Lost in Translation & Her

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Por que não podemos suportar a solidão? Uma pergunta circunstancial, de diversas tonalidades, capaz de parar o mundo em qualquer circunstância.

 

Fazer o café às cinco da manhã. Minha mesa no trabalho. A primeira vez em que cheguei ao apartamento e minha gata não estava na porta. Olhar o céu pela janela do meu quarto, à noite. O colégio. Dirigir na chuva pela primeira vez. Colocar a cabeça no chuveiro da casa dos meus pais, com eles viajando. O mês seguinte à mudança de cidade do meu melhor amigo. A vista do MAM em Niterói, à noite, durante os dias de semana. O quarto dos meus avós no carnaval. A cadeira do Cinema, antes de começar o filme. Meu quarto quando meu irmão se mudou. Chegar em casa após a primeira vez em que fui a um bar sem companhia. Tirar a aliança. Um livro de madrugada com o dimmer baixo. Procurar distância de um grupo de amigos para fumar, após uma risada.

A solidão não é ruim. É o medo do perpétuo que a estraga. O prazer de subir em arranha-céus e admirar a paisagem urbana. À distância. Onde ninguém pode nos ouvir. Mas de onde temos certeza de que a cidade ainda está lá. A vida em sociedade, em sua rotina, é um sacrifício para evitar o insuportável.

Em coletivo, formamos nossas ambições e competimos profissionalmente. Mas não é tudo o que nosso estilo de vida nos traz. Construímos nossa ideia de amor e profundidade psicológica no Cinema, em nossos livros e nas grandes histórias de que ouvimos falar. Assim nos formamos, assim nos distanciamos. A vida se torna cada vez mais imaginária. Somos bons nisso. São grandes e belas ideias. É o meio de criamos coisas que nos dão prazer diariamente, das quais gostamos muito. Mas estamos todos sozinhos. Esperando que as coisas aconteçam como idealmente desejamos.

“But men labor under a mistake. The better part of the man is soon plughed into the soil for compost. By seeming fate, commonly called necessity, they are employed, as it says in an old book, laying up treasures which moth and rust will corrupt and thieves break through and steal. It is a fool’s life, as they will find when they get to the end of it, if not before

(…)

Actually, the laboring man has not lesure for a true integrity day by day; he cannot afford to sustain the manliest relations to men; his labor would be depreciated in the market. He has no time to be any thing but a machine. How can he remember well his ignorance – which his growth requires – who has so often to use his knowledge?”.
Henry David Thoureau – “Walden; or, Life in the Woods”

Embora teoria de cinéfilos, inquestionavelmente, “Lost in Translation” (2003), escrito e dirigido por Sofia Coppola, e “Her” (2013), escrito e dirigido por Spike Jonze, comunicam-se. Ambos filmes têm a mesma temática central: a solidão.

!!Contém Spoilers!!

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Em 2003, Charlotte, interpretada por Scarlett Johansson, sente-se sozinha em seu casamento com John, à época, fotógrafo, trabalhando com músicos, em boa fase de sua carreira (Em semelhança a John, Spike Jonze dirigiu quarenta e quatro clipes musicais nos 90s e até o fim de seu casamento com Sofia, em 2003). Não só por isso. Aparentemente seu círculo social soa plano para ela, recém-formada em filosofia e com todas as possíveis interrogações sobre si mesma. Perdida em Tóquio – uma cidade do futuro para o presente -, caminhando como uma estranha em uma cidade à qual não pertence, em meio a uma vida à qual parece também não pertencer. É lá que Charlotte conhece Bob Harris – interpretado por Bill Murray -, um ator em idade que lhe possibilita maior certeza sobre seus “pessimismos”.

 

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Em 2013, Theodore é um escritor de cartas pessoais de terceiros. Vivendo sozinho em uma cidade caracterizada como um futuro próximo, o personagem interpretado por Joaquin Phoenix tenta deixar para trás um casamento fracassado. Encontra suporte em um OS, software desenvolvido para se adaptar ao ser humano por ele contratado e ajudá-lo com suas tarefas, bem como fazê-lo companhia. A quem empresta voz Scarlett Johansson, substituindo de última hora Samantha Morton.

 

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Em “Lost in Translation”, Sofia Coppola expõe a solidão quase como um privilégio dos que vão além ao refletirem sobre a própria vida, por vezes apoiando seus personagens na fragilidade dos demais. Seu marido a abandonou, seu círculo social é banal. Ao final, porém, a própria diretora se entrega à banalidade. Um dos elementos que torna o filme interessante é o fato de o espectador não entender – assim como Bob – o que há entre os personagens, provocado em boa parte pela diferença de idade entre eles. Tal diferença é o que soa como a maior das barreiras entre dois personagens em sintonia. Embora não fiquem juntos, o beijo joga o filme à velha banalidade de comédias românticas de que não importa o quão diferente você seja ou o quão perdido você esteja, things are going to work out. Por mais que não tenham ficado juntos, e suas vidas aparentemente sigam como antes, a consumação é uma desnecessária entrega à vontade regular do espectador.

 

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A solidão de “Her” não despreza os terceiros. Abordando a solidão que é comum à nossa sociedade, Spike Jonze insere Theodore em um contexto, sem a arrogância do egocentrismo. Em seus diálogos com Samantha – o OS -, o diretor parece expor seus sentimentos e pensamentos durante a crise de seu casamento e o período posterior, de aceitação. A grande beleza do filme é que o diretor suporta o recado a ele dado sem reagir com rancor ou arrogância. Em uma obra de caráter mais introspectivo, o personagem relembra os bons momentos com sua esposa, reconhece e lamenta seus erros. O passado é uma história que contamos a nós mesmos. Trata-se do primeiro filme dirigido e escrito em solo por Spike Jonze, que firmou parceria em dois de seus quatro filmes com Charlie Kaufman. Este, por sua vez, escreveu e dirigiu seu primeiro filme em 2008: “Synedocche, New York”, o qual foi produzido e, inicialmente, seria dirigido também por Spike Jonze. Sobre esta obra [sensacional], assim declarou o diretor ao The Guardian:

“On Synechdoche, New York, which I was originally going to direct, he [Kaufman] said he wanted to try to write everything he was thinking about in that moment – all the ideas and feelings at that time – and put it into the script. I was very inspired by that, and tried to do that in [Her]”

 

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Spike Jonze e Sofia Coppola permaneceram casados entre 1999 e 2003. Embora a conexão de “Lost in Translation” com o relacionamento seja mais clara por questões temporais, “Her” parece também remeter a ele. Fora as proximidades entre os filmes – e inclusive as semelhanças entre a caracterização de Giovanini Ribisi e Spike Jonze, bem como a de Rooney Mara e Sofia Coppola -, o fato de “Her”, com toda sua pessoalidade, remeter a um casamento fracassado e o casamento de Spike Jonze com Sofia Coppola ter sido o único do diretor já nos remete obrigatoriamente a ele. O filme não foi necessariamente construído como resposta a “Lost in Translation”, mas sem dúvidas o responde.

“Her” não deve ser visto, porém, como uma resposta objetiva a “Lost in Translation” ou ao término, estritamente. Relaciona-se à vida pessoal do diretor neste sentido, mas não resume-se a isto. Em reflexão sobre a sociedade contemporânea, Spike Jonze conversa conosco sobre a nossa solidão. Seu personagem diz mais do que suas reflexões sobre o relacionamento com Sofia Coppola em concreto; passando por ele, é uma reflexão sobre a própria vida do diretor, incluindo sua profissão. They’re just letters. Trata-se de um mundo onde as pessoas formam suas próprias ilhas.

Em meu dia-a-dia, quando estou em locais em que não me sinto bem, ou meramente quando estou indo de um lugar para outro, pego-me entrando no universo que existe em meu celular. Por vezes em rodas de conversa, quando encontro espaço para tanto sem soar deselegante. Às vezes mesmo soando mal. E ainda que não o faça, penso no quão bom seria fazê-lo. Não que não haja inúmeras vantagens, mas em alguns momentos paro para pensar naquele pouco – aleatório e em potencial – que estou perdendo; alguns segundos que poderiam se tornar mais importantes para mim do que um tweet ou e-mail.

A internet nos introduz a um universo no qual podemos com maior facilidade encontrar as pessoas que se encaixam à vida que desejamos, com as quais podemos conversar e compartilhar as coisas que nos interessam e formar com elas a vida que imaginamos. À medida que nos desenvolvemos, nos afastamos mais das pessoas de nosso cotidiano e nos abrigamos em nosso próprio casulo, onde formamos caminhos que condizem melhor com o que pensamos. O diferente se torna cada vez mais escasso frente às nossas crescentes certezas, porque não mais somos obrigados a conviver com ele. Isto não nos planifica? Este mecanismo que se encaixa com perfeição à rotina profissional de uma sociedade competitiva não parece tão benéfico em nossas experiências pessoais.

Toda informação a que temos acesso instantâneo realmente funciona a nosso favor?

Estamos crescendo ou nos tornando grandes pessoas solitárias, presas na trilha das ideias a que nos acostumamos?

De lado todas as razões, todos nós temos uma certeza: estamos, mais do que nunca, sós.

 

 

Pra escrever, li dois artigos bem legais:

http://whatculture.com/film/10-ways-lost-translation-connected.php

http://cinemania.es/noticias-de-cine/es-her-una-carta-de-spike-jonze-para-sofia-coppola

Como foi o Oscar 2014 e suas principais categorias

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Como vocês podem perceber – especialmente pelo rosto de Julia Roberts -, people had a great time at the Oscars this year. Aparentemente para se conduzir uma boa cerimônia não basta encontrar um bom host(ess) – como tivemos neste ano, com Ellen Degeneres -, mas a presença de bons filmes também é necessária (e esteve escassa nas últimas edições, especialmente 2012 e 2013).

