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Louie’s season 4

The Comedy Cellar stage, one of the locations that the "Louie" show is filmed.

“Mas na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?”

Há uma grande antítese no humor de Louis CK: em stand-ups, Louie é um provocativo comediante que testa sem pudores os limites do moralismo e a resistência do público ao imoral; em sua vida, Louie é, ao menos em sua conduta externa, um incansável defensor de sua ideia de moralidade, não se importando, porém, em atentar contra qualquer resquício de moralidade que não encontre fundamento senão em si própria e, portanto, nenhuma utilidade senão a adequação social ao arquétipo do bom cidadão.

Referidos comportamentos antitéticos se refletem, inclusive, na montagem da série, que varia entre o comportamento ativo e preocupado de Louie em sua “vida real”, de onde surgem suas piadas, em contraposição ao seu comportamento em um stand-up comedy, despreocupado e inconsequente. Isto não se limita aos stand-ups da série, mas aplica-se aos stand-ups do comediante na vida real, com os quais sua série colabora de forma imensurável. Isso cria, além, um clima de intimidade dos fãs de Louie e da série, que compreendem o que está por trás do que, para uma plateia ordinária, seria um mero inconsequente arriscando falácias agressivas que podem machucar ou forçar o senso de humor da plateia a torcer-se e aceitar as ideias que seriam absurdas em outro campo que não a comédia.

Tem-se, aqui, o primeiro problema (cuja culpa não pode ser atribuída a Louie): a série, em sua excelente terceira temporada, com, inclusive, sensacional participação de David Lynch como ator, explodiu. O público entrou em contato com aquele self-financed comediante que, até então, escrevia para públicos muito específicos. De repente, todos os “críticos” precisavam assistir pela primeira vez, em uma porção limitada de tempo, a todas as temporadas da série, porque estaria em voga com a quarta temporada e não há revista e site de entretenimento que se respeite que não publicaria uma review e textos esparsos sobre ela.

Louis CK, porém, é um artista completamente espontâneo que está, destaque-se, pouquíssimo se fodendo para os caçadores de críticas que precisam produzir ideias em cima de suas ideias a qualquer custo, e fazer um público que compreende a série tão bem quanto eles engoli-las e repassá-las. O que Louie fez, então, foi dar continuidade natural ao caminho aberto pelo final da terceira temporada, colocando os dois pés no drama e no turbilhão de conflitos de sua existência, afastando-se do humor e aproveitando o espaço conquistado por sua série pra expor um redemoinho de pensamentos que o ataca em seu interior. Não que nunca o tivesse feito, mas ainda não havia uma temporada cujo enfoque fosse esse.

E o que acontece quando as pessoas que não conhecem o Louie que há por trás do humor são as pessoas que opinarão sobre esta quarta temporada tão intimista e atípica?

Se você assiste a Louie já há algum tempo, uma sugestão: procure diversas reviews da temporada como um todo, ou textos sobre episódios avulsos, e tente diferenciar os escritores que estão há algum tempo tentando captar o conceito da série e os escritores que estão agora a assistindo e produzindo o velho “conteúdo-obrigação”: a homogeneidade das opiniões é surpreendente. O texto mais famoso – e mais raso – sobre a temporada até então é um exemplo nítido disto: lidando com o velho clichê do “por que estamos dando ouvido a ele?”, a verdadeira questão que se levanta é: “por que estão assistindo à série e nos presenteando com opiniões tão lastimáveis e que tão pouco acrescentam?”.

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“O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão.
Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino.
O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo, a imagem da mais intensa realização vital.
Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.”

Nesta quarta temporada, temos uma ideia conflituosa central que se ramifica em diversas situações concretas: Louie está debatendo suas próprias hipocrisias, seja as que ele sequer pôde identificar anteriormente, embora dolorosamente óbvias, seja as que ele identifica, mas não encontra um meio ou solução de se livrar delas. Além, Louie consegue ramificar a abordagem em seu aspecto pessoal, mas também de forma social, tentando identificar as forças que o obrigam a agir daquela forma e, muitas vezes, sequer identificar que suas ações são completamente reprováveis em um campo ideal, tamanha a naturalidade e necessidade das condutas para o caminho da aceitação social.

Em seu relacionamento com Vanessa (Sarah Barker), a garçonete acima do peso do Comedy Cellar, Louie descobre um problema comportamental simultaneamente evidente e surpreendentemente oculto à sua percepção por muito tempo: ele próprio integra o grupo de pessoas que reforça a imposição de padrões que tanto o maltratam.

