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Mistaken for Strangers, de Tom Berninger

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O The National disponibilizou no dia 28 de março, em seu site oficial, o documentário “Mistaken for Strangers”, por $15,00 dólares. É difícil imaginar outro documentário que retrate tão bem o National quanto este, que, no fim, não é um documentário sobre a banda.

“Mistaken for Strangers” é um excelente desarranjo sobre os artistas que são, os que serão e os que nunca conheceremos. A ideia não é estranha para os membros de uma banda com pouco apelo comercial que se formou em 1999, produziu e lançou seu melhor álbum em 2005/2006 (“Alligator”), começou a conquistar seu espaço somente em 2007 com o lançamento do “Boxer”, o qual se consolidou com o “High Violet” (2010) e se expandiu com o “Trouble will find me” (2013). Em seu show em São Paulo (2011), lembro-me de Bryce Dessner anunciando “Lucky You” (última faixa de “Sad songs for dirty lovers”) como a única música na qual sua mãe gostava da voz de Matt. Lembro-me de pensar no National –  enquanto ouvia o “Alligator” e, principalmente, o “Boxer” – como a excelente banda que nunca sairia do underground (possivelmente a ingenuidade de quem não conhece bem o mercado musical).

Se por um lado está o National, uma banda atualmente consolidada, com todos os méritos imagináveis, de outro lado está Tom Berninger, irmão do front man da banda, um artista perdido, já em idade de mostrar resultados, com um futuro obscuro pela frente (posição nada estranha para os membros da banda). Em seu curriculum, aparente headbanger e produtor de filmes de terror amadores.

Sob o aspecto secundário, temos um documentário que demonstra como o National, frente ao sucesso atual da banda, mantém seu feeling “homemade” e de proximidade. Por um lado, uma referência musical internacional. Por outro lado, uma banda que ainda carrega uma intimidade e a sinceridade que teve em toda sua carreira. Em uma de suas cenas, temos a manager do National  – Dawn Barger – pedindo para ver as filmagens de Tom, por precaução, dando o tom de profissionalidade – bem nítido na postura de Brandon Reid, tour manager da banda e vilão do documentário – que contrasta em aparência com o som, a carreira e até mesmo o que conhecemos em vídeos e imagens do background da banda. Cena que entrou no documentário e, vista em seu contexto, nos faz ter ideia amadora de que o National sequer precisa de um manager, ao menos no fronte do marketing. Demonstra, enfim, que a banda teve duas características essenciais para sobreviver no mundo musical, e que a princípio são quase inconciliáveis: o profissionalismo e a manutenção da espontaneidade. A banda trabalhou para chegar onde está, mas não deixou seu trabalho desvirtuar-se pelo objetivo.

Há, claro, seu lado cômico. Com um Tom Berninger inexperiente e perdido fazendo perguntas aleatórias aos membros da banda (como a Scott Devendorf: se os membros da banda carregam suas carteiras quando estão no palco). É uma oportunidade de ver o cara que termina todo show bêbado de vinho, caindo pelo palco – quando não na plateia -, tirar a longneck de cerveja das mãos de seu irmão porque you drink all the time, you don’t know when to stop.

Em superfície, “Mistaken for Strangers” é um documentário excessivamente centrado na vida pessoal de Matt Berninger e Tom Berninger, bem como na relação de ambos. Os demais componentes da banda chegam a comentar sobre o possível incômodo no foco das atenções em Matt Berninger (não apenas no documentário em si). A fundo, trata do perigoso mundo da música. Sobre os caras que estão por aí tentando encontrar seu espaço e sobreviver disso, e seus grandes borrões distorcidos e indistinguíveis como futuro.

As oportunidades do mundo da arte são extremamente oscilantes, seja pela área escolhida (música, pintura, cinema) e os altos custos nela envolvidos, seja pela demanda do público e o caráter empresarial que a reveste e sustenta, seja pela qualidade. Ainda a todos estes itens já suficientemente voláteis, soma-se o elemento mais incontrolável da vida: a sorte, o acaso. Em si, a manifestação artística é um risco, não sendo, portanto, de se espantar – embora não seja desejável ou justifique -, que a vida de um artista também o seja. Mas estas pessoas andam por aí, mantendo vivo o que não é a obviedade, pagando o preço com suas próprias vidas. Tom Berninger é um destes caras, que está tentando se expressar verdadeiramente, sem pular etapas, à seu risco. E é o principal motivo pelo qual você deveria assistir a “Mistaken for Strangers”.

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