A noite de Gravity (sete estatuetas) foi roubada no momento decisivo por “12 Years a Slave”, que acabou levando por Melhor Filme, o que foi um susto embora não haja sido propriamente uma surpresa.

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Em Gravity, Cuarón alcançou uma ótima experiência de Cinema, que não poderá ser recuperada pelos que estão atrasados, exceto aqueles que possuam uma sala particular para reprodução. Visto em sua sala de televisão, “Gravity” provavelmente será o grande whattafuck deste Oscar. Não à toa, visto que Cuarón simplesmente esqueceu-se da parte chamada “roteiro”, Gravity é um filme tecnicamente admirável, uma experiência diferenciada para o espectador, mas nem de longe um bom filme. Por isto, vencedor de prêmios majoritariamente técnicos, ou de arte estética (Cinematography, Directing, Film editing, Music – Original Score, Sound Mixing, Visual Effects), “Gravity” não levou, felizmente, Best Picture.

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Se a Academia foi feliz em não dar “Best Picture” a “Gravity”, isto não significa que tenha sido feliz em dá-lo a “12 Years a Slave”. Percebam, antes que se exaltem: escolhi uma foto com Benedict Cumberbatch. C’mon, you know you like me right now. O inesperado do Oscar não foi, porém, uma surpresa: “12 Years a Slave” é um filme pensado em Oscar, começando no roteiro, passando pela montagem e parando por um bom tempo no casting. Enquanto em “Django Unchained” Tarantino dá tapas na cara do público adulto norte-americano, “12 Years a Slave” conta a escravidão para um adolescente velho demais pra ouvir os eufemismos de sempre e novo demais para se assustar em demasia. É um filme para as pessoas tomarem café e discutirem sobre os absurdos da história norte-americana sem sujarem demais os próprios olhos. Enfim, um filme que se passa no período de escravidão e não estragará sua noite. Lupita Nyong’o, porém, que nada tem a ver com a produção, direção e roteiro do filme, pode ficar feliz por brindar sua bela atuação com seu Oscar (Actress in a supporting Role).

Falando em atuação, muitos atores e atrizes têm razão o bastante para acordarem tristes hoje. No caso dos meninos, porque a categoria este ano estava difícil e seria impossível que ganhassem todos os que mereciam o prêmio. No caso das meninas, porque estava fácil de decidir e, se a coisa tá fácil, é porque não está boa.

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Sequer as polêmicas ao redor de Woody Allen e sua filha Dylan Farrow foram bastantes para tirar de Cate Blanchett este Oscar de Best Actress in a leading role. Atrás dela, o fantasma de Amy Adams (American Hustle). Cate Blanchett conseguiu, em um dos filmes mais “sem sal” de Woody Allen dos últimos anos (“Blue Jasmine”), preencher o difícil papel de Jasmine. Como Best Supporting Actress, Lupita Nyong’o era favorita absoluta e levou com justiça.

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Actor had some tough calls this year, ma friends. Enquanto todos os protagonistas foram bem, inclusive Di Caprio com sua melhor atuação desde o início de sua parceria com Scorsese, McCounaughey acabou por levar, com todos os méritos, Best Actor in a Leading Role. Boa parte das grandes qualidades de “Dallas Buyers Club” deve-se às atuações, e a Academia reconheceu isso ao conceder também a Jared Leto o prêmio de Best Actor in a supporting role. Embora tenha concorrido com figuras como Bradley Cooper – que ninguém nunca saberá explicar por que foi indicado ao prêmio -, concorreu também com atores como Jonah Hill, que teve ótima atuação em “The Wolf of Wall Street”. Aparentemente o elenco de “Dallas Buyers Club” desbancou por completo os caras de Marty.

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Let’s take a momento pra falar sobre “The Wolf of Wall Street”, embora já tenha falado o bastante sobre ele aqui. O filme recebeu cinco Indicações (Best Picture; Actor in a leading role; Actor in a supporting role; Directing; Writing, adapted screenplay) e acabou levando: zero. Muitas das estatuetas, assustadoramente justas. Cuarón realmente arrebentou em “Gravity”, bem como McCounaughey e Jared Leto em “Dallas Buyers Club”. Embora não tenha sido também meu filme favorito do Oscar 2014 (Fico com “Her”, do Spike Jonze), creio que “The Wolf of Wall Street” merecesse “Best Picture”. No conjunto, é o filme mais completo deste Oscar. Uma pena que saia de mãos abanando.

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Falando em filme favorito do Oscar, a suposta resposta de Spike Jonze a Sofia Coppola (“Lost in Translation”) rendeu a Spike Jonze não só o Oscar de Best Writing (Original Screenplay), como também a maior injustiça do Oscar 2014. Music (Original Score) não só deveria ir para “Her” (William Butler & Owen Pallett), como não deveria ir pra Gravity ainda que “Her” nunca houvesse sido feito. A bem da verdade, o vencedor da categoria não é sequer o segundo melhor dos indicados. O próprio experiente John Williams em “The Book Thief” teria sido o bastante para bater “Gravity”. Uma lástima.

Falando em música, a vitória de “Let it Go” (“Frozen”) – executada por Idina Menzel e de autoria de Kristen Anderson-Lopez & Robert Lopez – deixou todo mundo feliz por não ter de ouvir Bono Vox discursar. Não, não, não.. Obrigado a vocês, guys, de verdade.

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Por fim, “La Grande Bellezza” (Italy) levou Best Foreign Language Film, sobre o qual já escrevi Aqui.

 

 

Enfim, assim ficou o Oscar 2014:

Gravity
Directing (Alfonso Cuarón)
Cinematography (Emmanuel Lubezki)
Film Editing (Mark Sanger & Alfonso Cuarón)
Music – Original Score (Steven Price)
Sound Editing (Glenn Freemantle)
Sound Mixing (Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead, Chris Munro)
Visual Effects (Tim Webber, Chris Lawrence, David Shirk, Neil Corbould)

12 Years a Slave
Best Picture
Best Actress in a supporting role (Lupita Nyong’o)
Adapted Screenplay (John Ridley)

Dallas Buyers Club
Best Actor in a leading role (Matthew McConaughey)
Best Actor in a supporting role (Jared Leto)
Makeup and Hairstyling (Adruitha Lee, Robin Mathews)

The Great Gatsby
Costume Design (Catherine Martin)
Production Design (Catherine Martin, Beverley Dunn)

Frozen
Animated Feature Filme (Chris Buck, Jennifer Lee & Peter Del Vecho)
Music – Original Song (“Let it Go” – Kristen Anderson-Lopez & Robert Lopez)

Her
Original Screenplay (Spike Jonze)

Blue Jasmine
Best Actress in a leading role (Cate Blanchett)

La Grande Bellezza
Foreign Language Filme (Italy)

20 Feet from Stardom
Documentary Feature (Morgan Neville, Gil Friesen, Caitrin Rogers)

The Lady in Number 6: Music save my life
Documentary Short Subject (Malcolm Clarke, Nicholas Reed)

Mr. Hublot
Short Film animated (Laurent Witz, Alexandre Espirares)

Helium
Short Film – Live Action (Anders Walter, Kim Magnusson)

 

 

A lista completa de indicados e vencedores, você encontra aqui.

Esta não é uma review de “La Grande Bellezza”

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Uma noite em que tudo soa como preto e branco. Saindo de um Cinema de rua, cuja sessão os já poucos presentes abandonaram pela metade. Vestindo um casaco para evitar a chuva, o que é reflexivo e ilógico para quem não só queria, como esperava e torcia por enfrentá-la. Acendo um cigarro, não sei se para evitar o sensorial exaltado ou para inibir a confusão mental entre o perdido e o quebra-cabeças de ideias desorganizadas, frequente pela objetividade da rotineira linguística. O que eu escreveria após “2001: a Space Odyssey”?

Há dezesseis anos entrava pela primeira vez em uma sala de Cinema. Acompanhado por meu pai, preparava-me para ver um filme que entrava em cartaz com atraso que não incomodava à época como incomoda hoje; a não ser pela ansiedade, em lugar do orgulho. Era o Cine Rio Branco, em Varginha (MG). Famoso por supostamente possuir a maior tela da América Latina. Hoje fechado. A lenda não precisa de comprovação em minha memória; é tão verídica quanto meus olhos infantis rolando pelos lados, nunca fixos: era impossível, para mim, captar toda a imagem sem movê-los. Por vezes perdia diálogos e rostos e me flagrava observando objetos inúteis pelo cenário. Ainda não consegui livrar-me deste vício de primeira experiência. Ainda não quis livrar-me dele. O Titanic a que assisti em 1998 não é o mesmo a que assisti mais de uma década depois (2012), em seu relançamento em 3D. O Titanic que assisti naquele dia era um amontoado de detalhes, cujo enredo central pouco importava. Como pessoa fotográfica – que nunca esqueceu um rosto sequer em toda sua vida -, assusta-me o fato de não lembrar-me de uma pessoa sequer daquela sessão. Não lembrar-me se meu pai estava de barba, como estava seu cabelo e como transpirava seu humor. Pouco lembro de minha absorção do roteiro da obra à época. Lembro-me vividamente, porém, da interação da plateia. Da posição em que sentávamos em relação ao filme. Da pipoca que comia enquanto observava apaixonado perdidos objetos trivais para a obra. Senti-me, naquele dia, nada envolvido na história de amor central do filme, mas sim um terceiro passageiro do navio, calado, seguindo sua viagem, assustado pela situação. Construí minha própria história. E assim descobri, realmente, a sétima arte. Maior do que qualquer coisa que eu já havia visto na televisão, porque o Cinema – o ato de frequentá-lo – era sensorial e subjetivo. O filme não era. O filme seria o que meu estado de espírito ao entrar na sessão moldaria sobre o que me era dado. Por isso, detestei por muito tempo boa parte dos cinéfilos e nunca consegui encaixar-me em rodas de Cinema. Conhecer novas opiniões sobre um filme é, para mim, tão adorável quanto descobrir um novo universo. Principalmente sobre os filmes que detesto. Não consigo lidar com pessoas que busquem uma análise objetiva, terminando seu trabalho após “captar a essência e a verdade indiscutível” sobre uma obra. É sempre melhor não entender um filme, à sua maneira.

