquio – uma cidade do futuro para o presente -, caminhando como uma estranha em uma cidade à qual não pertence, em meio a uma vida à qual parece também não pertencer. É lá que Charlotte conhece Bob Harris – interpretado por Bill Murray -, um ator em idade que lhe possibilita maior certeza sobre seus “pessimismos”.

 

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Em 2013, Theodore é um escritor de cartas pessoais de terceiros. Vivendo sozinho em uma cidade caracterizada como um futuro próximo, o personagem interpretado por Joaquin Phoenix tenta deixar para trás um casamento fracassado. Encontra suporte em um OS, software desenvolvido para se adaptar ao ser humano por ele contratado e ajudá-lo com suas tarefas, bem como fazê-lo companhia. A quem empresta voz Scarlett Johansson, substituindo de última hora Samantha Morton.

 

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Em “Lost in Translation”, Sofia Coppola expõe a solidão quase como um privilégio dos que vão além ao refletirem sobre a própria vida, por vezes apoiando seus personagens na fragilidade dos demais. Seu marido a abandonou, seu círculo social é banal. Ao final, porém, a própria diretora se entrega à banalidade. Um dos elementos que torna o filme interessante é o fato de o espectador não entender – assim como Bob – o que há entre os personagens, provocado em boa parte pela diferença de idade entre eles. Tal diferença é o que soa como a maior das barreiras entre dois personagens em sintonia. Embora não fiquem juntos, o beijo joga o filme à velha banalidade de comédias românticas de que não importa o quão diferente você seja ou o quão perdido você esteja, things are going to work out. Por mais que não tenham ficado juntos, e suas vidas aparentemente sigam como antes, a consumação é uma desnecessária entrega à vontade regular do espectador.

 

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A solidão de “Her” não despreza os terceiros. Abordando a solidão que é comum à nossa sociedade, Spike Jonze insere Theodore em um contexto, sem a arrogância do egocentrismo. Em seus diálogos com Samantha – o OS -, o diretor parece expor seus sentimentos e pensamentos durante a crise de seu casamento e o período posterior, de aceitação. A grande beleza do filme é que o diretor suporta o recado a ele dado sem reagir com rancor ou arrogância. Em uma obra de caráter mais introspectivo, o personagem relembra os bons momentos com sua esposa, reconhece e lamenta seus erros. O passado é uma história que contamos a nós mesmos. Trata-se do primeiro filme dirigido e escrito em solo por Spike Jonze, que firmou parceria em dois de seus quatro filmes com Charlie Kaufman. Este, por sua vez, escreveu e dirigiu seu primeiro filme em 2008: “Synedocche, New York”, o qual foi produzido e, inicialmente, seria dirigido também por Spike Jonze. Sobre esta obra [sensacional], assim declarou o diretor ao The Guardian:

“On Synechdoche, New York, which I was originally going to direct, he [Kaufman] said he wanted to try to write everything he was thinking about in that moment – all the ideas and feelings at that time – and put it into the script. I was very inspired by that, and tried to do that in [Her]”

 

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Spike Jonze e Sofia Coppola permaneceram casados entre 1999 e 2003. Embora a conexão de “Lost in Translation” com o relacionamento seja mais clara por questões temporais, “Her” parece também remeter a ele. Fora as proximidades entre os filmes – e inclusive as semelhanças entre a caracterização de Giovanini Ribisi e Spike Jonze, bem como a de Rooney Mara e Sofia Coppola -, o fato de “Her”, com toda sua pessoalidade, remeter a um casamento fracassado e o casamento de Spike Jonze com Sofia Coppola ter sido o único do diretor já nos remete obrigatoriamente a ele. O filme não foi necessariamente construído como resposta a “Lost in Translation”, mas sem dúvidas o responde.

“Her” não deve ser visto, porém, como uma resposta objetiva a “Lost in Translation” ou ao término, estritamente. Relaciona-se à vida pessoal do diretor neste sentido, mas não resume-se a isto. Em reflexão sobre a sociedade contemporânea, Spike Jonze conversa conosco sobre a nossa solidão. Seu personagem diz mais do que suas reflexões sobre o relacionamento com Sofia Coppola em concreto; passando por ele, é uma reflexão sobre a própria vida do diretor, incluindo sua profissão. They’re just letters. Trata-se de um mundo onde as pessoas formam suas próprias ilhas.

Em meu dia-a-dia, quando estou em locais em que não me sinto bem, ou meramente quando estou indo de um lugar para outro, pego-me entrando no universo que existe em meu celular. Por vezes em rodas de conversa, quando encontro espaço para tanto sem soar deselegante. Às vezes mesmo soando mal. E ainda que não o faça, penso no quão bom seria fazê-lo. Não que não haja inúmeras vantagens, mas em alguns momentos paro para pensar naquele pouco – aleatório e em potencial – que estou perdendo; alguns segundos que poderiam se tornar mais importantes para mim do que um tweet ou e-mail.

A internet nos introduz a um universo no qual podemos com maior facilidade encontrar as pessoas que se encaixam à vida que desejamos, com as quais podemos conversar e compartilhar as coisas que nos interessam e formar com elas a vida que imaginamos. À medida que nos desenvolvemos, nos afastamos mais das pessoas de nosso cotidiano e nos abrigamos em nosso próprio casulo, onde formamos caminhos que condizem melhor com o que pensamos. O diferente se torna cada vez mais escasso frente às nossas crescentes certezas, porque não mais somos obrigados a conviver com ele. Isto não nos planifica? Este mecanismo que se encaixa com perfeição à rotina profissional de uma sociedade competitiva não parece tão benéfico em nossas experiências pessoais.

Toda informação a que temos acesso instantâneo realmente funciona a nosso favor?

Estamos crescendo ou nos tornando grandes pessoas solitárias, presas na trilha das ideias a que nos acostumamos?

De lado todas as razões, todos nós temos uma certeza: estamos, mais do que nunca, sós.

 

 

Pra escrever, li dois artigos bem legais:

http://whatculture.com/film/10-ways-lost-translation-connected.php

http://cinemania.es/noticias-de-cine/es-her-una-carta-de-spike-jonze-para-sofia-coppola

1 Comments

  1. Anônimo

    Olá, primeiramente, gostaria de dizer que gostei muito do seu post e de seus comentários sobre o filme. Porém, correndo o risco de parecer rude, devo dizer que achei muito triste suas palavras no que diz respeito a vida. Acredito que, ao que parece, sua solidão é causada por você mesmo. Realmente, nos dias de hoje, a internet e o “mundo dos nossos celulares” fazem parte da nossa vida e representam uma grande atração, mas não acho que isso deve nos impedir de interagir com as pessoas no “mundo real”.
    Me atrevendo a te dar um conselho.
    acredito que você deva dar mais atenção as relações interpessoais, pois a vida real e os sentimentos reais são os responsáveis pelo nossa verdadeira felicidade!

    Desculpe a intromissão!
    Mais uma vez, gostei muito do texto e do blog!

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