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O retorno de Scorsese em “The Wolf of Wall Street”

Director Martin Scorsese arrives at The Royal Premiere of his film Hugo at the Odeon Leicester Square cinema in London

“The Wolf of Wall Street”: o filme mais Scorsese dos últimos dez anos, no mínimo. Não o melhor, não o pior. Em se tratando de arte, tal questionamento é infrutífero. Remete-nos a um feeling de quando Scorsese se apresentou a nós, em early classics como “Taxi Driver”, “Mean Streets” ou “Raging Bull”.

Scorsese faz parte de uma geração de diretores que passaram por uma graduação, propriamente, de Cinema, em conjunto com outros nomes como Oliver Stone. Apesar de já considerado gênio enquanto graduando da NYU, não foi fácil para o diretor alcançar o renome que possui atualmente. Embora já no início de sua carreira tenha demonstrado seu inquestionável talento em filmes como “Mean Streets” & “Taxi Driver”, com o fracasso de “New York, New York”, Marty sucumbiu por completo ao vício por cocaína. Ele próprio cogitou ter sido este o último filme de sua carreira.

Fiquem tranquilos, eu aviso a partir de que momento haverá spoilers

 

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Eis aqui um dos motivos pelo qual, ao recuperar sua confiança na indústria hollywoodiana firmando parceria com Leonardo DiCaprio (sim, o próprio Scorsese teve severos problemas em conseguir produção. Hollywood é a indústria do Cinema e todos conhecem a lei número um de uma indústria: não importa quem você é, dinheiro não deve ser desperdiçado), Scorsese reafirmou seu nome com o público e, simultaneamente, levantou questionamentos com uma boa parcela de seus próprios fãs:

Quando penso comparativamente em duas parcerias de grande sucesso entre os cinéfilos, penso em dois perfis também de sucesso, embora completamente opostos, de diretores e atores. Quando Jack Nicholson comenta a fama de Kubrick em seu tratamento com os atores, o próprio aponta algumas procedências e outros exageros. Kubrick foi famoso por seu “abandono” a Malcolm McDowell após a gravação de “Clockwork Orange”, bem como seu tratamento impaciente e agressivo em relação a Shelley Duvall em “The Shining”. Em comentários sobre os bastidores do próprio “The Shining”, Jack Nicholson expõe Kubrick como alguém superficialmente compreensivo. Quando via um ator fazer algo fora do esperado (ou do que gostaria) em uma cena – segundo Nicholson – Kubrick o chamava e o deixava falar pelo tempo que fosse necessário, ouvindo-o com atenção, para depois simplesmente refutar sua ideia e pedir que caminhasse de acordo com o que esperava. Para Jack Nicholson, isto não era incômodo: ele conseguia visualizar um limite entre o papel do ator e do diretor, considerando sua transposição uma invasão (o que não significa limitar-se por completo ao esperado ou ao que o roteiro o disponibilizava). Vale lembrar, aqui, que todos os grandes clássicos de Kubrick foram recepcionados com dureza pela crítica, enquanto Scorsese declara que esperava com grande expectativa qualquer filme em que o nome “Kubrick” figurasse como diretor. Para Marty, era obrigatoriamente um indicativo de um filme diferente; segundo Scorsese, Kubrick possuía sua marca, mesmo lutando contra a crítica, o que indica a capacidade de visão e discernimento independente do diretor.

Sorte para ambos e para nós, a relação entre Scorsese e De Niro foi diversa. Robert De Niro possui o perfil inverso de ator: ativo, invasivo, de iniciativa que transcende sua atuação. Com Scorsese afundado na cocaína e depressão, após ler a autobiografia de Jake LaMotta, De Niro desenvolveu obsessão em fazer um filme a respeito do ex-boxeador norte-americano. Treinando com o próprio (o qual, inclusive, tentou convencer De Niro a realmente seguir carreira no esporte), o ator insistiu para que Scorsese tomasse o projeto e se reerguesse. Em pré-produção exaustiva, De Niro recusou diversos roteiros encomendados por Scorsese, até aceitar o de Paul Schrader (que já havia sido roteirista de “Taxi Driver” e escreveria outros filmes com o diretor posteriormente, como “Bringing out the Dead”) e Mardik Martin. “Raging Bull”, que conta com a lendária atuação de De Niro – com suas alterações de peso e seu envolvimento excessivo com o papel – e direção excelente (elogio redundante) de Scorsese, foi o filme que ressuscitou o diretor.

 

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Não é de se espantar, portanto, a resistência dos fãs com uma nova parceria de Scorsese, desta vez com DiCaprio. O intenso envolvimento anterior do diretor com um dos maiores atores da história do Cinema norte-americano tornou os fãs resistentes a um novo nome figurando ao lado de Scorsese, ainda que este nome tenha passado por indicação do próprio De Niro. A situação se agrava por se tratar de DiCaprio, que é um ator que vive em um limiar, sem conquistar em definitivo a confiança da crítica: Por vezes excelente ator, por vezes mediano. Esta dúvida, inclusive, perdurou por seus filmes em parceria com Scorsese (“Gangs of New York”, “The aviator”, “The departed”, “Shutter Island”).

 Spoilers a partir daqui

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Não é que eu pense que algum ser humano vá perder a oportunidade de assistir a “The wolf of Wall Street”, ainda que em DVD. Trata-se aqui do privilégio de fazer parte do grupo de pessoas que assistiram à obra no Cinema e fizeram parte daquilo. Em minha opinião, em nenhum momento de sua carreira Marty deixou de ser o grande diretor que é. O que há de diferenciado em “The Wolf of Wall street” é um resgate de Marty às origens que o consagraram. O humor e estilo explícito que tanto influencia grandes diretores de nossa geração, como o próprio Tarantino. Uma direção vívida e envolvente brindada com a melhor atuação de DiCaprio em parceria com o diretor (talvez a única convincente). Com o conhecimento e vivência que possui, Scorsese confronta dois personagens, apresentando apenas um deles, quase “comprando” o público – de forma maestral – ao estilo de vida de Jordan Belfort (interpretado por DiCaprio), deixando em completo segundo plano Jean Jacques Saurel (personagem interpretado por Jean Dujardin) para, em um turnover não tão inesperado, apesar de surpreendente pelo caminho optado pelo diretor, à semelhança do ocorrido em “Raging Bull” – embora despertando sentimentos completamente diversos pelas circunstâncias contrastantes – derrubar, de uma só vez, seu protagonista (e o espectador) e, pelo mesmo caminho explícito optado por toda a obra, expor a queda de Jordan e a vitória – fora dos moldes de ostentação traçados pelo filme – de Jean. Em um mesmo filme, Scorsese reúne o explícito, o divertido, a acidez e a crítica, sem nunca perder o envolvimento.

Após assisti-lo mudo por suas três horas de duração – guardando em meu bolso o ingresso que iria para uma obscura caixa de papelão ocupada por lembranças -, como se fosse um terceiro, assisti a meus lábios, quase involuntariamente, dizerem: “Still got it, motherfucker. Still got it”.

Sinceramente, se você perder este filme, trinta minutos com as mãos nas chamas de uma vela não serão suficientes para se perdoar. Não simplesmente pela obra, mas pelo “retorno”. Como um lunático falando sozinho, deixo meu agradecimento a este diretor que mudou minha vida. Entrar no Cine e descobrir que Scorsese, aos 71 anos, still got it, é o indicativo de que chegou o momento de finalizar o texto: não há palavras.

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