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Compreender nossa obsessão linguística pela que talvez seja a arte de maior potencial estético da história da humanidade é como tentar decifrar uma loucura de sua própria mente. Embora utilize-se da linguagem, o Cinema raramente é admirado pela abstração, subjetivamente, como se admira um quadro ou uma paisagem. Um filme que nos desperte sensorialmente não pode ser bom se não está preenchido linguisticamente, ou se ao menos não pode ser decifrado desta forma. É uma de nossas grandes tolices. Em seu produto final, a arte é tão bela quanto a ciência. Mas seus intermediários são completamente diversos. A arte é uma formação sensorial de resultado subjetivo. Não precisa, embora possa optar por, passar pelos caminhos da argumentação para justificar o que produz. Assim como você não tem o direito de delimitar quem você é e fazer com que os outros o engulam, sequer o autor tem o direito de delimitar sua obra. Não há, na arte, verdade. Há verdades.

“2001: a Space Odissey” foi, neste sentido, meu primeiro desafio. Não no sentido de tentar captar sua verdade absoluta. No sentido de, além do sensorial encantador, compreender o que me despertava. Sonho, desde 1998, em trabalhar com Cinema. Assim como sonho em me tornar escritor, ou como sonhei em ser músico. Não há contradição: não considero-me perdido, considero-as facetas de um mesmo sentimento. Nunca pensei, porém, que um dia escreveria sobre obras alheias. O fantasma de “2001: a Space Oddyssey” despertou em mim no exato instante em que aceitei o convite para criar este blog. Sempre soube que nunca poderia escrever sobre alguns filmes; não ao menos no encaixe estrutural que conhecia. A ideia de começar um projeto que envolvesse escrita e impessoalidade era, para mim, como desenvolver uma vida baseado em uma mentira.

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Vá ao Cinema, sente-se e assista a “La Grande Bellezza”. Incline-se a deixar-se levar. Descubra o que a obra o provoca. O que significa no contexto de sua pessoa. Não deixe que o filme acabe quando sair da sessão, mas mantenha o que sensorialmente lhe foi despertado e o continue. Reserve uma noite em branco, vá a um cinema incomum, deixe para decidir o que fazer nesta noite somente após a sessão. Assim como o cerne da mensagem de filmes como Fellini 8 1/2 não reduz e nem concentra o poder do filme, há muito mais por trás de “La Grande Bellezza” do que se transcreverá por aí.

O que posso dizer é que, assim como aconteceu com vários dos filmes que me tocaram realmente, em pouco tempo me esquecerei do que se trata, propriamente, “La Grande Bellezza”. Mas jamais esquecerei do sentimento que se formou na noite em que o assisti.

O retorno de Scorsese em “The Wolf of Wall Street”

Director Martin Scorsese arrives at The Royal Premiere of his film Hugo at the Odeon Leicester Square cinema in London

“The Wolf of Wall Street”: o filme mais Scorsese dos últimos dez anos, no mínimo. Não o melhor, não o pior. Em se tratando de arte, tal questionamento é infrutífero. Remete-nos a um feeling de quando Scorsese se apresentou a nós, em early classics como “Taxi Driver”, “Mean Streets” ou “Raging Bull”.

Scorsese faz parte de uma geração de diretores que passaram por uma graduação, propriamente, de Cinema, em conjunto com outros nomes como Oliver Stone. Apesar de já considerado gênio enquanto graduando da NYU, não foi fácil para o diretor alcançar o renome que possui atualmente. Embora já no início de sua carreira tenha demonstrado seu inquestionável talento em filmes como “Mean Streets” & “Taxi Driver”, com o fracasso de “New York, New York”, Marty sucumbiu por completo ao vício por cocaína. Ele próprio cogitou ter sido este o último filme de sua carreira.

Fiquem tranquilos, eu aviso a partir de que momento haverá spoilers

 

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Eis aqui um dos motivos pelo qual, ao recuperar sua confiança na indústria hollywoodiana firmando parceria com Leonardo DiCaprio (sim, o próprio Scorsese teve severos problemas em conseguir produção. Hollywood é a indústria do Cinema e todos conhecem a lei número um de uma indústria: não importa quem você é, dinheiro não deve ser desperdiçado), Scorsese reafirmou seu nome com o público e, simultaneamente, levantou questionamentos com uma boa parcela de seus próprios fãs:

Quando penso comparativamente em duas parcerias de grande sucesso entre os cinéfilos, penso em dois perfis também de sucesso, embora completamente opostos, de diretores e atores. Quando Jack Nicholson comenta a fama de Kubrick em seu tratamento com os atores, o próprio aponta algumas procedências e outros exageros. Kubrick foi famoso por seu “abandono” a Malcolm McDowell após a gravação de “Clockwork Orange”, bem como seu tratamento impaciente e agressivo em relação a Shelley Duvall em “The Shining”. Em comentários sobre os bastidores do próprio “The Shining”, Jack Nicholson expõe Kubrick como alguém superficialmente compreensivo. Quando via um ator fazer algo fora do esperado (ou do que gostaria) em uma cena – segundo Nicholson – Kubrick o chamava e o deixava falar pelo tempo que fosse necessário, ouvindo-o com atenção, para depois simplesmente refutar sua ideia e pedir que caminhasse de acordo com o que esperava. Para Jack Nicholson, isto não era incômodo: ele conseguia visualizar um limite entre o papel do ator e do diretor, considerando sua transposição uma invasão (o que não significa limitar-se por completo ao esperado ou ao que o roteiro o disponibilizava). Vale lembrar, aqui, que todos os grandes clássicos de Kubrick foram recepcionados com dureza pela crítica, enquanto Scorsese declara que esperava com grande expectativa qualquer filme em que o nome “Kubrick” figurasse como diretor. Para Marty, era obrigatoriamente um indicativo de um filme diferente; segundo Scorsese, Kubrick possuía sua marca, mesmo lutando contra a crítica, o que indica a capacidade de visão e discernimento independente do diretor.

Sorte para ambos e para nós, a relação entre Scorsese e De Niro foi diversa. Robert De Niro possui o perfil inverso de ator: ativo, invasivo, de iniciativa que transcende sua atuação. Com Scorsese afundado na cocaína e depressão, após ler a autobiografia de Jake LaMotta, De Niro desenvolveu obsessão em fazer um filme a respeito do ex-boxeador norte-americano. Treinando com o próprio (o qual, inclusive, tentou convencer De Niro a realmente seguir carreira no esporte), o ator insistiu para que Scorsese tomasse o projeto e se reerguesse. Em pré-produção exaustiva, De Niro recusou diversos roteiros encomendados por Scorsese, até aceitar o de Paul Schrader (que já havia sido roteirista de “Taxi Driver” e escreveria outros filmes com o diretor posteriormente, como “Bringing out the Dead”) e Mardik Martin. “Raging Bull”, que conta com a lendária atuação de De Niro – com suas alterações de peso e seu envolvimento excessivo com o papel – e direção excelente (elogio redundante) de Scorsese, foi o filme que ressuscitou o diretor.

 

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Não é de se espantar, portanto, a resistência dos fãs com uma nova parceria de Scorsese, desta vez com DiCaprio. O intenso envolvimento anterior do diretor com um dos maiores atores da história do Cinema norte-americano tornou os fãs resistentes a um novo nome figurando ao lado de Scorsese, ainda que este nome tenha passado por indicação do próprio De Niro. A situação se agrava por se tratar de DiCaprio, que é um ator que vive em um limiar, sem conquistar em definitivo a confiança da crítica: Por vezes excelente ator, por vezes mediano. Esta dúvida, inclusive, perdurou por seus filmes em parceria com Scorsese (“Gangs of New York”, “The aviator”, “The departed”, “Shutter Island”).

 Spoilers a partir daqui

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Não é que eu pense que algum ser humano vá perder a oportunidade de assistir a “The wolf of Wall Street”, ainda que em DVD. Trata-se aqui do privilégio de fazer parte do grupo de pessoas que assistiram à obra no Cinema e fizeram parte daquilo. Em minha opinião, em nenhum momento de sua carreira Marty deixou de ser o grande diretor que é. O que há de diferenciado em “The Wolf of Wall street” é um resgate de Marty às origens que o consagraram. O humor e estilo explícito que tanto influencia grandes diretores de nossa geração, como o próprio Tarantino. Uma direção vívida e envolvente brindada com a melhor atuação de DiCaprio em parceria com o diretor (talvez a única convincente). Com o conhecimento e vivência que possui, Scorsese confronta dois personagens, apresentando apenas um deles, quase “comprando” o público – de forma maestral – ao estilo de vida de Jordan Belfort (interpretado por DiCaprio), deixando em completo segundo plano Jean Jacques Saurel (personagem interpretado por Jean Dujardin) para, em um turnover não tão inesperado, apesar de surpreendente pelo caminho optado pelo diretor, à semelhança do ocorrido em “Raging Bull” – embora despertando sentimentos completamente diversos pelas circunstâncias contrastantes – derrubar, de uma só vez, seu protagonista (e o espectador) e, pelo mesmo caminho explícito optado por toda a obra, expor a queda de Jordan e a vitória – fora dos moldes de ostentação traçados pelo filme – de Jean. Em um mesmo filme, Scorsese reúne o explícito, o divertido, a acidez e a crítica, sem nunca perder o envolvimento.