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Ao se deparar com sua filha de doze anos fumando maconha, Louie é obrigado a enfrentar uma hipocrisia à qual não enxerga solução senão o abraço em que a circunstância deságua: como impedi-la de fazer algo que ele próprio fez; como agir dentro dos padrões esperados de um pai, um educador, sendo ele próprio um ser humano que compreende o que fundamenta sua atitude e quais os conflitos juvenis que a induzem à fuga comportamental que adotou? Em contraste ao seu humor típico ao abordar o tema, como neste stand-up, em que sugere que as drogas seriam a perfeita solução para os adolescentes, bem como suas incontáveis declarações de que é usuário esporádico de drogas – como suas narrativas em comedians with cars getting coffee -, Louie reconhece e alerta seu público das consequências negativas e dos problemas que estão por trás da fuga de problemas psicológicos ao recurso drogas.

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No tocante à polêmica cena em que Louie beira – se não concretiza, tendo em vista que o estupro não demanda a conjunção carnal propriamente – estuprar Pamela, faz-se necessário destacar o que não convém: não se trata de uma gravação de Louis CK em sua vida real e a cena sequer constitui uma apologia ao estupro. É uma cena desconfortável para o mundo feminino e para uma parcela considerável do mundo masculino, onde Louie poderia estar incluído. À parte esta consideração, é uma cena cotidiana e real, infelizmente. Mas que não deve ser analisada senão contextualizada em seu propósito. Face à exposição até então feita, surpreende-me que a situação não tenha contagiado pela discussão assim como ocorreu com a cena de Vanessa. É o feminismo um discurso que não se expandirá pelos gêneros por não tolerar a integração?

Desde que conheceu Pamela, Louie é um cara excepcionalmente legal com ela, mesmo que ela o faça se sentir um lixo a todo tempo. É evidente que Pamela não quer se relacionar com Louie pelas mesmas razões pelas quais Louie não quer se relacionar com Vanessa: porque ele é careca, gordo, ruivo, branquelo. Assim, inclusive, Louie fecha sua quarta temporada: mesmo após o relacionamento concretizar-se, ainda que, em prática, superados estes preconceitos padronizados, Pamela joga em sua cara, em frente às suas filhas, o quão inadequado e indesejável ele é, utilizando-se dos próprios padrões que, sem qualquer exagero, destroem vidas de muitas mulheres. Não é algo que justifica o estupro, e tenho certeza de que o próprio Louis CK não pensa assim, mas Louie aponta ao fato de que há também mulheres que reforçam estes padrões de beleza que tanto reclamam por vincularem os homens. É um aspecto que oprime muito mais a mulher. Ainda que um possível egoísmo de Louie em expor sob a perspectiva que menos ofende.  O homem também sofre, e de forma crescente, os males da padronização em seu aspecto social. Mas não sente em sua pele a opressão em seu sentido estrutural, fator limitador que eleva a não adequação a níveis de reprovabilidade que intensificam o campo subjetivo e vão além como barreiras intransponíveis do campo social.

Resta, porém, a questão: se o objeto do feminismo é a equidade de gêneros e a quebra de padrões estéticos e preconceitos sociais que se escondem em situações de imobilidade injustificável, por que o homem que também o anseia não pode ser ouvido? Por que sua voz não pode ser interessante e produtiva para a discussão?

Não se trata da inserção do homem como protagonista. O machismo é uma circunstância que volta no tempo até o infinito, até a gênese de nosso conhecimento da história. Integralmente, o homem o apoia ainda na contemporaneidade, seja intencionalmente, seja em atitudes que não percebem. Há, porém, uma diferença fundamental entre o dolo e a culpa neste comportamento. Não se pode ignorar, também, que alguns homens – ainda que uma parcela mínima – querem se adequar a esta nova demanda de comportamento e, rotineiramente, não conseguem fazê-lo. É realmente uma solução que as mulheres simplesmente ignorem estas tentativas, em lugar de analisá-las e corrigi-las? O “erro” de Louis CK é, de fato, completamente improdutivo? Ou trata-se de uma exposição fidedigna da infeliz realidade, dando abertura à discussão e à possível otimização concreta do discurso?

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“Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar,
que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real,
que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes”.

Por fim, em seu percurso, Louie arrisca-se em uma tentativa de fuga destes padrões: um relacionamento com uma estrangeira, com a qual sequer pode comunicar-se pelas vias tradicionais. Ao fazê-lo, porém, Louie nos brinda com uma demonstração de que há muito mais na linguística do amor do que o que traduzem os idiomas e a comunicação tradicional, o que está exposto em algumas cenas veneráveis, como a que Amia se comunica com sua filha, através do violino, de uma forma mais intensa e verdadeira do que ele poderia fazer pela linguagem ordinária do cotidiano.

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Uma das grandes qualidades de Louie, explícita nesta quarta temporada, é seu talento para aguçar a curiosidade e apoiar a dúvida, o que pode ser muito cruel para uma parcela do público que se conforta e se enfeita tanto com certezas, indiferente aos seus fundamentos.

“Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Trechos de “A insustentável leveza do ser”, Milan Kundera

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