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Louie – a luta pelo cotidiano

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O maior erro que um ser humano pode cometer é questionar aquilo que ama ou lhe dá prazer. Alguns nascem, descobrem e morrem biologicamente. Outros nascem, descobrem, desconstroem e morrem em vida.

Agora, meus senhores, eu quero contar-lhes, desejem ou não desejem escutar isso,
por que não consegui tornar-me nem um inseto. Solenemente lhes digo que várias
vezes quis tornar-me um inseto. Mas nem isso me foi concedido. Juro-lhes, meus
senhores, que ser por demais consciente é uma doença, uma verdadeira e rematada
doença. Para o humano bastaria, até dizer chega, uma ordinária consciência humana,
isto é, metade ou três quartos daquela porção que cabe a um homem desenvolvido
de nosso infeliz décimo nono século (…).

Notas do Subsolo – Dostoiévski

 

Hoje tive um dia cansativo.  Há um ponto em minha rotina – pontualmente às 19h – em que estou sentado em um ônibus entre o trabalho e a faculdade e adentro em um estado anestésico em que não consigo identificar perfeitamente qual a linha lógica que estabeleço em minha cabeça. Aquele momento em que você sabe que está pensando, pelo pressuposto fático de conhecimento geral do ser humano de que é impossível deixar de pensar, e só por isso não se deixa levar pela ideia de que nada se passa por sua cabeça a não ser uma forte neblina entre os carros e uma mistura de vozes cansadas que chegam ao fim do dia.

Foi aí que uma voz em particular me chamou a atenção: uma mulher, sentada atrás de mim no ônibus, em voz alta no celular, reclamava sobre seu dia no trabalho. Uma cliente alegava que havia comprado chupetas e estas não haviam sido colocadas em sua sacola, enquanto a trabalhadora alegava tê-lo feito. Desabafava sobre isso com sua amiga como algo que havia posto a perder seu dia. “Quanta estupidez” – pensaria qualquer terceiro sobre aquele sentimento – “deixar que um fato tão besta acabe com seu dia”.

Tudo o que descobrimos e identificamos como verdadeiro se desconstrói em nossa passagem pelo tempo. O pressuposto infantil de que seu pai sabe exatamente o que está fazendo, o primeiro beijo, o primeiro amor, o sentimento sexual, a ambição por poder, o sucesso profissional. É natural que, em algum ponto de sua vida, quando você se pega pensando que “se sua vida estivesse de outra forma, estaria muito melhor”, perceba por experiências passadas que isto, de fato, não faria diferença nenhuma. A vida é como ela é. Sem a imortalidade da alma não pode haver virtude. O efêmero de nosso prazer é inerente à nossa percepção e realidade. O próprio prazer não possui sentido senão o criado pela mente a partir da percepção biológica. Pode ser aproveitado enquanto não desconstruído pela mente desde que não haja um pré-questionamento sobre toda e qualquer sensação, que se reveste na recusa em aceitar-se humano. Tudo se encerra em um contexto social, ainda que este seja ampliado pelo conhecimento de outras eras e costumes, porque o aumento do espaço de uma prisão não é a conquista da liberdade.

Aí está o grande prazer de boa parte das grandes sitcoms – Seinfeld, Friends, The Office (…): a aceitação do prazer do cotidiano, sem a espera de um grande sentido. A vida como ela é, pequena, simples, divertida, despretensiosa e despreocupada. Em verdade, qual a diferença entre sofrer por um problema besta de trabalho ou sofrer pelo abandono de um grande amor, um trauma de infância, um ato que incrimine a consciência?

Afinal, se o prazer é racionalmente pré-condenado, desconstruído – se não há absolutamente nenhuma diferença entre o vazio do pós-vida e a existência que não nos proporciona qualquer sentido – por que não depositamos ainda um tiro em nossas cabeças? Além do simples fato de nossa covardia humana nos impedir de fazê-lo? O fato é que o melhor que o existencialismo pode prover ao mundo é ser exterminado como um vírus, antes que contamine as demais pessoas. Mas somos egoístas e preferimos coloca-las em risco por uma esperança vã de que estejamos enganados, ou que seremos curados em algum momento. Quando buscamos algo grande demais – exceder os limites do ser humano – chegamos ao ponto de não conseguirmos voltar atrás e descobrirmos que simplesmente não estamos prontos – ou fomos feitos – para ultrapassar esse limite. E é quase sempre tarde demais. Vivemos em um mundo incomunicável.

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É por isso que se referir a Louie como “uma versão adulta de Seinfeld” é completamente minimalista. A principal diferença de Louie para as demais séries citadas é que ela não é simplesmente uma ode ao cotidiano, mas sim uma luta por ele. A personificação da velha piada do palhaço Paggliacci é um existencialista que luta para viver.

No S02E09, quando Louie se encontra com seu velho amigo Eddie, temos uma situação peculiar: um existencialista defendendo a vida contra um velho amigo ranzinza e pessimista. São os vinte e dois minutos que todo existencialista deveria assistir. Muitas pessoas chegam a um ponto na vida que precisam escolher entre lutar para sair do buraco em que se enfiaram ou esperar que a terra naturalmente o cubra. Mas não pedir que alguém lhe estenda a mão para puxá-lo à situação em que está.

Pegue o metrô ou entre no carro.

2 Comments

  1. Ulysses Marins

    Excelente texto, caro autor. Sinto falta de textos relacionando filosofia com entretenimento. Muito interessante sua linha de pensamento. Abs

  2. Carolina Rodrigues

    òtimo texto!

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