Após assisti-lo mudo por suas três horas de duração – guardando em meu bolso o ingresso que iria para uma obscura caixa de papelão ocupada por lembranças -, como se fosse um terceiro, assisti a meus lábios, quase involuntariamente, dizerem: “Still got it, motherfucker. Still got it”.

Sinceramente, se você perder este filme, trinta minutos com as mãos nas chamas de uma vela não serão suficientes para se perdoar. Não simplesmente pela obra, mas pelo “retorno”. Como um lunático falando sozinho, deixo meu agradecimento a este diretor que mudou minha vida. Entrar no Cine e descobrir que Scorsese, aos 71 anos, still got it, é o indicativo de que chegou o momento de finalizar o texto: não há palavras.

La vie d’Adèle (Blue is the warmest colour)

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O prazer pode ser compartilhado?

Não. “Eu não sinto o mesmo que você”. No entanto, o que sequer pode ser compartilhado foi por nós padronizado. Não vou aqui discutir a ideia do que é natural em lugar do que é padrão. Não sei como os homens primitivos transavam, mas se o homem consegue ir além do que se tem por natural – seja por qualquer razão; psicológica, sociológica ou cultural – e o padrão moral quer ater-se ao que se considera natural, isto deixa de ser natural para tornar-se padronização. Neste sentido, o natural é o mero instinto contextual.

Se você é menor de dezoito anos, sou forçado a recomendar que não continue lendo.

Por toda a introdução de “La vie d’Adèle”, vemos Adèle lutar contra esse padrão. Após ser quase forçada por seu grupo de amigas a se relacionar com um homem, assistimos ao clichê social do relacionamento: duas pessoas de personalidades opostas se “atraem”, se divertem, beijam e transam. O homem, sem se preocupar com a mulher, goza e sente prazer. A mulher, sem qualquer sinal de orgasmo, simplesmente diz que foi bom. Grande parte das mulheres – aquelas que conseguem contar o número de orgasmos que tiveram na vida – partem daí e para sempre seguem esta linha. Não estou, também, generalizando os homens. Alguns aprendem pela vida que há duas pessoas excitadas em uma transa. A questão é: se não pode ser compartilhado, o prazer é uma coincidência. Não há como padronizá-lo, cada um deve descobri-lo e, para isso, procurar por ele.

 

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Após superar o problema interno – aceitar o que sente, que o que quer está fora do padrão –  Adèle passa a enfrentar o problema externo: seu círculo social torna-se inquisitório, tratando-a como verdadeira autora de um crime. O filme aborda inclusive a diferente aceitação familiar: Adèle mente para sua família, enquanto Emma a apresenta com sinceridade. Faz uso de elementos comuns na vida de um adolescente que está se descobrindo, como música, cigarros, timidez, álcool, bem como trata em paralelo elementos além do sexo, como carreira profissional, ambições de vida e afins; comuns à fase. Abdellatif Kechiche frequentemente faz bom uso de câmeras subjetivas para demonstrar o interesse sexual das personagens de forma real, enquadrando partes não tão usuais do corpo, o que insere melhor o espectador na experiência e intensifica os momentos. O diretor não se constrange em expor os momentos sexuais das personagens, o que é um contraste também interessante: o sexo com um homem foi, para Adèle, uma completa frustração, enquanto com uma mulher, uma experiência mais intensa e verdadeira: torna-se nítido onde foi que ela realmente se descobriu, tanto nas cenas sexuais, quanto nas mudanças que se operam em seu próprio cotidiano.

 

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Dois pontos deste filme me conquistaram. O primeiro deles: não há nada como um filme que use bem silêncio e rotina para apresentar um personagem. Uma grande quantidade de filmes – inclusive muitos bons filmes – apresenta seu protagonista de forma excessivamente acelerada, com diálogos precipitados, que não se encaixam à realidade. “La vie d’Adèle” faz belo jogo de rotina e silêncio para introduzir Adèle, complementando esta climatização com algumas falas bem encaixadas. O segundo ponto: nada como um filme que não reúna uma enorme quantidade de faixas musicais que o público alvo goste e as jogue aleatoriamente para conquistar o espectador, o que é costumeiro no Cine atual (um grande exemplo disto é Watchmen – um filme que gosto -, em que Snyder produz uma ótima coletânea musical e uma trilha sonora que beira o irritante). Em “La vie d’Adèle”, a trilha atua muito bem quando tem de atuar, mas é um filme em geral bastante silencioso, o que é um choque inclusive interessante, que dá a ela poder.

 

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Apesar de ter gostado bastante do filme, não estava me sentindo bem para escrever sobre. Creio que mulheres que tenham passado pelo que o filme aborda estejam mais aptas a escrever a respeito. Por isso, resolvi conversar com uma amiga bissexual, em um relacionamento com outra mulher há quase um ano. A conversa segue abaixo:

Frances Ha

Eu sou diferente. Acredito que sempre soube que era bissexual. Meu primeiro beijo e minha primeira paixão foram com uma mulher. Mas sempre soube que também gostava de homens, sentia tesão igualmente por eles. Meu primeiro namoro foi com um homem.

Minha primeira experiência sexual foi com um homem. Sexo entre homens e mulheres é com certeza diferente, mas você pode e consegue achar uma mulher tão bruta quanto um homem na cama.

Travis

“Você pode e consegue achar uma mulher tão bruta quanto um homem na cama”. Mas então, sexualmente, você procura, inclusive na mulher, algo de masculino?

Frances Ha

Não, eu apenas sou mais submissa na cama. A questão da brutalidade não é necessariamente uma característica masculina, mas pode se dar de forma feminina, como algemar, bater, me fazer implorar para foder; enfim, apenas uma mulher mais ativa e dominante. Acho que mulheres têm o controle do sexo com homens. Pegue, por exemplo, o sexo oral. Você tem o poder sobre alguém com a boca. Agora imagine isso no sexo lésbico, com duas mulheres disputando o domínio. Isso é um bom turn-on para mim.

Travis

A velha pergunta babaca: você se sente completa, sexualmente, com outra mulher?

Frances Ha

Sexo lésbico é bom. Eu não tenho preferência, simplesmente me sinto excitada e com tesão com a pessoa que estou, independente do sexo. Acho que alguém te desejar é sexy. Eu não sinto falta de homem porque estou apaixonada e namorando uma mulher que é a única pessoa que sinto falta no momento. Acho todas as pessoas bonitas e sensuais, cada uma à sua maneira, independente de gênero. Por isso gosto de ser bissexual, porque você se apaixona pela pessoa, por quem ela é, independente de gênero. Independente de quem eu estiver amando, estarei satisfeita, seja homem ou mulher. Uma resposta babaca: sim, sexo lésbico é completo, te faz gozar sete vezes em uma noite. Que mulher não quer isso?

Uma coisa que me deixa desconfortável é o fato de algumas lésbicas não saberem lidar com bissexuais, como se elas fossem traí-las com homens. Existe um grande preconceito com bissexuais, como se não soubessem o que querem, o que é muito injusto. Se estou com uma mulher, é porque eu a quero e não sentirei falta de outra coisa, porque estou satisfeita e feliz com ela. O mesmo poderia acontecer com um homem. O amor é uma questão de afinidade e convivência. O importante é ter intimidade o bastante na cama para que ambos se sintam satisfeitos. Eu acredito que quando alguém busca por outras pessoas, seja em um relacionamento hetero ou gay, é porque algo está faltando nela.

Travis

Você acha a bissexualidade natural, que toda pessoa a cogita em algum momento? Acha que a heterossexualidade se tornou uma condicionante moral, artificial?

Frances Ha

Eu não consigo enxergar a bissexualidade senão como algo natural em mim. Não acredito em tal coisa de “é apenas uma fase”. Mesmo que atualmente estejamos e uma sociedade mais tolerante à homossexualidade, desde criança você provavelmente nascerá em um lar heterossexual que apontará a heterossexualidade como o caminho mais correto, ou no mínimo mais “natural”.  Me aceitar foi muito difícil, ainda mais em uma criação evangélica. Cresci ouvindo que algo é ruim e errado, quando hoje vejo que não tem nada de errado no amor. Se você é uma pessoa boa e gosta de uma pessoa do mesmo sexo, isso não te torna ruim ou abominável.

Eu tenho certeza de que todo mundo já sentiu aquela vontade no amigo quando está bêbado. Minhas amigas héteros sempre me pegavam em fim de balada. Muitas pessoas realmente não deixam esse lado aflorar. E acham que os gays querem transformar héteros  em homossexuais, o que é uma grande mentira. Eu mesmo me sinto muito constrangida quando chego em uma menina e levo um fora por ela ser hétero, pela possibilidade dela me interpretar de forma errada.

Travis

Você acha que muitas pessoas se tornam infelizes e não encontram quem realmente são por preconceito interno?

Frances Ha

Sim. Acho que a pessoa não querer se aceitar deve ser a pior parte do processo. Quantos casos de homens que têm famílias – esposas e filhos – e casos paralelos com outros homens, porque apesar de amarem suas esposas, aquilo não é o que verdadeiramente são. As pessoas não deveriam fingir serem outras pessoas para serem aceitas pelos outros. Elas precisam aceitar que não há problema em achar alguém do mesmo sexo lindo e querer aquilo para si. É um corpo como o seu, inclusive uma forma de amar e conhecer melhor a si mesmo. É um tabu parecido com a masturbação: conheço muitas mulheres que não o fazem e tratam a masturbação como se fosse algo errado, enquanto para meninos de 14 anos isso já é normal. É como se a mulher devesse ser reprimida e acaba não conhecendo bem seu próprio corpo.

Travis

Seguindo a mesma lógica, você acha que o mesmo ocorre com pessoas que têm fetiches? Não encontram seu verdadeiro prazer sexual por constrangimento?

Frances Ha

Acho que pode ser visto dessa forma, mesmo porque o sexo é muito íntimo. Você pode ser tímido nas relações sociais, mas o sexo não é um momento para timidez. Você precisa se soltar. Mas não aceitar que façam com você algo com que você não se sinta confortável. As pessoas de sub/dom precisam encontrar parceiros para os quais tenham chance de mostrar isso sem serem julgados. Precisam saber que tudo é muito natural e deve ser aceito. Se alguém tem um fetiche e está com uma pessoa que não gosta disso, provavelmente será infeliz, sentirá falta disso. É como uma pessoa que é homossexual, sente isso por dentro, mas leva uma vida com um parceiro de outro sexo, apenas para se ajeitar aos costumes, mas no fundo, sei lá, vê um porn gay escondido. A única pessoa prejudicada no final da história é aquela que não consegue aceitar seus prazeres e vê-los de forma natural. Com certeza levará uma vida frustrada. Você nunca será tão feliz quanto uma atendente de Sex Shop.

Travis

É engraçado. Boa parte das pessoas se adequam aos padrões morais esperando assim serem aceitos e levarem uma vida feliz. Mas, ao contrário, deixam de encontrar quem realmente são e experienciar o que realmente querem. Isso me lembra de uma cena de “Easy Rider”, na qual o personagem de Jack Nicholson explica aos dois viajantes que as pessoas em geral os odeiam porque odeiam a liberdade que eles têm. Não é que toda pessoa tenha de ser bissexual, mas não vejo por que um heterossexual deva odiar uma pessoa de opção diversa. Você acha que, de certa forma, essas pessoas odeiam a liberdade que os bissexuais têm? O fato de eles terem enfrentado todo o preconceito e encontrado quem verdadeiramente são? Por fim, acha que, por todo tabu que existe – embora esteja diminuindo – em sequer cogitar essas opções sexuais, existem pessoas que são homossexuais/bissexuais e não sabem disso?

Frances Ha

Eu não sei se eles odeiam a questão da liberdade. Acho que eles têm medo de compreender como uma pessoa pode gostar das duas coisas, se é que me entende. Para eles é mais fácil falar que é um indeciso, porque a mentalidade das pessoas pode ser muito pequena quando elas querem. Se você gosta de uma coisa, você é isso. Mas não pode gostar de duas coisas ao mesmo tempo. Para elas é como se fosse impossível gostar de doce e salgado ao mesmo tempo.

Acho muito difícil uma pessoa não saber que é homossexual/bissexual. É algo que você nota, inevitavelmente. Eu descobri que era bissexual com 13 anos, e não precisei ficar com ninguém para ter certeza disso. Eu sabia que achava mulheres gostosas quando vi a Natalie Portman em Star Wars. Mas queria pegar o Anakin, também.

Travis

Mas a Natalie Portman não é um ponto neutro? Toda pessoa nesse planeta deveria querer transar com ela, não? Estou confuso.

Frances Ha

Hahaha não existem pontos neutros. Se uma mulher sente tesão na Natalie Portman e quer foder com ela, ela não deveria ser considerada bissexual ou homossexual?

Travis

Se uma mulher não sente tesão na Natalie Portman, ela pode ser considerada morta. É tudo o que tenho a declarar.

Enfim. Algum comentário final? Quem sabe uma experiência sexual, pra dar ibope ao blog?

Frances Ha

[censored] (sorry guys :/)

Hard Candy: uma indiscutível faceta humana

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Em um dos stand ups de sua série “Louie”, o comediante Louis C.K., quase precocemente interrompido pela platéia, brinca com o fato de que, se tratássemos a pedofilia com mais normalidade, assustando menos os pedófilos, talvez os fizéssemos se sentirem mais confortáveis à ideia de devolverem as crianças após o delito. Uma brincadeira da qual só um grande comediante como Louie, com sua confiança e seu poder de controle sobre a audiência, pode safar-se. Propositadamente ou não, Louie acaba por tocar em um dos tabus de nossa sociedade. Uma análise rasa já nos mostra a relatividade inerente ao tema, uma vez que há grande variação cultural no conceito de adulto, criança e adolescente. O Ordenamento jurídico brasileiro, por exemplo, restringe o conceito criança (não adolescente) à faixa etária anterior aos 12 anos, idade na qual, segundo a tradição judaica, as mulheres já se tornam adultas (o que não necessariamente corresponde à maturidade sexual), enquanto, no Egito, Tutancâmon se casou com apenas 10 anos de idade.

Não tenho qualquer formação em psicologia, não sou parte dos 70% da população mundial que se considera psicólogo nato, sequer sou minimamente mais expert do que qualquer um para abordar o assunto. O que tenho para mim como fato é que a pedofilia, assim como diversas outras classificações superficiais – como o recorrente batismo em “psicopata”, estas figuras naturalmente voltadas ao mal, sem qualquer solução e explicação lógica ou sociológica -, por incomuns e completamente incompreensíveis à mente do ser humano socialmente regular, são completamente refutadas no campo da especulação e entendimento, frequentemente atribuídas de forma insatisfatoriamente fundamentada à causalidade genética. Boa parte das pesquisas relacionadas à pedofilia, principalmente as mais divulgadas, quando não estritamente empíricas e estatísticas, são incompletas e insatisfatórias à amplitude do problema e ao tamanho repudio a ela ofertado por nossa sociedade. Neste ponto, convém desfazer qualquer mal entendido em relação ao texto: obviamente não se trata de uma justificação à prática, mas um simples questionamento: se tratamos como um grave problema, que deve ser evitado e exterminado, por que a ciência o evita em lugar de enfrentá-lo com propriedade e peso argumentativo? Afinal, problemas estéticos podem ser facilmente resolvidos pelo estágio atual da medicina, mas a pedofilia continua a ser tratada como um distúrbio genético inevitável do qual ninguém deseja qualquer proximidade analítica, o que de forma alguma evitará sua ocorrência.

Creio, porém, que a resposta já tenha sido dada no próprio parágrafo; o ser humano consegue reconhecer como uma doença algo que ele pense poder afetá-lo, e consegue reconhecer um doente como próximo quando há alguma possível ligação lógica que o torne compreensível – situação que ele reconheça que pudesse, se outras circunstâncias tivessem sobre ele incidido, ter ocorrido com ele próprio, embora não considere correta. Esta pessoa, reconhece-se como um próximo, um ser como outro, embora de saúde afetada. Quando este vínculo lógico se rompe – não se vê como possível que isto tivesse ocorrido consigo em qualquer circunstância social – o próximo se torna um outro ser, tende a se tornar um monstro distante, de espécie diversa, e a tendência é que a fonte seja atribuída à genética em lugar do ambiente social. Embora não seja o caminho racional, é sem dúvidas o caminho mais confortável.

Em “A insustentável leveza do ser”, Kundera nos introduz à palavra “Kitsch”, um termo alemão datado de meados do século XIX, o qual trata como um acordo categórico com o ser, exemplificando com o ato de defecar, que seria uma “prova cotidiana do caráter inaceitável da criação”. Se a merda é inaceitável, associa-se de imediato um caráter repugnante à criação; portanto, trata-se o kitsch de um acordo de ideal estético: a razão pela qual excluímos de nosso campo visual tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável. Ora, não se tratando a pedofilia ou psicopatia de distúrbio estritamente genético incidente sobre pessoa determinada, mas sim de força resultante de circunstâncias sociais, portanto passíveis de afetação a qualquer ser humano, despedaça-se o acordo estético em troca da aceitação de que todo ser humano é potencialmente repugnante. Mesmo os que não o são, poderiam o ser sob circunstâncias diversas. Pensar demais a respeito já seria assumir a possibilidade de que se trata de um problema humano. Tornar o pedófilo um monstro geneticamente diverso do ser humano ordinário, porém, é nos mantermos confortáveis com nossa própria natureza em todas as suas possibilidades.

Fiz meu melhor, com êxito, creio, para evitar spoilers; é uma indicação, não propriamente uma resenha.

 

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Enfim, querido assustado leitor. “Hard Candy” é um filme de 2005 dirigido por – aposto que você não esperava por essa – David Slade (sim, “Twilight”, “30 days of Night”). O filme trata de um fotógrafo – suposto pedófilo – interpretado por Patrick Wilson (“Watchmen”, “Prometheus”…) que conhece pela internet uma teenager aparentemente aberta e matura para sua idade, interpretada por Ellen Page (“Juno”, “X-men”, “Inception”…). Sinceramente, há tantas qualidades neste filme que comprei por chute – apenas por ler a sinopse, em uma Loja Americanas – que sequer sei por onde começar.

Convém destacar, a princípio, se tratar de um filme cujo suspense maestral é a proposta central, embora nem de longe esgote seu conteúdo. A princípio, fiquei encantado com o jogo de câmeras de Slade, principal qualidade técnica do filme. A dança das câmeras trabalha de forma perfeita com o suspense, por vezes induzindo o telespectador – com oscilações entre pouca dinâmica e enquadramentos simples durante o desenvolvimento dos diálogos e momentos calmos para bruscas movimentações nos momentos de ápice e resultado, cooperando com a sensação de instabilidade – por vezes com ele dialogando. Além, nestes momentos  de ápice da tensão, o enquadramento sempre surpreende com efeitos de direção – às vezes a opção pela handycam, outras vezes opções de foco – que intensificam os sentimentos profundos dos atores na exteriorização humana – raiva, tristeza, segredos profundos que se revelam, autodecepções sobre as quais nunca gostariam de dialogar a respeito, momentos em que as máscaras caem após longas construções dúbias de diálogos. Há, aqui, um excelente e harmonioso ponto de encontro entre a ótima direção e as ótimas atuações dos dois protagonistas supracitados.

Fora o aspecto técnico voltado à direção, o filme se desenvolve também sobre bases sólidas. Os personagens já não se iniciam planos, mas a cada diálogo surgem mais dúvidas a respeito deles e, a cada desfecho, quando se pensa haver encontrado uma solução para uma das peças, mais dúvidas surgem destas “soluções”, de forma que os personagens, já não planos desde o princípio, se tornam cada vez mais complexos e misteriosos. O filme faz uma bela construção que oscila entre dúvida, certeza e, novamente, dúvida, construindo mais e mais seus personagens ao decorrer da história, sem desprender a atenção do telespectador, que se afunda cada vez mais naquela narrativa, incômoda por várias razões. É interessante notar, no aspecto material, em relação ao exposto antes de entrarmos propriamente no filme, que a dúvida quanto ao caráter sociológico/genético é sabiamente exposta de forma invertida: a garota questiona qual a origem de seu problema, não a de quem ela própria supõe pedófilo.

Por fim, o filme deságua em um princípio de esclarecimento simultâneo à uma cena que está entre as que mais me provocou a sensação “suspense” no cine, de fazer qualquer marmanjo se contorcer e fechar os olhos. Se você é uma garota que odeia filmes de terror e seu namorado te força a vê-los com uma felicidade sádica, confie em mim: VEJA ESSE FILME COM ELE, porque esta cena não te afetará em nada e o traumatizará, sem dúvidas.

Bem, pra quem gosta de ser torturado por um filme, e para os fãs do psycho e de filmes que abordam perturbações da mente humana, é prato cheio, recomendo fortemente.

Good Will Hunting: Rage & Fear

Terrível a ideia de resumir um homem a dois sentimentos. Ainda mais terrível tentar delimitá-los em espécie. Não poderia ser pior, porém, atribuir um arquétipo generalizado ao espectro de sentimentos de toda uma raça. O que não só frequente, como também verdadeiro teorema. Olhamos para nós mesmos julgando todo fenômeno interno como complexo ao mesmo tempo que olhamos para o restante da humanidade julgando todo pensamento e ação como simples e inerente. Verdadeira tendência esta: cada indivíduo se vê como alguém especial em meio a um mar de previsibilidade. Tendência tão notável e aplicada que ousamos, inclusive, dar nomes a sentimentos, atribuir a eles categorias, tendências, apontar suas origens, remédios e possíveis resultados. É assim que um ser dotado de tamanha racionalidade consegue se banalizar, tornar o mundo tão previsível e, de forma geral, chato. Uma simples escolha, relutância ao reconhecimento do próximo, talvez o maior de nossos desafios.

Não estou desconstruindo tudo o que tenho a dizer, embora assim pareça até para mim mesmo. Apenas reconheço uma abordagem vulgar e limitada, algo que gostaria poder dizer de outra forma. Reconheço, em cada universo específico que habita um ser humano, sentimentos únicos e inclassificáveis. O medo e a raiva, como chamamos, se manifestam de formas específicas e são, na verdade, sentimentos diversos em cada um de nós. A linguagem é uma forma de comunicação, não de delimitação. Se nós tivéssemos de nos descrever baseado-nos apenas em palavras, felizmente, seria uma tentativa absurdamente inútil. As mesmas palavras soariam diferentes a pessoas diversas, o que só pode ser explicado pela vivência de cada um. As palavras ganham sentido de acordo com o destinatário, e assim nos reconhecemos um no outro, pelos poucos vestígios que podemos compreender em palavras e atos de outras pessoas, que nos levam a imaginar sua essência e nos interessar por ela, muitas vezes assimilá-la.

Um indivíduo é um mar de sentimentos impassíveis de síntese. Invariavelmente, porém, embora subjetivamente próprios, todos nós experimentamos dois sentimentos que podem nos consumir e demandam por transcendência, uma busca pelo que pode ser confundido com completude ou perfeição – complexidade -, embora se traduza e mera essência pessoal, o que é bem simples. De certa forma, todos nós compreendemos o que somos, embora de forma muito confusa. É por isso que nos vemos forçados a rejeitar determinadas coisas – sob verdadeira vertigem – enquanto sabemos exatamente o que buscamos, embora não estejamos certos sobre a forma como este objeto se materializa. Creio que, dentre as categorias chulas supracitadas, poder-se-ia afirmar que todo ser humano possui, dentre diversas sensações semelhantes, embora e menor escala, um grande medo e um grande ódio. Isto porque a vida em sociedade nos impõe desafios à concretização do que realmente queremos ser, misturados a sensações artificiais e ampliações de ideias de felicidade que nos seduzem e confundem. Aos poucos julgamos nossa própria essência como pueril, processo que chamamos de “envelhecer” em um aspecto negativo do sentido da própria palavra, como se crescer significasse adaptação e não ampliação. Meu ponto é que sempre tive em mente que, ao se deparar com estes desafios, boa parte das pessoas opta por esquecer os sentimentos inocentes que as traduzem para adaptarem-se ao que externamente se julga como necessário ou útil, enquanto poucos enfrentam as confusões e as expulsam para concretizarem o que realmente são (este é o ponto em que eu deveria simplesmente abortar este texto e transferí-lo pra uma resenha sobre Lost).

 

 

Se você cresceu nos 90s, talvez concorde comigo: vigorou por esta década um entendimento dualista entre uma esquerda utópica morta durante o século XX e uma direita de aceitação: o mundo como ele é. Você poderia basicamente optar entre ser um sonhador ou mero zumbi admirador dos prazeres carnais. Creio que algo análogo ao que precedeu o movimento beat anteriormente. Entre dois caminhos vazios, simplesmente nos desesperávamos pelos momentos especiais, de sensações que não pudessem se explicar. Buscávamos por algo ainda não inventado, a qualquer preço. Se o Cine está, ao fim dos 60s & 70s, povoado de filmes baseados no desespero pelo confronto de uma invevitável vida vazia (“Easy Rider”, “Zabriskie Point”….), assim também está os 90s & 00s (“Thelma & Louise”, “Gerry”, “The Beach”, “Fight Club”, “American Beauty”, “Into the wild” e, inclusive, a obra a qual me refiro aqui: “Good will hunting”).

Embora sempre tivesse gostado de política, um dia fui simplesmente corrompido pela falsa ideia dos 90s: somos naturalmente insolucionáveis e precisamos aceitar isto. A esquerda está morta, o punk se tornou um comercial da coca-cola, o mundo atual é o que sempre foi e o ser humano caminha em ciclos ilusórios de desenvolvimento, estagnado em seu interior como qualquer outro animal do planeta. Abandonei tudo o que passei a considerar um sonho para me entregar ao inevitável pragmatismo. A ideia de que eu vivia 3 ou 4 dias por ano me perseguia como um pesadelo. Curtos momentos especiais em meio a uma vida completamente banal, indiferente e vazia. Era sentado no sofá da sala dos meus pais, à meia luz, no conforto do Natal, que reunia estes poucos momentos em curtas. Ali, ano após ano, percebia que deixava que meu medo tomasse conta de mim, enfrentava-o, vencia-o e esperava seu renascimento. A cada enfrentamento, porém, aquela criança e aquele adolescente recusava a banalidade do comum para transcender ao contato com quem buscava o mesmo. A cada Natal, assistia a estes momentos transmitidos pela branca parede ao lado da mesma árvore que ainda se ergue na casa dos meus pais a cada ano.

À medida que me expus e saí do interior, tendo contato com cidades maiores, percebi que as pessoas com perfil de aceitação tendem a ser cada vez mais banais, enquanto as pessoas especiais, não mais especiais, mas sim mais numerosas. A cada ônibus, carona, avião, meus filmes de Natal se tornavam mais e mais numerosos. Até que um dia o Natal passou a ser mera data comemorativa, como deveria ser. Hoje posso deitar em minha cama, em um dia cansativo, olhar para o teto de meu quarto, à meia luz, e visualizar longas e longas de pequenos flashs que dão sentido à minha existência. Calçadas, acordes, garrafas, cigarros, rostos, sorrisos, saltos, salas insalubres ocupadas por instrumentos musicais, papéis, livros em edredons, brisas, palavras apropriadas ou ridículas, ondas, ideias, pulsações sanguíneas.

Até que em algum ponto indelimitável de minha vida percebi duas coisas importantes:  todas as pessoas que tentaram mudar o mundo de forma descontextualizada, por medidas externas, falharam, enquanto as pessoas que tentaram operar mudanças internas em si mesmas e contagiaram as demais ao seu redor obtiveram sucesso de formas que a história e a sociologia simplesmente não podem explicar. Ao mesmo tempo, diversas pessoas de diversos pontos do planeta passaram a enfrentar estes desafios e, o que é incrível, muitas delas possuíam, em essência, o mesmo medo e o mesmo ódio que eu e boa parte das pessoas especiais que conheci em minha vida: a raiva pelo utilitarismo e o medo de uma existência vazia. Foi neste ponto que percebi que o contexto geopolítico atual, suas “doenças”, condizem impressionantemente com o filme que expressa muito do que foi dito até aqui e, inclusive, com uma das melhores cenas – no tocante a conteúdo – que já vi no Cine, inclusive figurando como sujeito uma agência que é o foco ao qual se direciona boa parte da raiva que essas pessoas sentem atualmente – o que não é necessariamente uma coincidência: a NSA. Como percebem, a cena que escolhi para abrir este texto. Boa parte destas pessoas poderiam se entregar ao pragmatismo – trocar o que esconde suas essências por grandes salários, salas, troféus – em lugar de arriscarem suas vidas. Mas existe uma razão, extremamente simples, pela qual eles não a fazem.

Mudar o mundo é muito pretensioso; direcionar a mudança a um objeto sempre acaba por se perder na utopia. Rejeitar os vícios da sociedade contemporânea e escolher pela felicidade pessoal e realização de nossa essência subjetiva me parece um caminho muito mais adequado e funcional. É como se o mundo estivesse se preparando para isso há muito tempo e, nestes ciclos estagnados da humanidade, estivesse sempre presente uma célula de esperança que pode se desenvolver em vida. Não se trata de mudar o mundo, mas sim da criação de um sentido para seu próprio interior, bem como permitir, aceitar e compreender que as outras pessoas o façam. Enfrentar seu grande medo, expor seu grande ódio. Caminhar.

Obs.: esqueci de mencionar que boa parte da trilha sonora é Elliott Smith?

 

Elysium: erros e acertos de um sci-fi contemporâneo

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Wagner Moura não erra. O que não é necessariamente um elogio. Embora o ator mantenha-se regular, atingiu um patamar – renome – que ainda não condiz com sua carreira: repleta de boas atuações, ainda não há em sua filmografia um grande filme que faça com que mereça a fama e respeito que possui no Cinema Nacional.

TEXTO NÃO POSSUI SPOILERS

Fora das fronteiras de nosso país, o ator figura desta vez em uma obra que condiz com a linha de produção da atualidade. Em uma geração que produz sci-fis focados em ação e drama, muitas vezes com conteúdo promissor, embora mal desenvolvido – vício notável em filmes como “Repomen” ou “In Time” e, honestamente, creio que “Looper”, inclusive, figure neste infeliz rol -, “Elysium” consegue fugir parcialmente do estigma, inovando, apesar de repetir, também, erros clássicos de sci-fis dos 70s & 80s, embora nestes, compreensíveis.

Como bem aponta Syd Field, em grande parte das vezes conseguimos nos identificar ou repudiar um filme por seus primeiros minutos – já em sua intro. Embora não constitua regra necessária (um filme pode facilmente começar com qualidade e simplesmente foder tudo de forma inexplicável em seu desenvolvimento ou desfecho), é um bom indicativo, no caso da produção em análise, de que estamos diante de, ao menos, um entretenimento de boa qualidade.

A obra nos introduz a um mundo que, embora fictício, traz elementos que se conectam com nosso mundo atual. desenvolve uma ideia de divisão social de classes com atuação peculiar do Direito a cada uma delas: um Direito Penal do autor, que diversifica sua rigidez e agressividade dentre as classes sociais, apresentando um juízo rigorosamente técnico e objetivo. Apresenta também um monopólio drástico do acesso à saúde – ao redor do qual, de certa forma, gira sua ação (esta, foco do filme por boa parte de sua duração). Apresenta também, merecendo destaque à sua abordagem, a influência do setor privado no desenvolvimento político e, portanto, no cerne estatal.

Se neste ponto encontramos a principal qualidade desta produção de grande elenco – contando com atores como Matt Damon (por este, nutro pessoal admiração, sempre atentando para os filmes nos quais atue), Jodie Foster,  Ben Kingsley e o próprio Wagner Moura; ao mesmo tempo, Alice Braga, uma das razões por ter tido preconceito com o filme – somada ao contexto dos sci-fis supraexposto -, esperando mais um filme vazio de gênero ação estrito (ela também atua em “Repomen”),  – é também este seu principal erro: ignorar o Direito como ciência.

Atualmente já podemos ter certeza de que a ciência não se desenvolve linearmente, mas sim, ao contrário, de forma pragmática. O grande desenvolvimento espacial do século XX não se dá devido a um interesse que trará benefícios diretos à humanidade, mas de uma necessidade de demonstração de poder econômico em face ao conflito bipolar da Guerra Fria. O Direito, como qualquer outra ciência, se desenvolve nesta linha: por pessoas técnicas e vazias, em uma projeção pragmática. O Código de Defesa do Consumidor não existe para proteger o pobre e frágil, existe para conservar o equilíbrio de uma relação necessária ao sistema econômico capitalista em vigor; de um lado, temos o empresário que lida profissionalmente com o consumo, enquanto, do outro lado, temos todos os seres humanos, consumidores, que são profissionais de outras áreas e completamente leigos no consumo. Se não há equilíbrio neste setor, há inibição do consumo e, consequentemente, crise econômica. A lei de proteção ao consumidor age neste ponto, equilibrando a diferença entre os polos. Da mesma forma, outras leis que surgem em períodos de crise de relações importantes à economia, como a Lei do Inquilinato. As leis trabalhistas, nesta linha, não se dedicam propriamente a proteger o trabalhador – apesar de o acabarem fazendo indiretamente e terem surgido através das intensas lutas trabalhistas – mas sim para protegerem o equilíbrio das relações de trabalho. Assim, o Direito se desenvolve como todas as outras ciências; em um sentido pragmático de manutenção de nosso sistema econômico (é por essa razão, por exemplo, que nossos produtos não duram pra sempre; se durassem, não haveria circulação de capital, renovação das necessidades de consumo e manutenção do sistema econômico). Desta forma, tem-se nítido que a forma como o filme apresenta as relações de trabalho é um vício do antigo “sci-fi” prévio a este entendimento – de outro contexto histórico. É interessante para todos, inclusive para um mundo catastrófico futuro, que se mantenha considerável proteção ao trabalhador.

Ao mesmo tempo, porém, que repete erros do passado – não só como o exposto no parágrafo anterior, mas também simples erros físicos (como presença de fogo no espaço e afins) -, o filme inova no desenvolvimento – embora não tão amplo – de conceitos atuais, principalmente em países subdesenvolvidos como o Brasil – embora oriundos e notadamente presentes em países como os Estados Unidos – do Direito Penal do autor e a atuação irregular do Direito de acordo com as classes – ou castas – sociais, bem como o monopólio do acesso à saúde, educação e bem-estar.

Um ponto de inovação de grande acerto é o cenário urbano: em um planeta deixado a morrer, no qual as pessoas que nele permanecem estão  deixadas à mercê de um ecossistema que não mais se pretende salvar – semelhante à ideia presente em Blade Runner – não nos deparamos com um cenário de grandes prédios com excessivo apelo de marketing, mas sim um cenário urbano semelhante a intermináveis favelas, com pouquíssima presença de natureza – uma espécie de privilégio da Elysium. Comparemos os cenários deste filme e o supracitado Blade Runner.

 

A Terra de “Elysium”

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A Terra de “Blade Runner”

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O que se segue à esta introdução é, basicamente, ação, drama, adrenalina, se desconectando desta contextualização, mas entrando, porém, em elementos agradáveis aos fãs de sci-fi: a substituição corporal – mecanização do corpo – típica do cyberpunk e a estética do software (isto é um detalhe bem pensado: os softwares e hardwares utilizados pelos hackers – estilizados no contexto de aventura do filme como verdadeiros piratas – são adequados ao seu estilo de vida, diferentes dos utilizados pelos habitantes e profissionais de Elysium, e inclusive os equipamentos são compostos pelos materiais ao redor e mais preparados para seu estilo de vida – tanto em estética quanto em consistência dos harwares a choques e afins) são exemplos de elementos que mantêm a boa sensação futurista típica do sci-fi.

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Enfim, trata-se de não apenas mais um filme vazio de ação como Hollywood vem produzindo em massa – embora tenha a ação como foco por boa parte de sua duração – mas um bom entretenimento, com relativo conteúdo para quem procura – embora não se trate de um filme profundo -, simultâneo à ação, drama e adrenalina para quem quer simplesmente se divertir. Ainda não é o filme que se espera de Wagner Moura, mas paga o ingresso e suas horas em um Cine. Go go go watch it out, folks!

P.s.: Funny english, mr. Moura

 

 

Louie – a luta pelo cotidiano

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O maior erro que um ser humano pode cometer é questionar aquilo que ama ou lhe dá prazer. Alguns nascem, descobrem e morrem biologicamente. Outros nascem, descobrem, desconstroem e morrem em vida.

Agora, meus senhores, eu quero contar-lhes, desejem ou não desejem escutar isso,
por que não consegui tornar-me nem um inseto. Solenemente lhes digo que várias
vezes quis tornar-me um inseto. Mas nem isso me foi concedido. Juro-lhes, meus
senhores, que ser por demais consciente é uma doença, uma verdadeira e rematada
doença. Para o humano bastaria, até dizer chega, uma ordinária consciência humana,
isto é, metade ou três quartos daquela porção que cabe a um homem desenvolvido
de nosso infeliz décimo nono século (…).

Notas do Subsolo – Dostoiévski

 

Hoje tive um dia cansativo.  Há um ponto em minha rotina – pontualmente às 19h – em que estou sentado em um ônibus entre o trabalho e a faculdade e adentro em um estado anestésico em que não consigo identificar perfeitamente qual a linha lógica que estabeleço em minha cabeça. Aquele momento em que você sabe que está pensando, pelo pressuposto fático de conhecimento geral do ser humano de que é impossível deixar de pensar, e só por isso não se deixa levar pela ideia de que nada se passa por sua cabeça a não ser uma forte neblina entre os carros e uma mistura de vozes cansadas que chegam ao fim do dia.

Foi aí que uma voz em particular me chamou a atenção: uma mulher, sentada atrás de mim no ônibus, em voz alta no celular, reclamava sobre seu dia no trabalho. Uma cliente alegava que havia comprado chupetas e estas não haviam sido colocadas em sua sacola, enquanto a trabalhadora alegava tê-lo feito. Desabafava sobre isso com sua amiga como algo que havia posto a perder seu dia. “Quanta estupidez” – pensaria qualquer terceiro sobre aquele sentimento – “deixar que um fato tão besta acabe com seu dia”.

Tudo o que descobrimos e identificamos como verdadeiro se desconstrói em nossa passagem pelo tempo. O pressuposto infantil de que seu pai sabe exatamente o que está fazendo, o primeiro beijo, o primeiro amor, o sentimento sexual, a ambição por poder, o sucesso profissional. É natural que, em algum ponto de sua vida, quando você se pega pensando que “se sua vida estivesse de outra forma, estaria muito melhor”, perceba por experiências passadas que isto, de fato, não faria diferença nenhuma. A vida é como ela é. Sem a imortalidade da alma não pode haver virtude. O efêmero de nosso prazer é inerente à nossa percepção e realidade. O próprio prazer não possui sentido senão o criado pela mente a partir da percepção biológica. Pode ser aproveitado enquanto não desconstruído pela mente desde que não haja um pré-questionamento sobre toda e qualquer sensação, que se reveste na recusa em aceitar-se humano. Tudo se encerra em um contexto social, ainda que este seja ampliado pelo conhecimento de outras eras e costumes, porque o aumento do espaço de uma prisão não é a conquista da liberdade.

Aí está o grande prazer de boa parte das grandes sitcoms – Seinfeld, Friends, The Office (…): a aceitação do prazer do cotidiano, sem a espera de um grande sentido. A vida como ela é, pequena, simples, divertida, despretensiosa e despreocupada. Em verdade, qual a diferença entre sofrer por um problema besta de trabalho ou sofrer pelo abandono de um grande amor, um trauma de infância, um ato que incrimine a consciência?

Afinal, se o prazer é racionalmente pré-condenado, desconstruído – se não há absolutamente nenhuma diferença entre o vazio do pós-vida e a existência que não nos proporciona qualquer sentido – por que não depositamos ainda um tiro em nossas cabeças? Além do simples fato de nossa covardia humana nos impedir de fazê-lo? O fato é que o melhor que o existencialismo pode prover ao mundo é ser exterminado como um vírus, antes que contamine as demais pessoas. Mas somos egoístas e preferimos coloca-las em risco por uma esperança vã de que estejamos enganados, ou que seremos curados em algum momento. Quando buscamos algo grande demais – exceder os limites do ser humano – chegamos ao ponto de não conseguirmos voltar atrás e descobrirmos que simplesmente não estamos prontos – ou fomos feitos – para ultrapassar esse limite. E é quase sempre tarde demais. Vivemos em um mundo incomunicável.

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É por isso que se referir a Louie como “uma versão adulta de Seinfeld” é completamente minimalista. A principal diferença de Louie para as demais séries citadas é que ela não é simplesmente uma ode ao cotidiano, mas sim uma luta por ele. A personificação da velha piada do palhaço Paggliacci é um existencialista que luta para viver.

No S02E09, quando Louie se encontra com seu velho amigo Eddie, temos uma situação peculiar: um existencialista defendendo a vida contra um velho amigo ranzinza e pessimista. São os vinte e dois minutos que todo existencialista deveria assistir. Muitas pessoas chegam a um ponto na vida que precisam escolher entre lutar para sair do buraco em que se enfiaram ou esperar que a terra naturalmente o cubra. Mas não pedir que alguém lhe estenda a mão para puxá-lo à situação em que está.

Pegue o metrô ou entre no carro.

Show da Vida – The National

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Neste dia do rock, o Catárticos presenteia você com um relato de um leigo aposentado no assunto sobre o melhor show de sua vida. Animado? Bom, antes de chegar ao show, preciso situá-los sobre como conheci uma das bandas da minha vida: The National. Tudo não começou em torno de 2006, quando meu amigo Wanderson Meireles – ex-membro da Cambriana – me recomendou um álbum: “Alligator”, afirmando que eu simplesmente piraria. Nessa época eu tinha uma pasta no computador: “álbuns por ouvir – Wanderson”, com dezenas de álbuns nos quais “eu piraria”. Essa pasta ainda existe, cheia e imaculada (meus amigos estão acostumados com o bom e velho “quando chegar em casa ouço”; “estou meio ocupado agora fazendo porra nenhuma, assim que der, ouço” etc). Mas eis que, em 2009, abri essa pasta que não estava empoeirada somente por ser eletrônica, e coloquei o álbum no MP3.

À época, com 18 anos, havia ido à Niterói fazer faculdade de Direito, contra a vontade dos meus pais. Dividia um quarto com duas pessoas, o que simplesmente detestava (não por elas), não tinha amigos, gostava de uma garota que demorou muito pra ficar pra trás com a minha mudança, não tinha grana pra fazer absolutamente nada. Na época, não tinha telefone fixo ou celular; quando queria falar com minha família – o que se resumia a brigas – precisava usar telefones públicos nas ruas. Minha vida se resumia a música e literatura. Foi a época em que li “Misto-quente”, do Bukowski, “Crime e Castigo”, “Irmãos Karamazov”, “Humilhados e Ofendidos”, “Noites Brancas”, “O Tirano”, de Dostoievski… Enfim, creio suficiente pra ter uma pequena imagem do que era meu cotidiano.

O Alligator foi um álbum atípico. Era uma enorme dificuldade passar para a música seguinte, porque todas faziam completo sentido, uma por uma. Por essa situação no local onde morava, estava quase sempre na garagem do prédio, ouvindo música, e sou capaz de afirmar gastei ao menos duas horas em cada faixa do álbum, compartilhando sentimentos com veículos estacionados. Quando finalmente consegui chegar ao seu fim, fui falar com o Wanderson sobre como tinha gostado da banda, se havia possibilidade de ver um show deles no Brasil, e ouvi como resposta o seguinte: “eles têm um contingente reduzido de fãs e tocaram aqui recentemente, em um festival”. Essas palavras significaram para mim, como vocês devem imaginar: “não”.Eis que um ano depois, o “não” se tornou “sim”. Pisei pela primeira vez em São Paulo, acompanhado pelo João Vítor Medeiros (o @Indiedadepre), para ver um show do National no falecido Citibank Hall. Chegamos muito cedo. A sensação, pelo público na porta, era de que veríamos um show de uma banda paulistana de médio porte. É claro que depois o público aumentou, mas como ficamos próximos ao palco, de costas para tudo, essa sensação permaneceu. E cresceu, quando à meia luz, exatamente como sempre imaginei, o National abriu com “Runaway”, em um tom especial, simples e despretensioso, como se fosse uma banda em início de carreira, respeitando cada um de seus shows como um momento de sentimento único. Não era exatamente como eu havia esperado, mas maior do que minhas expectativas. Percebi as lágrimas que escorriam de meus olhos somente ao fim da faixa. O que se seguiu a isso foi uma catarse que desaguou em um público em silêncio para a execução completamente acústica de “Vanderlyle Crybaby Geeks”.

Após o show, enquanto todos esperavam a saída de Matt Berninger – que já havia ocorrido, porque ele saíra às pressas embriagado pelo vinho e por um beijo do João quando se jogou na plateia -, fiquei por um tempo conversando com Scott Devendorf, que não recebia atenção de absolutamente ninguém: “Ninguém se fode pra baixistas”, ele disse. Foi uma conversa completamente informal, ele chegou a me fazer perguntas pessoais, como há quanto tempo eu tocava baixo. Enquanto os seguranças tratavam os fãs como canibais tentando engolir os membros da banda, os caras saíram por entre a gente, trocaram ideia com todos, atravessaram a rua no meio da galera e ficaram do outro lado da calçada, sem qualquer equipe ao redor, conversando entre si. Ainda tive tempo de dizer ao Aaron Dessner que ele me lembrava o Charlie, personagem de “Lost”.

Por tudo isso, “Alligator” será sempre o álbum que representa pra mim a quebra que é crescer, enfrentar o mundo e se tornar independente. O “Boxer” não é meu símbolo da melancolia.

Tempos depois, em visita à Rússia – país que sempre sonhei em conhecer -, talvez por toda a literatura russa que me bombardeou à época em que conheci National, a banda voltou com tudo aos meus fones, mas de uma forma completamente diferente. Fiz as pazes com o meu passado e passei a achar tudo bonito, de uma forma inexplicável. Eis que uma das gravações da viagem se transformou no vídeo abaixo: