Mostra Tarantino (CCBB – Rio de Janeiro)

imagem 1

Aos leitores cariocas e demais fãs de Tarantino: está rolando, desde o dia 17 e até 29 de julho, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), a Mostra Tarantino, que exibe vários dos clássicos do diretor, entre eles, “Reservoir Dogs”, “Pulp Fiction”, “Jackie Brown”, “Death Proof”, “Inglorious Basterds” e “Django Unchained”.

O festival disponibiliza, inclusive:
Projetos nos quais sua participação se limita a roteiro ou atuação, como “Planet Terror” e “From Dusk Till Dawn”;
Projetos cujas vendas de roteiros possibilitou ao diretor angariar recursos para produzir e dirigir seus primeiros filmes: “True Romance” (dirigido por Tony Scott) e “Natural Born Killers” (dirigido por Oliver Stone);
Projetos nos quais o diretor participou parcialmente da direção (“Sin City”, “Four Rooms”).

Além e principalmente, é uma ótima oportunidade para assistir às obras do mestre no formato 35mm. As exibições contam, ainda, com sessões extras, caso a programação não se adeque à sua disponibilidade.

Cinco entradas podem ainda ser trocadas por um catálogo com ficha completa de todos os filmes que contam com participação do mestre – seja como diretor, roteirista, ator ou produtor. Se você estiver fora da classificação etária dos filmes, ainda pode comparecer, acompanhado por responsável.

O CCBB se localiza na Rua Primeiro de Março, 66, Centro (como chegar). O Cinepasse (R$6,00, com meia disponível) dá acesso a todas as sessões e à videoteca (ou melhor, é extremamente acessível). Recomenda-se a chegada uma hora mais cedo devido à lotação da casa (98 lugares, um destinado a obeso e três destinados a cadeirantes) para retirada da senha, havendo limite – em cada sessão – de uma senha por cinepasse.

A programação completa e demais informações estão disponíveis no site oficial da mostra. É ainda possível acompanhá-la através de sua página no Facebook (por lá estão rolando, inclusive, promoções, concursos e afins).

Enfim, tem de ser muito cabaço pra perder isso. Se você atingir tal feito, parabéns.

 

 

 

Fica aqui aberto um espaço para divulgação de mostras, festivais, cineclubes e afins. É sempre um prazer divulgar o que se relaciona à sétima arte. Caso seja de seu interesse, o contato é Travis@Catarticos.com.br.

Closer – Todos amam uma bela mentira

imagem 1

!SPOILER DA OBRA “O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA”, DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ!

“(…)

Nenhuma dessas ilusões foi vã, não obstante. A fábula do galeão, e em seguida a novidade do farol, foram aliviando para ele a ausência de Fermina Daza, e quando ele menos o pressentia chegou a notícia do regresso. Com efeito, depois de uma estada prolongada em Riohacha, Lorenzo Daza tinha resolvido voltar. Não era a época mais benigna do mar, devido aos alíseos de dezembro, e a goleta histórica, a única que se arriscava à travessia, podia amanhecer de volta ao porto de origem, arrastada por um vento contrário. Assim foi. Fermina Daza passara uma noite de agonia, vomitando bílis, amarrada ao beliche de um camarote que parecia uma privada de botequim, não só pela estreiteza opressiva como pela pestilência e o calor. O balanço era tão forte que várias vezes teve a impressão de que iam arrebentar as correias da cama, do convés lhe chegavam os gritos doloridos que pareciam de naufrágio, e os roncos de tigre do pai no beliche contíguo eram um ingrediente a mais do terror.  Pela primeira vez em quase três anos passou uma noite em claro sem pensar um instante em Florentino Ariza, enquanto que ele permaneceu insone na rede da loja de trás contando um a um os minutos eternos que faltavam para que ela voltasse. Ao amanhecer, o vento cessou de súbito e o mar se tornou plácido, e Fermina Daza percebeu que dormira apesar dos estragos do enjoo, porque a despertou o estrépito das correntes de âncora. Então se livrou das correias e olhou pela escotilha na ilusão de descobrir Florentino Ariza no tumulto do porto, mas o que viu foram os armazéns da alfândega entre as palmeiras douradas pelos primeiros sóis, e o molhe de barrotes apodrecidos de Riohacha, de onde a goleta zarpara a noite anterior.

O resto do dia foi como uma alucinação, na mesma casa em que tinha estado até a véspera, recebendo as mesmas visitas que dela se haviam despedido, falando as mesmas coisas, e aturdida pela impressão de estar vivendo de novo um pedaço de vida já vivida. Era uma repetição tão fiel que Fermina Daza estremecia à simples ideia de que assim também tinha sido com a viagem da goleta cuja simples lembrança lhe causava pavor. No entanto, a única alternativa de voltar para casa eram duas semanas em lombo de mula pelas cornijas da serra, e em condições ainda mais perigosas que da primeira vez, pois uma nova guerra civil iniciada no estado andino do Cauca já se ramificava pelas províncias do Caribe. Por isso, às oito da noite foi acompanhada outra vez até o porto pelo mesmo cortejo de parentes barulhentos, com as mesmas lágrimas de adeus e os mesmos volumes de pilhas presentes de última hora que não cabiam nos camarotes. No momento de zarpar, os homens da família se despediram da goleta com uma salva de disparos para o ar, e Lorenzo Daza retribuiu do convés com os cinco tiros do seu revólver. A ansiedade de Fermina Daza se dissipou em breve, porque o vento foi favorável a noite inteira, e o mar tinha um cheiro de flores que a ajudou a dormir bem sem as correias de segurança. Sonhou que tornava a ver Florentino Ariza, e este despiu a cara que ela sempre tinha visto, porque na realidade era uma máscara, mas a cara real era idêntica. Levantou-se muito cedo, intrigada pelo enigma do sonho, e encontrou o pai tomando café com conhaque na cantina do capitão, com o olho torcido pelo álcool, mas sem o menor indício de preocupação pelo regresso.

Estavam entrando no porto. A goleta deslizava em silêncio pelo labirinto de veleiros ancorados na enseada do mercado público, cuja pestilência se sentia a léguas de distância no mar, e a madrugada estava saturada de um chuvisco firme que em breve despencou num aguaceiro dos grandes. A postos no balcão da telegrafia, Florentino Ariza reconheceu a goleta quando atravessava a baía das Ânimas coma s velas desanimadas pela chuva e ancorou diante do embarcadouro do mercado. Tinha esperado na véspera até as onze da manhã, quando soube por um telegrama casual do atraso da goleta devido aos ventos contrários, e voltara a esperar aquele dia desde as quatro da madrugada. Continuou esperando sem arredar a vista das chalupas que conduziam até a terra os escassos passageiros que resolviam desembarcar apesar da tempestade. Em sua maioria eles tinham que abandonar na metade do caminho a chalupa encalhada, e chegavam ao embarcadouro chapinhando no lodaçal. Às oito, depois de esperar em vão que estiasse um carregador negro com água pela cintura recebeu Femina Daza na amurada da goleta e a levou nos braços até a margem, mas estava tão ensopada que Florentino Ariza não conseguiu reconhecê-la.

Ela própria não estava consciente do quanto amadurecera na viagem, até que entrou na casa fechada e empreendeu de pronto a tarefa heroica de torná-la de novo habitável, com a ajuda de Gala Placídia, a criada preta, que voltou à sua antiga senzala logo que lhe avisaram do regresso. Fermina Daza não era mias a filha única, ao mesmo tempo mimada e tiranizada pelo pai, e sim a dona e senhora de um império de poeira e teias de aranha que só podia ser recuperado graças à força de um amor invencível. Não se acovardou, pois sentia um sopro de levitação que lhe daria a força de mover o mundo. Na própria noite da volta, quando tomavam chocolate com bolinhos de queijo na grande mesa da cozinha, seu pai lhe delegou os poderes de governo da casa, e o fez com o formalismo de um ato sacramental.

-Entrego a você as chaves da sua própria vida – disse.

Ela, com dezessete anos feitos, assumia-a com um pulso firme, consciente de que cada palmo da liberdade ganha era para o amor. No dia seguinte, depois de uma noite de maus sonhos, padeceu pela primeira vez o enfado do regresso, quando abriu a janela da sacada e tornou a ver o chuvisco triste da pracinha, a estátua do herói decapitado, o banco de mármore em que Florentino Ariza costumava sentar-se com um livro de versos. Já não pensava nele como o noivo impossível e sim como o marido certo a quem se devia dos pés à cabeça. Sentiu quanto pesava o tempo desperdiçado desde o dia em que partira, quanto custava estar viva, quanto amor lhe ia faltar para amar o seu homem como Deus mandava. Surpreendeu-a que ele não estivesse na pracinha, como tantas vezes estivera apesar da chuva, e que não houvesse recebido qualquer sinal dele, por qualquer meio que fosse, nem mesmo um presságio, e de pronto abalou-a a ideia de que houvesse morrido. Mas em seguida descartou o mau pensamento, porque no frenesi dos telegramas dos últimos dias, ante a iminência da volta, tinham esquecido de combinar um modo de continuarem se comunicando quando ela voltasse.

A verdade é que Florentino Ariza estava certo de que ela não tinha voltado, até que o telegrafista de Riohacha lhe confirmou que havia embarcado sexta-feira na mesma golera que não chegara na véspera devido aos ventos contrários. No fim da semana esteve tentando divisar qualquer sinal de vida na casa dela, e a partir do anoitecer de segunda-feira viu pelas janelas uma luz ambulante que pouco depois das nove se apagou no quarto de dormir da sacada. Não dormiu, presa das mesmas ansiedades de náuseas que perturbaram suas primeiras noites de amor. Trânsito Ariza se levantou com os primeiros galos, alarmada porque não voltara o filho que saíra ao pátio à meia-noite, e não o encontrou na casa. Tinha ido errar pelo cais, recitando versos de amor contra o vento, chorando de júbilo, até que acabou de amanhecer. Às oito estava sentado sob os arcos do Café da Paróquia, alucinado pela vigília, tratando de descobrir um jeito de fazer chegar seus votos de boas-vindas a Fermina Daza, quando se sentiu sacudido por um abalo sísmico que lhe dilacerou as entranhas.

Era ela. Atravessava a Praça da Catedral acompanhada por Gala Placídia, que carregava os cestos para as compras, e pela primeira vez não trajava o uniforme escolar. Estava mais alta do que ao partir, mais perfilada e intensa, e com a beleza depurada por um domínio de pessoa mais velha. A trança lhe havia crescido de novo, mas não lhe pendia mais pelas costas, atirada agora sobre o ombro esquerdo, e esta simples mudança a despojara de todo traço infantil. Florentino Ariza permaneceu atônito em seu lugar, até que aquela aparição acabou de atravessar a praça sem afastar a vista do seu caminho. Mas o mesmo poder irresistível que o paralisara obrigou-o em seguida a se precipitar atrás dela quando dobrou a esquina da catedral e se perdeu no tumulto ensurdecedor das ruelas do comércio.

Segui-a sem se deixar ver, descobrindo os gestos cotidianos, a graça, a maturidade prematura do ser que amis amava no mundo, e que via pela primeira vez em seu estado natural. Assombrou-o a fluidez com que abria caminho na multidão. Enquanto Gala Placídia ia aos encontrões, e se embaraçava com os cestos e tinha que correr para não perde-la de vista, ela navegava na desordem da rua num espaço seu e num tempo diferente, sem esbarrar em ninguém feito um morcego nas trevas. Tinha estado muitas vezes no comércio com tia Escolástica, mas eram sempre compras miúdas, pois o pai em pessoa se encarregava de abastecer a casa, e não só de móveis e comida mas inclusive de roupas de mulher. Por isso aquela primeira saída foi para ela uma aventura fascinante, idealizada em seus sonhos de menina.

Não prestou atenção à insistência dos ambulantes que lhe ofereciam o jarabe, o xarope do amor eterno, nem às súplicas dos mendigos atirados às portas com suas chagas ao sol, nem ao falso índio que tentava vender-lhe um jacaré amestrado. Deu uma volta grande e minuciosa, sem rumo calculado, com paradas que só tinham como motivo um prazer sem pressa diante do espírito das coisas. Entrou em cada portal onde houvesse alguma coisa a vender, e por toda parte encontrou alguma coisa que aumentava sua ânsia de viver. Deliciou-se com o hálito de vetiver dos panos nos arcões, enrolou-se em sedas estampadas, riu-se do próprio riso vendo-se fantasiada de madrilena com sua travessa e o leque de flores pintadas diante do espelho de corpo inteiro de O arame de Ouro. Na loja de importados destapou um barril de arenques em salmoura que lhe lembrou noites de nordeste, muito menina ainda, em São João da Ciénaga. Deram-lhe uma prova de morcela de alicante que tinha gosto de alcaçuz, e comprou duas para a refeição matinal de sábado, além de postas de bacalhau e um frasco de groselhas em aguardente. No balcão de especiarias, pelo puro prazer do olfato, macerou folhas de sálvia e de orégano nas palmas das mãos, e comprou um punhado de cravos-da-índia, outro de anis estrelado, e outros dois de gengibre e de zimbro, e saiu banhada em lágrimas de riso de tanto espirrar com os vapores da pimenta de Caiena. Na botica francesa, enquanto comprava sabonete de Reuter e água de benjoim, puseram-lhe atrás da orelha um toque do perfume que estava na mora em Paris, e lhe deram uma pastilha desodorante para depois de fumar.

Brincava de fazer compras, sem dúvida, mas aquilo que de verdade estava precisando comprava na hora, com uma autoridade que não deixava ninguém pensar que o fazia pela primeira vez, pois estava consciente de que não comprava para ela só e sim para ele também, doze jardas de linho para as toalhas de mesa dos dois, o percal para os lençóis de bordas que teriam ao amanhecer o orvalho dos humores de ambos, o mais delicioso de cada uma das coisas que desfrutariam juntos na casa do amor. Pedia abatimento e sabia fazê-lo, discutia com graça e dignidade até conseguir o melhor, e pagava com moeda de ouro que os lojistas testavam pelo puro prazer de ouvi-las cantar no mármore do balcão.

Florentino Ariza a espiava maravilhado, a perseguia sem tomar fôlego, tropeçou várias vezes nos cestos da criada que respondeu às suas desculpas com um sorriso, e ela havia passado tão perto que ele sentira a brisa do seu cheiro, e se nem então o viu não foi porque não pudesse e sim pela altivez do seu modo de andar. Ela lhe parecia tão bela, tão sedutora, tão diferente da gente comum, que não compreendia que ninguém se transtornasse como ele com as castanholas dos seus saltos nas pedras do calçamento, ou tivesse o coração descompassado com os ares e suspiros de suas mangas, ou não ficasse louco de amor o mundo inteiro com os ventos de sua trança, o voo de suas mãos, o ouro de seu riso. Não perdera um gesto seu, nem um indício do seu caráter, mas não se atrevia a se aproximar dela pelo medo de desfazer o encanto. Contudo, quando ela se meteu na balbúrdia do Portal dos Escrivães, ele descobriu que se arriscava a perder a ocasião que aguardara durante anos.

Fermina Daza compartilhava com suas companheiras de colégio a ideia estranha de que o Portal dos Escrivães era um lugar de perdição, vedado, é claro, às senhoritas decentes. Era uma galeria de arcadas diante de um largo onde paravam os carros de aluguel e as carretas de carga puxadas por burros, e onde se tornava mias denso e ruidoso o comércio popular. O nome lhe vinha dos tempos da Colônia, porque ali se sentavam desde então os calígrafos taciturnos, de paletós de lã e meias mangas postiças, que escreviam por profissão toda classe de documentos a preços de pobre: requerimentos de agravo ou de súplica, arrazoados jurídicos, cartões de cumprimentos ou de luto, missivas de amor em qualquer das suas idades. Não era dos escrivães, diga-se logo, que vinha a má reputação daquele mercado fragoroso, e sim de bufarinheiros mais atuais, que ofereciam por baixo do balcão os muitos artifícios equívocos que chegavam de contrabando nos navios da Europa, dos postais obscenos às pomadas tônicas e até aos célebres preservativos catalães com cristas de iguanas que pulsavam quando era o caso, ou com flores na extremidade para que soltassem pétalas de acordo com a vontade do usuário. Fermina Daza, pouco perita no uso da rua, meteu-se no portal sem muito ver por onde andava, buscando uma sombra que aliviasse o sol bravo das onze.

Afundou na algaravia quente dos engraxates e dos vendedores de pássaros, dos livreiros de segunda mão e dos curandeiros e das doceiras que anunciavam aos berros por cima da bulha as cocadas de pinhas para as mocinhas, de cocos para os loucos, de panela para Micaela. Mas ela ficou indiferente ao estrondo, cativada de pronto por um papeleiro que fazia demonstrações de tintas mágicas de escrever, tintas vermelhas com a sugestão do sangue, tintas de reflexos tristes para recados fúnebres, tintas fosforescentes para se ler no escuro, tintas invisíveis que o pleno resplendor da luz revelava. Ela as queria todas para brincar com Florentino Ariza, para impressioná-lo com seu engenho, mas ao fim de várias experiências decidiu-se por um vidrinho de tinta de ouro. Foi depois às doceiras sentadas por trás de suas grandes redomas, e comprou seis doces de cada espécie, apontando-os com o dedo pelo cristal porque não conseguia fazer-se ouvir na gritaria: seis de fios d’ovos, seis de leite, seis de tijolinhos de gergelim, seis de iúca e amêndoa, seis de chocolate envolto em papel de sorte, seis piononos de biscoito, seis bons-bocados de goiaba, seis disto e seis daquilo, seis de tudo e os ia amontoando nos cestos da criada com uma graça irresistível, alheia por completo às grossas nuvens de moscas em cima do melado, alheia à algazarra contínua, alheia ao bafo de suores azedos suspensos no calor mortal. Despertou-a do feitiço uma preta feliz, com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, que lhe ofereceu um triângulo de abacaxi fisgado na ponta de uma faca de açougueiro. Ela o pegou, meteu-o inteiro na boca, saboreando-o, e continuou a saboreá-lo, a vista errando pela multidão, quando uma comoção a pregou no lugar em que estava. Às suas costas, tão perto de sua orelha que só ela pôde escutá-la no tumulto, tinha ouvido a voz:

-Este não é um bom lugar para uma deusa coroada.

Voltou a cabeça e viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos glaciais, o rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira no tumulto da missa do galo pela primeira vez em que ele estivera tão perto dela, mas ao contrário daquela vez não sentiu agora a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração. Mal conseguiu pensar: “Deus meu, pobre homem!” Florentino Ariza sorriu, procurou dizer alguma coisa, procurou acompanha-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto de mão.

-Não, por favor – disse. – Esqueça.

Naquela tarde, enquanto o pai dormia a sesta, mandou-lhe por Gala Placídia uma carta de duas linhas: Hoje, ao vê-lo, descobri que só nos unia uma ilusão. A criada levou também os telegramas dele, os versos, as camélias secas, e lhe pediu que devolvesse as cartas e os presentes que ela lhe havia mandado: o missal de tia Escolástica, as rendas de folhas secas do seu herbário, o centímetro quadrado do hábito de São Pedro Claver, as medalhas de santos, a trança dos seus quinze anos com o laço de seda do uniforme escolar. Nos dias seguintes, à beira da loucura, ele lhe escreveu numerosas cartas de desespero, e assediou a criada para que as levasse, mas esta cumpriu as instruções terminantes de não receber nada além dos presentes devolvidos. Insistiu com tanto afinco que Florentino Ariza os mandou todos, salvo a trança, que não queria devolver enquanto Fermina Daza não o recebesse em pessoa para conversar ainda que fosse um instante. Não conseguiu. Temendo alguma determinação fatal do filho, Trânsito Ariza desceu do seu orgulho e pediu a Fermina Daza que lhe concedesse a ela uma graça de cinco minutos, e Fermina Daza a atendeu um instante no saguão de sua casa, de pé, sem convidá-la a entrar e sem um pingo de fraqueza. Dois dias depois, ao término de uma discussão com a mãe, Florentino Ariza desprendeu da parede do seu quarto o empoeirado nicho de cristal onde mantinha exposta a trança feito uma relíquia sagrada, e a própria Trânsito Ariza a devolveu no estojo de veludo bordado com fios de ouro. Florentino Ariza nunca mais teve a oportunidade de ver a sós Fermina Daza, nem de falar a sós com ela nos tantos encontros de suas mui longas vidas, até cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias mais tarde, quando lhe reiterou o juramento de fidelidade eterna e amor para todo o sempre em sua primeira noite de viúva.”

Trecho de “Amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez.

 

imagem 2

Quão pretensiosa é a ideia de um ser mortal construir um sentimento que seja imortal. O amor se constrói e desconstrói em pequenos detalhes. Seu fim não coincide com o fim da convivência. É uma vida independente que, como todas as outras, morre. Diante do amor, um tempo vertical se levanta em nossa existência horizontal. Muitas vezes se vive mais intensamente nessa nova vida interior do que em nossa própria existência, da mesma forma como muitas vezes uma pessoa que morre jovem vive por mais tempo do que uma pessoa centenária; é também uma questão de relatividade. Universal, por tão variável, é a lei natural que o homem jamais conseguirá explicar.

O amor não nasce da afinidade ou convivência. Nasce da coincidência que dá abertura à fraqueza, da atribuição de sentido ao momento, da mágica corporal, da impossibilidade. A crença na eternidade que com ele caminha nada mais é do que reflexo da imprevisibilidade. Não é mais sólido e rígido do que o concreto de um muro e, como ele, nasceu para ser um dia quebrado. Maleável como toda verdade, lei natural, fato humano. Como qualquer vida, o amor nasce para morrer. Isto porque, felizmente, como organismo, não nasceu para se tornar uma prisão. Sua beleza é o momento; sua cela, a eternidade.

O amor invencível. Que eterno tédio seria.

 

World War Z

world_war_z-wide

A espera pelo “Zombie movie apocalíptico com Brad Pitt” atravessa meses. E é essa a maior traição ao filme: a expectativa. Que é uma faca de dois gumes: já reduziu filmes bons ou normais a lixo; já elevou filmes ruins ou razoáveis a clássicos. Foi amiga de grandes diretores – como Orson Welles. É a expectativa que decepciona muitos leigos que buscam os monstruosos clássicos do Cinema e não os compreendem a princípio. Foi a expectativa que me instigou a procurar mais sobre Cinema, pra compreender o que se esconde atrás da superfície. SPOILER ALERT.

Não é à toa que um filme com Brad Pitt gere tamanho clamor. O ator transcendeu o estigma de galã para se tornar referência de uma geração, fazendo parte, dentre diversas outras produções, de grandes filmes como “Thelma & Louise” (1991), “Interview with the Vampire” (1994), “12 Monkeys” (1995 – mesmo ano em que fez “Seven”), “Fight Club” (1999), “Inglorious Bastards” (2009) e “The Tree of Life” (2011) – este último, considero entre os melhores filmes lançados desde que respiro

Antes de qualquer coisa, convém refletir se estamos realmente diante de um Zombie Movie. Sobre o gênero, em geral, abordei de forma mais extensa (e creio que a leitura ajude bastante) aqui. Isto porque, a princípio, nos deparamos com uma pandemia que não necessariamente indica uma infestação zumbi (cuja fonte não é discriminada no filme, bem ao estilo dos clássicos). Os infectados se movem com grande velocidade, muitas vezes com saltos sobre-humanos e afins. Não que isto não aconteça nos filmes do gênero (um exemplo seria “Rammbock”, zombie movie alemão de 2009 muito bom, exceto pelo final caótico!). Mas tomemos por exemplo “REC”, que é por muitos tratado como um filme do gênero e no qual os infectados manifestam tal postura: em nenhum momento o filme se refere a eles como zumbis.  Por muito tempo tive preconceito com esse novo zumbi, mas é uma grande besteira. Aliás, esse zumbi ágil e mais agressivo entrou até em sequências como “Resident Evil” (aqui me refiro aos jogos, claro: ignoro a existência dos filmes). Enfim, é uma opção de acordo com o que o diretor julgar útil para o suspense e, no caso do filme analisado, trabalha bem com a ação, a qual creio ser o foco. O próprio filme, porém, indica tratar-se de uma pandemia de zumbis.

O filme – que tem uma intro bem ao estilo clássico, com ilustrações narradas por notícias que vão dos problemas reais a nível planetário (e as diversas visões que sobre eles incidem) até imagens de seleção natural em outras espécies animais – se inicia inserindo os personagens em um ambiente apocalíptico convincente. Estamos diante de um ambiente catastrófico, mal explicado, com uma boa dose de adrenalina cercada pela dúvida dos personagens diante dos fatos que se dão perante a eles. Esta introdução não deixa de lado a hostilidade e desconfiança entre os próprios seres humanos – dentre a qual a humanidade e benevolência muitas vezes também têm seu espaço – e a quebra de hierarquias e deveres profissionais, inclusive sob forma de um policial que age como mero civil, ignorando seus deveres profissionais. A climatização colabora, de forma estética, inclusive no plano do suspense. A soma de tudo isto é um indicativo de que, ainda que possamos estar diante de um filme ruim, ele cumprirá seu papel de entretenimento.

E de fato, como entretenimento, o filme cumpre seu papel, embora em alguns pontos até mesmo seu aspecto ação seja falho – Gerry (Brad Pitt), em um avião despressurizado, em queda, consegue se levantar, sentar em uma cadeira e apertar o cinto. E o esforço para tal nem é tão grande assim. Inclusive logicamente, o roteiro é, em alguns momentos, improvável – um avião sem destino determinado perde controle e sofre uma queda em uma região próxima ao centro de pesquisa da OMS (Organização Mundial de Saúde): aparentemente o apocalipse traz bastante sorte aos heróis que tentam corrigi-lo. Alguns pecados dizem respeito à realidade: se passa em um mundo fictício no qual Israel é uma nação que abre suas portas para ajudar pessoas (ainda em uma situação de apocalipse) – nesse ponto, é quase um SCI-FI. Isso para não mencionar (mencionando) que, segundo o filme, Jerusalém é uma cidade pertencente a Israel, não um território internacional (o filme a apresenta assim por escrito; um erro gravíssimo).

Um ponto positivo é que o plot point 2 é muito bem desenvolvido: desde o princípio, Gerry faz observações progressivas sobre os infectados, até que, reunindo todas, tem sua ideia para contenção da pandemia. É um turnover baseado na ideia “mother nature serial killer”, que inevitavelmente deixa indícios às suas calamidades, mas que acaba não tendo propriamente um conteúdo: a fraqueza aí não se vincula a nada que diga respeito ao ser humano, mas meramente ao fato de os infectados não se interessarem por atacar outras pessoas que estejam doentes. É uma constatação do personagem apenas; não há uma grande reflexão que possa partir disto.

Pelo desenvolvimento, o filme cause a sensação de terminar pela metade. Ainda que a intenção fosse atingir um final em aberto, precisava de um maior desenvolvimento até chegar a esse fim.

World War Z é um bom filme de ação. Cumpre com seu papel de divertir o espectador, deixa a desejar em conteúdo ao ser analisado como filme apocalíptico.

Trailer 1

Trailer 2

Adventureland (2009)

imagem 1

Assim que nos formamos no Ensino Médio, há uma força nem sempre natural pra que cresçamos. Planos que nem sempre são nossos e, quando nossos, nem sempre condizem com o que nós somos (porque nem sabemos direito o que é). Muitos deles resultados do “processo natural da vida”.

O colégio acaba com as pessoas em uma fase muito heterogênea: alguns preparados e muito animados pro que há de vir, outros muito conectados àquilo. Uns se conhecem, sabem o que querem da vida e para onde querem ir. Outros estão tão perdidos quanto quando entraram, se não mais. E nada disso torna alguém pior ou melhor. O problema é que essa onda grow up atinge a todos de forma forçada. Cada um em uma intensidade, dependendo da mentalidade da família. Mas ninguém escapa.

Imagem 2

É nesse contexto que entra Adventureland, apresentando personagens em diversos estágios, lidando com todos os arquétipos de ensino médio: a gostosona vazia, a mina que fica com fama de puta injustamente, o cara cabeça que ninguém reconhece e as minas passam por cima e zoam, o zoador retardado, o cara mais velho cheio de pose que desvia a atenção de uma garota em relação a um cara realmente legal e, que quando crescer, não será apenas pose. Enfim: as figuras do colégio que todos nós conhecemos.

Tem o feeling de se libertar, querer sair debaixo da asa dos seus pais, viver a vida e descobrir o que ela é lá fora dessa caixinha. Como o filme se dá em uma cidade pequena, tem muito da cultura do Br de a galera se formar já pensando em ir pra alguma cidade maior fazer faculdade, entrar no estilo de vida de morar sozinho e poder fazer toda a merda que não podia fazer quando morava com os pais. Isso é bastante abordado em filmes muito legais no Cine (um exemplo é “Cemetery Junction”, filme dirigido por Ricky Gervais. Pois é, esse bêbado babaca que você via no Golden Globe, que criou o The Office UK e agora tá com a série Derek). Inclusive, chega a criticar esses caminhos tradicionais: Em (uma das protagonistas) chega a perguntar a Brennan pra que ele precisa de faculdade pra sair por aí fazendo seu jornalismo dos sonhos com uma pegada Charles Dickens.

O filme, além de dramático, lida com essas questões de uma forma bem divertida, contando inclusive com Kristen Wiig e Bill Hader no elenco (esses dois são insubstituíveis no Saturday Night Live. Eram os dois piradaços do elenco), que fazem um humor mais pastelão. Fora eles, muitas das cenas divertidas são protagonizadas pelos próprios personagens. Isso é importante porque por mais que a gente pense pra caralho nessa fase, nada supera o quanto nos divertimos mesmo estando na merda (aliás, acho que isso é pela vida inteira. No fundo precisamos admitir que essa insegurança, estar na merda ralando, as brincadeiras sádicas que o mundo nos proporciona, são muito fodas. Por mim, espero que nunca acabem. Segurança suck). Além disso, o filme tem sua pegada comédia romântica, nos faz lembrar como nessa fase pessoas perfeitas umas para as outras se conhecem, mas quão grandes são as chances de elas se desencontrarem, muitas vezes por detalhes).

Claro que o filme tem dessas de jogar coisas precipitadamente no roteiro, ou cenas muito rápidas, coisas bastante infantis, mas que ajudam a nos situar; bastante comum em filmes do gênero (estilo aquela rebeldia inicial de Donnie Darko com os pais. “I’m Reading.. Bitch”).

A trilha sonora é sem comentários. Algumas músicas (as que compõem oficialmente a trilha sonora):

  1. “Satellite of Love” by Lou Reed
  2. “Modern Love” by David Bowie
  3. “I’m in Love with a Girl” by Big Star
  4. “Tops”, by The Rolling Stone
  5. “Just Like Heaven” by The Cure
  6. “Rock me Amadeus” by Falco
  7. “Don’t Change” by INXS
  8. “Your Love” by The Outfield
  9. “Don’t dream it’s over” by Crowded house
  10. “Looking for a Kiss” by The New York Dolls
  11. “Don’t Want to Know If You Are Lonely” by  Husker Du
  12. “Unsatisfied” by The Replacements
  13. “Pale Blue Eyes” by The Velvet Underground
  14. “Farewell Adventureland” by Yo la tengo
  15. “Adventureland Theme Song” by Brian Kenney

Imagem 3

O filme demonstra bem que crescer é algo completamente natural. Não adianta traçar planos ou tentar se forçar a isso.

E que gostar de alguém e receber isso de volta ajuda bastante.

 

Rob Zombie’s The Lords of Salem: o Terror respira

4-the-lords-of-salem-060712

Um filme de 2012. Estreia em Abril de 2013. Aparentemente ainda um lançamento, pela promoção excessiva – e merecida – de Rob Zombie em seu Twitter. Assistindo-o, porém, pode-se confundir com um filme do fim dos 60s, 70s ou início dos 80s – a Era de Ouro dos Horror Movies. Citarei algumas cenas iniciais, mas creio que ler não estragará o filme caso ainda não o tenha visto.

Pra quem não está situado, Rob Zombie não é apenas o ex-vocalista do White Zombie (atualmente em carreira solo), mas também pôs seus pés no Cine, começando em 2003 com “House of 1000 corpses”. Com um estilo ao mesmo tempo puxado ao Trash, seu humor muito lembra os filmes de Tarantino. No mundo de Tarantino, ainda que repleto de sangue e situações grotescas, o humor mantém certa leveza, e isso até o amplia, rola uma espécie de choque entre a cena e os diálogos. Já no caso de Rob Zombie, o humor segue a linha de Tarantino, mas sem essa leveza: bem escrachado e conectado ao peso das cenas. Se você curte Tarantino, se interessará por “House of 1000 corpses”, não necessariamente gostará, mas se divertirá com “Halloween II” e certamente curtirá bastante “The Devil’s Rejects”, que é onde esse estilo do Zombie tem seu ápice. Aliás, Zombie colaborou com Grindhouse, paródia dos trash movies dos 70s que acabou dividida em dois: “Planet Terror” (Robert Rodriguez) e “Death Proof” (Tarantino).

“The Lords of Salem” começa em um clima bastante dark e silencioso – lembrando o cine noir -, com Heidi Hawthorne – nossa personagem principal – indo para casa, cansada. E a manhã seguinte, sendo acordada por um despertador, antes mesmo do sol nascer completamente. Esse início, somado a um ritual demoníaco realizado por algumas bruxas, nos leva a crer que teremos um filme de terror mais tradicional do que os encontrados anteriormente na filmografia do diretor. Esse clima, porém, é quebrado de uma forma bem ao estilo Tarantino, com apresentação de um programa de rádio conduzido por três atores que acompanham o diretor em sua filmografia (Sheri Moon Zombie, sua esposa, Ken Foree e Jeff Daniel Phillips), que desta vez não estão no lado negro da força, como costumam estar, mas conduzem uma entrevista debochada com uma banda satânica. Essa quebra é bem comum no Trash, lembra o clássico Evil Dead, em que Sam Raimi nos inicia em um suspense impecável, quebra drasticamente pra um terror de pura adrenalina e acaba em um gore que até nos acalma um pouco diante de tamanha irrealidade. Neste dia, Heidi recebe uma caixa de madeira contendo um vinil, enviada por “The Lords”, posteriormente batizada pelos locutores como “The Lords of Salem”. Logo após, o filme retoma a climatização sombria com Heidi frequentando um grupo de ajuda que a princípio não tem seu tema identificado (e não identificarei seu tema para não dar spoilers).

A climatização dos apartamentos é muito bem pensada e colabora bastante com o filme. Em uma das cenas, em que Heidi e Herman (Jeff Daniel Phillips) ouvem pela primeira vez o vinil entregue por The Lords, bastante macabro, o clima em um tom escuro com uma luz vermelha facilita o corte para uma cena em que as bruxas aparentemente realizam um parto não muito delicado de uma delas, também em um clima sombrio com um tom de iluminação pelo fogo bastante semelhante ao do quarto, suavizando a transição. Apenas um exemplo de artifício utilizado pelo diretor, mas o apartamento da Heidi prende bastante a atenção pelo filme, em seus detalhes na parede e afins, e também nos situa na personagem, porque diz muito sobre ela; sua rotina, estilo de vida e personalidade.

Como dito no início, o filme nos lembra bastante os clássicos do gênero. Na cena em que Heidi entra no quarto 5, suas visões nos remetem às trips de Argento ou Polanski, somados a um horror que não se vê muito no cine atual (baseado em sustinhos bestas e afins). Logo após à saída da personagem do quarto, hipnotizada, temos uma cena em que a trilha sonora atmosférica e densa, somada ao revezamento de enquadramento da câmera entre a bruxa e Heidi, parece bastante inspirada em Kubrick (a cena de Danny no corredor, se deparando com as gêmeas, em “The Shining”, por exemplo).

Enfim, para não estragar o filme entrando na substância do roteiro, posso dizer que o filme utiliza bastante – e bem – de sonhos, principalmente aqueles que começam em uma situação plausível ao cotidiano e se convertem em pesadelos (quem já teve problemas com isso sabe bem qual é) e remédios/drogas, o que é ótimo para suavizar o sobrenatural, porque sonhando ou trippin’ com remédios e drogas, tudo é possível. Cresce a dúvida entre realidade/viagem, lembrando bastante “Rosemary’s baby”.

Visualmente ótimo, com uma trilha excelente que se adequa a cada circunstância – revezando entre perturbadora, densa e minimalista, poderosa e imponente, sempre de acordo com o que quer passar na cena; em alguns momentos, assume aquela trilha experimental típica do Trash, em outros, é bastante tradicional, assim como o filme. O terror psicológico é crescente, mas creio que o foco esteja na reação dos personagens diante da situação (o foco está em Heidi), e os atores crescem (principalmente Sheri Moon Zombie, em uma de suas melhores atuações).
Além de tudo, o filme tem suas três tiazinhas boazinhas e, a princípio, meio “alegres”, mas que acabam se tornando bem sinistras, o que é bastante utilizado pra dar um tom macabro aos filmes (lembram daquela cena aterrorizante de Mulholland Dr., com os velhinhos bonzinhos entrando por baixo da porta? Sim, pois é, puta que pariu, não?).

Uma crítica que considero cabível é que, ao utilizar-se da técnica de jogar imagens a princípio aleatórias em meio às cenas, mas que a ela se conectam, o diretor muitas vezes joga imagens realmente aleatórias e que não contribuem. Nem se compara às do bom e velho Kubrick. Mas não culpo Rob Zombie por isso, afinal, Kubrick é Kubrick.

Acompanhando a filmografia de Rob Zombie, nota-se que é um diretor que foi se arriscando e colocando a cara a tapa até encontrar seu estilo, muitas vezes errando. Demonstra que algumas coisas só se aprende pegando uma câmera e tentando, sem medo. Não adianta ficar aí esperando a chance de ouro, já é hora de pegar sua handycam e improvisar um filme caseiro, ir procurando seu estilo, pra estar preparado quando as chances surgirem. No final da soma, Rob Zombie já possui dois bons filmes em sua filmografia: “The Devil’s Reject” (mais no estilo Trash e humor negro) e “The Lords of Salem” (mais tradicional). Não que os outros não prestem, mas esses se destacam. E agora posso  dizer que é um diretor que promete, fico ansioso por seu próximo projeto, “Broad Street Bullies

Gostei bastante de “The Lords of Salem”, espero que vocês assistam, vale a pena!

Trailer 1

Trailer 2

South Park S15E07 – You’re getting old

Imagem 1

Há quem ligue a televisão em algumas noites e se depare com quatro crianças falando palavrões, e se divirta. Há pessoas fodidas que assistam a South Park toda noite, por alguma razão. O primeiro tipo pode até gostar deste episódio, que destoa de todos os outros das dezesseis temporadas do desenho. Mas o segundo tipo nunca esquecerá da primeira vez em que o viu. Deitou em sua cama, esperando ver o desenho que lida de forma sarcástica e escrachada com QUALQUER coisa do mundo, dos maiores tabus às ideias populares infundadas mais imbecis.

E o episódio, que começa como qualquer um, mas depois percorre um caminho inusitado, faz o espectador esperar o tempo todo por um twist debochado.

De um lado, Stan completa dez anos e começa a achar tudo uma merda. No desenho, literalmente. Enquanto as pessoas falam, merda sai por suas bocas. O que seus amigos gostam de fazer (e que ele gostava) é agora apenas merda.  Sem ter prazer por nada, sempre resmungando, seus próprios amigos (há 15 temporadas juntos) começam a evitá-lo, porque ninguém quer andar por aí com um cara resmungando e achando tudo uma merda.

De outro lado, seu pai (Randy) passa por uma crise semelhante, mas em idade diferente. A pessoa que chegou ao fim da vida sem conquistar o que sonhava quando jovem. Atrasado, tenta se forçar para ter a vida que sempre quis.

O episódio parece indicar uma insatisfação dos autores de South Park. Na briga entre os pais de Stan, Sharon começa a se questionar por quanto tempo eles podem continuar fazendo aquilo; toda semana uma mesma história de formas diferentes, cada vez mais ridículas. Stone e Parker, que sempre escrevem um episódio por semana já para lançamento, estavam na época produzindo um musical (“The book of mormon”) e não sabiam como conseguiriam manter a obrigação legal de continuar a 15ª temporada.

Por fim, o episódio não nos dá o twist que esperamos. Ao contrário, vira South Park do avesso. Se chegamos à nossa noite, depois de ver tanta merda pelo dia, esperando quatro garotos (que nos lembram os bons tempos, de quando as coisas tinham alguma graça por si só) passarem por situações sarcásticas com coisas que repudiamos, para então relaxarmos, rirmos delas e dormirmos, o que vemos é um Stan sendo abandonado pelos amigos enquanto seus pais se divorciam. Sharon começa a jogar na cara de Randy infantilidades que realmente aconteceram no desenho (mas é exatamente essa infantilidade que o torna divertido, e que acaba provocando o fim de seu casamento). Por fim, enquanto Stan senta sozinho em um parque, Kyle até pensa em caminhar até ele, mas desiste. Chega a provocar dor física ver Stan deitado em sua cama, refletindo sobre como sua vida ficou vazia, com seu pijama do Terrance & Phillip (dos quais ele provavelmente já não consegue mais gostar). Até o episódio se encerrar. Este que chegou a me lembrar a época de leitura de “Notas do subsolo”.

“People get older, Randy. People grow apart”. Os pais de Stan se divorciam.

“I haven’t changed, the world has. Don’t you see it?”. Isto não é verdade, Stan. Você mudou, o mundo continua o mesmo.

The Texas Chain Saw Massacre – O massacre ao massacre de Tobe Hooper

Imagem 1Coloque Jimmie Rodgers pra tocar. Sente-se na cadeira mais confortável de sua casa. Pés na mesa. Acenda um cigarro de palha, feche os olhos e sinta o cheiro do mato. You’re in the jailhouse now, ma friend. Spoiler Alert

É assim que se inicia a história real contada por Tobe Hooper. Vocês ouvirão que – apesar de assim apresentada logo no início do clássico de 1974, bem como assim descrita no pôster do filme – isto não procede. E de fato, apesar de leatherface ser inspirado em um verdadeiro assassino (Ed Gein), o que é narrado no filme não é estritamente verdadeiro. Mas também não é completamente falso. Estamos no conturbado período político da década de 70, com grandes escândalos como o de Watergate, recente retirada das tropas dos EUA no Vietnam e, enfim, um período em que o Estado trata a população como uma massa bovina que engolirá qualquer informação veiculada. Portanto, esta história é tão real quanto tantas outras engolidas por aí. Ou mais, porque seu conteúdo é tão cruel e verdadeiro quanto as verdades que elas escondem.

São estas circunstâncias que levam Tobe Hooper, com um cachê aproximado de 83 mil dólares, em uma filmagem apressada de sete dias (com trabalhos em torno de 16h/dia, lembrando que demora na gravação de um filme é um privilégio vinculado ao cachê), selecionando atores desconhecidos com participações em comerciais ou vínculos pessoais, a gravar um dos maiores e mais influentes filmes de terror de todos os tempos. São vários os remakes, narrativas pré ou pós, superproduções, que não alcançam nem de perto a ideia e a maestria deste clássico. Não que todo terror tenha de ter um conteúdo, mas o terror de entretenimento do submundo possui um humor mais refinado e um suspense muito mais divertido do que os mecânicos e enferrujados do mainstream. Neste filme estão vários dos “clichês” que tomaram conta de diversos filmes de terror e ali está a raiz de diversos gêneros. Não gosto de “filmes obrigatórios”, mas creio que este seja inevitavelmente uma indicação essencial aos fãs do Terror e Suspense em geral. Mas nem todos gostarão de vê-lo. Negrito, porque não tenho gosto para assassinar, assim como Jim Siedow. I’m just a cook.

Enfim. É neste clima Jimmie Rodgers – vamos conhecer o campo – que Tobe Hooper nos introduz na narrativa em que dois irmãos pretendem conhecer a velha casa do vovô, levando seus amigos. A perturbação inicial é mais sutil e se concentra no personagem cadeirante e em suas limitações locomotoras e afins (o que é terrível para nós que sabemos estar vendo um filme de terror em que uma hora ou outra um maluco de 100kgs vai surgir empunhando uma motosserra). Além disto, aos poucos o diretor vai demonstrando que os personagens não têm o mínimo de respeito por Franklin Hardesty, nem mesmo sua própria irmã, que sente por ele um misto de pena e irritação. Nosso paranoico personagem está o tempo todo alerta para todas as possíveis merdas, enchendo o saco dos demais a respeito, que o respondem com piadas ou indiferença.  É um rapaz, enfim, que tem tudo para se foder grande, mas ao mesmo tempo, quem sabe não é o único que vai se salvar? Afinal, é uma armadilha muito comum do Terror.

Esse clima tranquilo começa a ficar bastante suspeito quando os personagens param para pedir informação e, chamando a atenção apenas de nosso pobre personagem paranoico, um velho lança disparates sobre coisas estranhas que acontecem por ali, destacando que seus avisos são sempre em vão, porque ninguém dá atenção a um velho bêbado. Não parece ser o caso de Hardesty.

Mas qualquer coisa que ele tenha a dizer é ridícula. Nevermind.

Imagem 2

Enquanto Hardesty narra diversas formas de se matar animais, o que se reveza com imagens do tratamento cruel que dispensamos a eles, nossos viajantes decidem por dar carona a um hitchhiker pela beira da estrada. Obrigado por isso. Graças a eles conheceremos a atuação sensacional do lunático Edwin Neal. Com um bom e velho country a fundo, nosso novo amigo entra com tudo no assunto, discutindo novas técnicas de se matar animais com um sadismo incômodo. Logo o louco inofensivo se converte em um lunático inconstante e coloca todos os demais em uma situação defensiva, sem conseguirem compreender se estão lidando com apenas um maluco qualquer ou um psicopata perigoso. Mas depois de queimar uma foto com pólvora, cortar a própria mão e demonstrar sua enorme curiosidade por facas, inclusive cortando um de nossos personagens (e quem poderia ser?), acho que todos chegamos à conclusão de que o indivíduo realmente não bate bem e pode ser perigoso. Ao ser chutado da van, continua atrás dela, chutando e deixando por ela marcas de sangue. Cena sensacional! Edwin Neal fica para trás no caminho e na cabeça de todos os personagens. Excetuando-se, claro, nosso pobre amigo paranoico, que fica o tempo inteiro se questionando se eles não serão seguidos e assassinados ou qualquer maluquice do tipo.

Uma parada em um posto para abastecer, porque é claro que eles não se preocupariam com gasolina em uma viagem tão tranquila, um caipira gente fina que os sugere que fiquem e comam um churrasco ao invés de procurar a casa, porque as pessoas naquela região podem ser bastante sensíveis (ou rigorosas) no tocante às suas propriedades. Nossos amigos aceitam o churrasco, mas resolvem ir à casa com o pouco de gasolina que possuem. Chegam a ela, claro e convenientemente, quase sem gasolina.

Imagem 3

Uma chegada tranquila e agradável à casa de campo. Bastante velha e destruída, mas esse parece ser o objetivo aventureiro de nossos personagens. Todos bastante felizes. Exceto, obviamente, nosso amigo só-se-fode que, aliás, está fazendo uma viagem roots com dois casais: algumas pessoas não se ajudam. William e Teri, um de nossos casais, decidem dar um passeio. Mas não se preocupem. Pelo contrário. Em sua caminhada, avistam uma casa próxima. Conseguiremos gasolina. A princípio educado, o rapaz bate à porta, aguarda que alguém atenda. Mas na ausência de resposta, decide entrar e procurar por alguém. E encontra. Nosso herói, Leatherface, que, como se lidasse como um animal, o abate com uma pancada forte e certeira na cabeça. Enquanto William tem um ataque no chão, tremendo pela pancada na cabeça, a trilha sonora pela primeira vez se altera para algo sinistro e impactante. Leatherface fecha a porta com um baque que, além, quebra o filme. Nem o psicopata, nem nosso amigo paranoico, haviam conseguido romper nosso clima country/folk até então. Mas não se engane pensando que entramos em toda a perturbação que o filme tem a oferecer. Indo à procura de William, Teri se vê cercada por ossadas, sons de animais, combinados a uma trilha discreta, porém ambientada e atmosférica (nada daquela trilha meramente indutiva comum dos suspenses/terror, muitas vezes mal utilizada). As câmeras inquietas e rodopiantes se combinam à trilha e ao ambiente para nos situar subjetivamente na personagem. Mas se você já teve náuseas por aqui: pare o filme. Da mesma forma certeira, Leatherface golpeia Teri e a carrega para seu pequeno e introspectivo açougue. Seguindo a linha anterior do tratamento por nós dispensado aos animais, da mesma forma é o tratamento dispensado por Leatherface aos seres humanos. Nota-se em nosso herói alguém que vive isolado em um matadouro. Além de seus problemas mentais, ele realmente não parece ter a noção do que está fazendo. Acostumado a fazer aquilo com animais, parece a ele comum fazer o mesmo com os humanos que não são parte de sua família.

Imagem 4

Se você criou alguma simpatia com nosso aventureiro medroso e estava torcendo para ele sobreviver ao fim como resposta ao deboche e descaso que ele até então recebeu, trago tristes notícias. Afinal, na primeira aparição de nosso herói com sua clássica serra-elétrica, quem melhor para ser cortado em pedaços? Após Jerry também ser abatido, em uma cena que se inicia com o estresse e desespero dos irmãos deixados para trás, já após anoitecer, caminha pelo suspense de ambos em busca dos desaparecidos pelas matas e termina em uma perseguição desesperadora de Leatherface a  Sally (Marilyn Burns), a única sobrevivente a esta altura. Sem apelar para a trilha indutiva, como dito acima (que às vezes acaba por estragar o impacto da surpresa, apesar de reforçar o susto), Leatherface aparece do nada nas matas e corta Hardesty em pedaços. Aí sim, combinada ao som natural da motosserra, a trilha estimulará a adrenalina da perseguição. Por mais que Sally se afaste de Leatherface, ou se esconda em cômodos e afins, o som da motosserra está sempre presente, mantendo a adrenalina ativa. Mas à medida que ele se aproxima da vítima, a trilha cresce e fica mais densa, ampliando a situação. Sally consegue escapar e encontra abrigo no posto do caipira gente fina que conhecemos no início. Estamos de volta ao bom e velho country rolando ao fundo.

Imagem 5

De agora em diante, adentraremos na perturbação que o filme realmente tem a oferecer. Aquele caipiria legal é, na verdade, a causa de tudo. Se Leatherface aparentemente não sentia prazer em torturar humanos – mas apenas os via com indiferença em relação aos animais que são abatidos em matadouros – não sentimos o mesmo de Jim Siedow, cujo personagem não recebe nome no filme. Após capturar nossa última sobrevivente, ele parece sentir prazer com seu desespero. Além, na forma de tratar o hitchhiker (cujo personagem também não recebe nome) e leatherface, parece que boa parte de suas “doenças” tem como origem este cozinheiro, que não gosta de matar, como ele mesmo diz. Sally é levada de volta à casa e amarrada a uma cadeira. Ao retirar-se o saco que cobria seu rosto, reconhece o hitchhiker e ele a reconhece, agora em situações completamente opostas. Vulnerável e desesperada, sente o prazer sádico de Edwin Neal, rindo e tocando seu rosto diante daquela inversão. As câmeras inquietas e em ângulos incomuns no desespero de Sally começam a ficar mais apelativas, revezando-se com os preparativos de nossos psicopatas para o que seria um dos banquetes mais macabros do Cinema, com completas condições de competir com as refeições escatológicas de Pasolini. Um dos cadáveres que Sally havia visto enquanto fugia de leatherface anteriormente era, na verdade, o avô desses malucos. Vivo, em um estado putrefato. Mas suficiente para chupar sangue do dedo da mulher, cujos gritos eram audíveis embaixo da mordaça e cuja mobilidade estava completamente restrita. Não havia escape, desabafo, diante daquela situação desesperadora. Mas principalmente, do que parecia ser apenas o princípio do imprevisível. Sally é, então, apagada.

Imagem 6

Sally acorda em uma mesa de jantar em família. Seus gritos de desespero recepcionados por gritos de deboche. A cena cresce de forma genial. Um revezamento entre o enquadramento no desespero da vítima – que chega a entrar em seu olho – e o sadismo e deboche da família. A trilha se enche, misturada aos gritos que já são uma constante, ao deboche e diálogo maluco dos psicopatas e a barulhos cujas origens sequer são identificáveis. A câmera não para. Aqui, o terror psicológico se enche em uma cena de técnica primorosa, misturado à náusea. O tratamento à Sally já em nada se difere a um animal, e eles decidem que o avô putrefato – dos quais se orgulham por ser um exímio matador – seria o responsável por abatê-la. Ajoelhada, com a cabeça segura acima de um balde, tentando reagir sem êxito, Sally assiste enquanto o avô – que a mataria, segundo a promessa, com apenas uma pancada, por sua habilidade e experiência – sequer consegue segurar o martelo. O velho a acerta, ferindo-a, mas sem êxito. O processo seria bastante lento. As quedas do martelo e os gritos de incentivo da família aumentam o desespero da vítima, já ferida, além do que se pensava possível. No ápice, ela se desvencilha deles e salta por uma janela de vidro. A queda fere sua perna e assistimos à vítima fugir mancando, perseguida pelos dois matadores da casa. Chegando à estrada, o hitchhiker, mais próximo na perseguição, é atropelado por um caminhão, cujo motorista acaba assassinado. Sally consegue subir em uma pick-up, que para em ajuda e, logo em seguida, foge acelerada, enquanto a sobrevivente observa leatherface descontrolado desferindo golpes com sua serra-elétrica contra o carro. Na pick-up vemos, por fim, Sally ensanguentada, sem podermos identificar se sorri, chora, ou faz ambos ao mesmo tempo.

Assim termina o filme. Nada de cena final com a sobrevivente tomando um banho quente, compreendendo os acontecimentos, refletindo a respeito. Tobe Hooper já nos deu tempo e informações o bastante pelo caminho para compreender tudo.

E nada de quebrar a adrenalina. É bom terminar o filme com um “Puta que pariu”, em todos os sentidos possíveis.

Texas Chainsaw 3D

Imagem 7

Você provavelmente está olhando a barra de rolagem e se questionando: ela já está chegando ao final e só agora começará a review do novo “Texas Chainsaw 3D”. Infelizmente, não há muito o que se dizer sobre esse filme. Enfim, o único ponto positivo está na última foto do post. Sinta-se à vontade para deixar de ler o que vem a partir daqui e pular para ela. Se você é mulher, interrompa por favor a leitura antes do que está abaixo da última foto.

A proposta, na verdade, não é ruim ou incomum: a vitimização do vilão. Grande parte dos personagens clássicos do terror (Freddy Krueger, Jason, Candyman…) não são vistos pelos fãs como inegavelmente vilões, pela história construída por trás deles. A questão é: a ideia foi bem desenvolvida? Além, já não estava implícita no original de Tobe Hooper?

O filme conta com diversas cenas que chegam ao infantil. Quando Heather Miller, que se descobre membro da família Sawyer (de Leatherface), questiona seus pais de criação a respeito, nos deparamos com uma cena tão ruim que se torna difícil identificar se a péssima qualidade se deve às atuação fracas ou à má construção em si. Os viajantes dão carona a um rapaz, em um clima de suspeita, e na primeira oportunidade o deixam sozinho em uma casa que Heather recebeu de herança, cheia de objetos valiosos. Ao retornarem, se surpreendem por terem sido roubados! Qual a surpresa? A revelação do bom e confiável policial como um dos vilões chega a lembrar Doofy em Scary Movie. A cena piora com uma tentativa de psicopatia por parte de Heather, que responde à revelação do policial com uma ameaça: “Sou uma Sawyer”.

Toda a climatização inicial da obra de Tobe Hooper é trocada por adolescentes em um carro ouvindo músicas péssimas (com o que não tenho problema; compreendo que seja uma transposição ao que aconteceria atualmente, pela personalidade dos personagens) e atitudes despidas de qualquer naturalidade. O espectador nunca está conectado subjetivamente a qualquer personagem, porque o filme não constrói, em nenhum momento, um ambiente convincente.

A única boa situação de suspense – o policial entrando na casa após os incidentes – é rapidamente estragada com a sua saída: ele acaba de passar pela situação mais grotesca e de maior tensão de sua vida e, para sair, relaxa a guarda, como se não estivesse em perigo algum.

Os sustos não são lógicos – Leatherface aparece atrás do hitchhiker para assassiná-lo, do nada e silenciosamente. Mas como ele moveu aquela pesada porta sem fazer qualquer barulho? – mas combinam com a trilha sonora meramente indutiva e besta.

A proposta inicial, conforme exposto, se desenvolve para um adjetivo não inventado que está além do horrível. Não me assustaria descobrir que James Franco dirigiu e escreveu este filme em segredo (e até diria que ele melhorou um pouco desde que dirigiu e escreveu secretamente REC 2). O único medo que o filme desperta é o fim aberto à possibilidade de uma continuação.

Só um pequeno detalhe: os gastos pra produzir essa merda estão na casa dos 20 milhões de dólares! Contraste com os 80 mil dólares gastos por Tobe Hooper e um belo incentivo para você começar a ser mais otimista com as suas ideias pra filmes caseiros e inventivos.

Imagem 8

Ponto positivo do filme: mantiveram a tradição secular de mulheres gostosas no Terror. Aliás, o 3D aparentemente só serve para realçar a bunda de Tania Raymonde em incontáveis inícios de cenas. Belo trabalho, pessoal!

Obs.: Todas as informações relativas a James Franco são tão reais – e irreais – quanto a narrativa de Tobe Hooper.

 

Kairo (Pulse) – A internet de Kiyoshi Kurosawa não é a mesma de Paul Miller

Imagem 1

Na fase catastrófica do Terror no Cinema mainstream, os fãs do gênero são obrigados a encontrar no underground filmes que satisfaçam sua procura. Para não ser injusto, essa não é apenas uma característica da fase atual do Cinema e se torna, inclusive, um ponto forte à medida em que você põe os pés mais a fundo no gênero. Raros são os momentos em que o Terror atinge alta qualidade no mainstream (e estes filmes costumam ser excelentes). Foi por esse caminho que acabei entrando no cine oriental e, acidentalmente, encontrando Kairo (nome americano: Pulse), filme de 2001 no qual o Terror divide espaço igualmente com o Sci-Fi e, ao contrário do que possa parecer, não é tão b-side assim. Há spoilers no texto, mas não considero que a leitura vá estragar o filme.

Com trilha sonora sutil, atmosférica e muitas vezes minimalista, fotografia sombria – clássicos do Terror japonês – em alguns momentos fazendo lembrar inclusive a direção típica do Cinema Noir, além de ótimo uso de câmeras subjetivas, Kiyoshi Kurosawa constrói um excelente e envolvente ambiente de suspense. Além, a técnica se integra muito bem ao roteiro para nos ambientar no clima da Internet 90s e do início da primeira década de nosso século. O roteiro destaca bem situações da época, ao redor do nascimento da internet, que são bem diferentes da atualidade, como o enorme abismo entre os que estudavam computação e afins e os que começavam a se aventurar de forma autodidata no mundo tecnológico e da internet inclusive no que há de mais básico.

A internet nos 90s não era um ambiente tão integrado à vida real como atualmente, e se afastava cada vez mais desta à medida que se caminhava para seu interior. As amizades eram trocadas por ideias. Formava-se quase uma segunda personalidade e essa alteração em sua vida o afastava cada vez mais do real. As ideias aos poucos iam se tornando vazio. O vazio, convertendo-se em solidão. A velha prática de manter-se acordado até a madrugada para acessá-la ia aos poucos nos despersonalizando na vida real. Era um clima de insegurança quase primata, ali surgindo os lammers: pessoas com conhecimento irrisório de computação, mas que conseguiam droppar sua internet e sentiam-se por isso uma raça superior de donos do novo mundo (teriam perdido menos tempo estourando espinhas ou correndo em uma esteira). Também ali surgiram os hacktivistas, pessoas que utilizavam seus conhecimentos de tecnologia com propósitos políticos, bem intencionados; na época sofriam grande preconceito da sociedade – com verdadeira imagem de terroristas -, o qual vem sendo desconstruído atualmente. Esse ambiente alternativo, agora integrado ao real, faz os velhos internautas sentirem falta do que encontravam no princípio. Às vezes me pego conectado ao IRC – lugar que via repleto de pessoas, com canais sobre qualquer tipo de assunto imaginável -, agora deserto, com poucos canais acessados por algumas pessoas que estão lá mais por saudosismo do que para conversar propriamente e, claro, os hackers old-school, que ainda o frequentam.

O diretor nos introduz nesse contexto já no início, com a solidão consumindo os usuários de internet. No velho clichê de que “um dia o mundo dos mortos ficará sobrecarregado e eles voltarão à nossa realidade”, o filme aponta metaforicamente a internet como porta para tal, mas tratando logo de comparar os usuários com fantasmas. Utiliza quase sempre a personagem Harue para fazer tal ponte, como em cenas em que esta questiona Kawashima sobre o porquê de querer se conectar à internet, logo desconstruindo a ideia de que, através dela, se conectaria a novas pessoas: “As pessoas não realmente se conectam”. No desenvolvimento paralelo entre o pano de fundo sobrenatural e a crítica à internet, Harue, em cena chave, conecta as linhas de desenvolvimento ao ligar diversos computadores em sua casa, nos quais se transmitiam imagens via webcam de usuários em estado de alienação, questionando se eles estavam realmente vivos; se haveria verdadeira diferença entre estas pessoas e os fantasmas. “They are trapping themselves into their own loneliness”. Por fim, o filme desemboca em uma Tokyo apocalíptica e deserta, com todos os personagens restantes agonizantes pela solidão.

Imagem 2

Não foi sem motivo que resolvi revisitar pela terceira vez essa excelente obra do Cinema Japonês. O filme me veio à mente após ler a experiência de Paul Miller, jornalista norte-americano que, sentindo-se uma vítima moderna semelhante aos personagens do filme, resolveu experimentar uma vida desconectada por um ano. O resultado é este excelente artigo para o The Verge, que apoiou o projeto (infelizmente não o encontrei em português).

Em um projeto que desmente a si mesmo, Paul Miller descobre que não há mais um muro entre a realidade e a vida cibernética, mas que estas estão conectadas de forma inseparável, já não nos delegando uma opção. A internet, ainda, não é mais a mesma; o aumento do fluxo de informação, a busca desenfreada que aponta, do indivíduo, a todas direções, torna cada conteúdo – apesar da amplitude na rede – aproveitado muitas vezes de forma limitada. O desenvolvimento da comunicação, que nos liga uns aos outros a qualquer momento, choca-se com o “todo mundo é uma ilha”. Por fim, não pude me decidir se o que Paul Miller encontrou em sua vida por um ano foi uma resposta negativa à crítica do diretor japonês ou o pessimista alinhamento com o adendo de que, para nós, é tarde demais.

The Walking Dead: uma homenagem ao Cine Trash, um insulto à humanidade.

imagem1

A realidade é um muro de concreto. Imaleável, subjetivamente, quebra-se como porcelana. Era o que pensava o homem, involuntariamente, olhando fixamente para um vaso intacto, em cujo interior jaziam plantas mortas. Havia sido baleado e, há alguns segundos, conversava com seu melhor amigo, sentindo que se recuperava. Sentia que a lógica era um organismo vivo. Dependia de cada um dos seus órgãos, dos centrais aos mais insignificantes. Se um deles não funcionasse, todo o resto era questionável. Do interior à realidade, já não mais poderia afirmar que qualquer coisa fosse real, ainda que palpável. Gritava por ajuda sem saber que não havia ninguém para atendê-lo. Ou todos aqueles corredores estariam dominados por pessoas, escondidas sob seus cadáveres. Criaturas do demônio, um castigo de Deus, um erro da ciência, um produto natural das escolhas da humanidade. Isto, somente ele poderia decidir. Aquele homem, que dormiu por dias, meses, anos, estava prestes a envelhecer mais do que qualquer pessoa que viva em tempos de paz, ainda que velada. Mas provavelmente não gostaria que seus gritos de ajuda fossem atendidos. Não naquele momento. Não daquela forma. Foi aí que tudo começou para alguns. Para outros, começa no gênero que se encontra nos 60s, se expande nos 70s e consolida seu espaço nos 80s. Mas os zumbis nasceram muito antes.

O princípio

Passado-tratada

Apesar do artigo de reunião supersticiosa “The Country of the Comers-Back”, publicado pelo jornalista Lafcadio Hearn na Harper’s Magazine (1889), foi o aventureiro William Seabrook – membro da Geração Perdida de escritores norte-americanos – o primeiro a ir além da superfície do mito. Dono de uma escrita espontânea e subjetiva – estamos falando de um escritor que se recusou a escrever sobre canibalismo (em seu livro Jungle Ways) até que provasse por si mesmo a carne humana, a qual descreveu como semelhante à carne de porco, mas que “precisava de mais tempero” -, em viagem à capital Vodu do Caribe (Haiti), publicou “The Magic Island” (1929), livro que mostraria que a lenda zumbi vai além das superstições sem padrão apresentadas no artigo de Hearn.

O Haiti, em situação colonial ainda pior do que a brasileira, teve sua população indígena dizimada, seguida por uma grande importação da mão-de-obra escrava africana e imigração de uma minoria de proporção irrisória que dominaria esta mão-de-obra. Do híbrido da cultura africana e da tentativa de catequização forçada, nasceria a religião Vodu, que resistiria à caça às religiões pagãs. De acordo com tal crença, uma pessoa seria composta de duas almas: a primeira representando sua força vital (“gros-bom-ange”), enquanto a segunda, sua essência (“ti-bom-ange”). Aqui, nasce a possibilidade de que as duas sejam separadas por um terceiro, restando ao corpo, de volta à vida, apenas sua força vital, sem qualquer vestígio de sua essência: uma casca vazia. Diante deste contexto de exploração extrema de uma vasta maioria por uma minoria, era assustador à população haitiana a possibilidade de que este feitiço fosse utilizado contra eles para que o que restasse de seus corpos vazios fosse utilizado para o trabalho escravo, fazendo inclusive com que fosse comum que, após a morte de um parente querido, a própria família o “matasse novamente” com um tiro na cabeça. Se isto, a princípio, soa como uma superstição banal, o alcance da veracidade do mito pode surpreender, o que é constatável da descrição de Seabrook ao se deparar pela primeira vez com o que os fazendeiros haitianos se referiam como zumbis:

“Minha primeira impressão dos três supostos zumbis, que continuavam a trabalhar, foi a de que eles tinham realmente alguma coisa de estranho. Seus gestos eram de autômatos (…). O mais horrível era o olhar, ou melhor, a ausência do olhar. Os olhos estavam mortos, como se fossem cegos, desprovidos de expressão. Não eram olhos de um cego, mas de um morto. Todo o semblante era inexpressivo, incapaz de expressar-se. Eu havia visto no Haiti tantas coisas que fugiam do senso comum que por um instante tive um surto, quase pânico, no qual pensei, ou senti: ‘Bom Deus, talvez seja tudo verdade e, se for, é terrível demais, pois isso muda tudo’. Por ‘tudo’ eu me refiro às leis e aos processos da natureza nos quais o pensamento e a ação humana moderna se baseiam.

Mais uma vez, porém, Seabrook não se rendeu aos mitos e, em diálogo com um médico haitiano, constatou que havia grandes chances de que o que os haitianos se referiam como zumbis fossem sonâmbulos em estado induzido de hipnose. Por isto, não é de se estranhar que algumas listas de zombie movies incluam filmes como “The Cabinet of Dr. Caligari”. Tal hipótese, inclusive, é reforçada pelo Código Penal do Haiti que, em seu Art. 249, assim dispunha:

                             “É também considerado atentado à vida de uma pessoa, o emprego feito contra ela de substâncias que, sem produzir a morte, causam um efeito  letárgico mais ou menos prolongado, quaisquer que sejam as consequências.  Se por efeito desse estado letárgico a pessoa for enterrada, o atentado será considerado assassinato”.

Para mais informações a respeito, sugiro a leitura de “Book of the Dead”, de Jamie Russel.

O apocalipse chega ao Cinema

Imagem 2

O livro de Seabrook chega aos EUA em meio à Grande Depressão e, além, em um contexto em que o Haiti, país já independente e que sofria embargos de toda a comunidade internacional, despertava interesse a todos pela construção preconceituosa de uma sociedade e cultura de selvagens. Não é aí, porém, que os zumbis encontrarão seu espaço livre de preconceitos.

A Guerra Fria, conhecida pela ausência de conflito direto entre a dualidade de potências mundiais, não tem a perder em relação às demais Grandes Guerras. Principalmente com a proximidade da Guerra do Vietnam, a população norte-americana – especialmente os jovens – se percebia enfim como vilã no mundo. Era uma juventude perdida e que se via como vazia, clamando por sentido. Foi aí que Jack Kerouac iniciou suas viagens que dariam origem ao “On the Road”. Que um fã de Woody Guthrie, influenciado pela obra de Kerouac, de voz questionável, saiu pelo país com um violão nas costas e um talento para letras que revolucionaria a música. O movimento Punk, enfrentando o privilégio e a extrema delimitação da música, gritou ao mundo o lema “do it yourself”, universalizou o acesso à música e a produção da mesma com sua atitude que preenchia seus acordes em grande parte simplórios e, principalmente, com o muito que tinham a dizer – ou gritar. Agora, qualquer garagem poderia se expressar através da música. O cinema, que é uma arte de alto custo, não ficou de fora disto. O tão mal quisto Cine Trash nada mais é do que a vertente “do it yourself” do Cinema. Pessoas com muito a dizer, que queriam apenas se divertir ou que buscavam chocar, sem dinheiro e sem apoio de produtoras, lançavam seus filmes low budget e conquistavam aos poucos seu público. Daí as inúmeras vertentes; o humor negro, macabro ou muitas vezes simplesmente pastelão, filmes de produção limitada e com conteúdo infinitamente maior do que grandes produções hollywoodianas ou filmes que lidavam quase estritamente com o gore. E claro, a mescla de tudo isso era comum. Para bom espectador de um filme trash, o sangue falso ou a maquiagem tosca não ofusca o plano de fundo. Guarda-se o foco etimológico do termo “monstro”: o termo latino monstrare; demonstrar, mostrar, apresentar. E mesmo o gore, que tanto preconceito sofreu no Cinema (e hoje está em alta), era algo equivalente a um adolescente trancado no banheiro raspando sua própria cabeça e saindo às ruas com seu moicano. Foda-se se você gosta ou não, e se detesta, que seus olhos tenham a nítida certeza de que não queremos que pense o contrário. FUCKOFF. Com o Cine Trash, o processo de aceitação foi mais lento, mas não menos corajoso.

Neste cenário, os filmes de zumbi se encaixam se dirigindo a um público específico. Aqueles que têm curiosidade sobre a verdadeira natureza humana.  Sobre quão certa nossa é nossa escala social de valores, quando testada diante do caos. Aquele grupo de pessoas que se perguntam se o que eles fazem e que aparentemente contribui à sociedade por uma atribuição humana de valores realmente é útil em um estado de natureza. Se nossa ciência realmente produz algo que transforma e evolui o ser humano. Se estamos no caminho certo. Esta reflexão pode parecer inútil se o estado caótico for colocado como uma situação utópica tão distante, mas a abstração pode trazer algum sentido real às nossas vidas, nos afastar de um caminho determinista improdutivo. De uma verdadeira escravidão. Da letargia. Isto, afinal, adotando a postura de que estamos tão distantes do caos. Estamos? Ou estamos próximos? Talvez vivamos nele? Ele seria tão ruim assim?

Esclarecendo que este texto não tem intenção de qualquer tipo de orientação relativa a filmografia, apenas para reforçar o que foi até então dito, não poderia deixar de citar o grande mestre George Andrew Romero. Tido por muitos como o grande criador do gênero no Cinema – o que não é bem verdade, apesar de tê-lo adaptado de uma forma que será a linha seguida majoritariamente – com seu filme “Night of the living dead” (1968), que se foca no terror e na natureza humana e divergência comportamental e ideológica em face do apocalipse, tem “Dawn of the Dead” (1978) como obra base e que melhor ilustra o que foi até então exposto – que posteriormente recebeu uma das mais lastimáveis adaptações do Cinema, do diretor Zack Snyder – na qual ultrapassa a situação de exteriorização do zumbi para consolidar a ideia de que é também o zumbi uma metáfora para a alienação já presente no indivíduo de nossa sociedade, além de considerações sobre a defesa de valores sociais em uma inércia de ausência crítica até o limite do caos, envolvendo inclusive o humor e o gore típicos supracitados. Em “Land of the Dead” (2005), filme que se inicia em meio a um apocalipse zumbi já consolidado, mas com uma cidade completamente cercada e reforçada onde vive o que restou da humanidade, o diretor dá ainda maior amplitude ao que construiu. O filme atinge seu ápice quando os mortos a invadem e, ao tentar fugir, a população se vê cercada pelos muros que ela construiu para sua própria proteção, o que é destacado pelo personagem, indicando seu sentido metafórico explícito. Não é, porém, conveniente buscar listas e afins, embora tais filmes sejam bons para quem está ainda ingressando no mundo dos zumbis. O legal é que você mesmo trilhe seus caminhos, vá encontrando os filmes que te agrade. Seria uma pena delegar a terceiros a escolha dos filmes em um gênero tão amplo.

The Walking Dead – Uma homenagem ao Cine Trash

Imagem 4

“Welcome to the big city”. Foi com esta frase que Glenn recepcionou Rick, enquanto observavam as ruas repletas de zumbis.

Há poucos motivos para não considerar a primeira temporada da série excelente e muitos motivos para não considerá-la ruim ou meramente mediana. Priorizando situar o espectador no novo mundo, o primeiro episódio inicia-se com um Rick fraco, que mal consegue caminhar, em um hospital infestado. Caminhando pelas ruas enquanto o espectador tem a percepção de que, em uma cidade deserta, talvez um dos zumbis fosse suficiente para acabar com o personagem ali mesmo. É um contraste interessante com o Rick que termina o episódio saudável, recuperado e seguro, caminhando pelas mesmas ruas e inclusive matando um zumbi que antes o assustara. Não se limitando ao bom suspense e à ação, já nesta temporada os personagens são apresentados em seu básico, sem grande desenvolvimento, e os espaços do HQ são preenchidos com referências a diálogos, ao gore e ao suspense clássico dos zombie movies, embora levemente amenizados. Inclusive o contraste de cenas de imagens fortes com músicas leves, com um toque de humor negro que suaviza o suspense levando o espectador a divertir-se acima de tudo com o que está por vir.

A primeira temporada não traz ao espectador a segurança de que uma boa série está por vir, mas consolida uma promessa. Seus erros irão se refletir majoritariamente na segunda temporada, o que comentarei posteriormente. Se cabe aqui uma crítica, seria a Noah Emmerich, que enfraquece seu personagem. Outro bom ator poderia dar ao desfecho um peso muito maior. Mas é muito positivo que a adaptação não tenha se dado ao pé da letra, como muito acontece e é desastroso, mas sim resgatando as origens do gênero, constituindo verdadeiro transporte do modelo de expressão dos comic books para o das séries. É ótimo destacar que, apesar de toda a explicação dada pelo Dr. Edwin a partir de suas pesquisas mantém ainda em aberto a causa. O fornecimento de uma explicação limita que os personagens expressem suas visões pessoais diante da nova realidade. Alguns personagens importantes da HQ, cortados, aparecerão posteriormente. Não estou certo, porém, que isto tenha sido premeditado, mas retornarei a este ponto ao comentar a terceira temporada.

Uma adaptação é subjetiva, podemos dar importância maior a detalhes aos quais os roteiristas não se detiveram, e não creio que isto sempre possa ser posto como crítica. Ao ser questionado sobre sua profissão antes do holocausto, diante da admiração do grupo por suas habilidades, Glenn os surpreende dizendo que era entregador de pizza. Nas HQs ocorre uma conversa no acampamento em que cada um fala brevemente sobre sua ocupação e sua vida antes da mudança. Considero esta cena importante. Característica dos filmes de zumbi, demonstra normalmente o contraste entre a importância dos empregos e a verdadeira utilidade de cada um diante daquela nova circunstância, ainda reforçando a ideia de que após o apocalipse zumbi, todos são iguais. Mas não se pode esperar – ao contrário é ideal que se repudie – que uma fórmula seja obedecida. A arte em geral não deve funcionar assim.

Por fim, a criação de Merle e Daryl é de se tirar o chapéu. Merle cortando a própria mão e a cauterizando no fogão é um ato sequer exposto em cena que já traduz a essência do personagem. A interpretação que Norman Reedus dá a seu personagem o engrandece e segue uma crescente por toda a série. Ele e Steven Yeun já se marcam como bons atores, em gritante contraste com a maioria dos demais, o que também vai ficando cada vez mais nítido pelo caminho.

The Walking Dead – Um insulto à humanidade

imagem 5

Se o problema fosse somente a covardia, o desenvolvimento chulo dos personagens, a abundância de más atuações (aqui alguns atores devem ser aliviados, porque simplesmente não dava pra trabalhar com o que lhes foi passado) e o conteúdo absolutamente nulo, a segunda temporada seria apenas horrível. O problema invade inclusive o campo técnico, com uma direção que deixa a desejar, em contraste com a season 1.

Cabe aqui um questionamento que diz respeito à montagem das séries, no tocante à diferença aos filmes. Ao contrário do que se pensa a princípio, a diferença não deveria ser tão grande. A vantagem das séries é a possibilidade de contar longas histórias com maior tempo para desenvolvimento. Mas se todo este tempo é inutilizado, não havendo qualquer desenvolvimento, quebra-se o sentido. Não estou aqui considerando, porém, um mundo idealizado que não leve em consideração o caráter comercial da série. Mas considere-se, por exemplo, Lost: temporadas e temporadas de enrolação que fizeram com que parte do público desistisse. Qual a diferença? Lost inicia suas temporadas atingindo todos os personagens a fundo, contrastando a ideologia de cada um com resgate a clássicos científicos como os contratualistas bem como personagens fictícios literários. É plenamente plausível para um fã de Lost estabelecer um diálogo com um dos personagens, apenas olhando para a parede, porque foi criada uma personalidade verdadeira, como se cada um deles realmente existisse como uma ideia. Em Walking Dead, como me referi, os personagens foram meramente apresentados na primeira temporada e simplesmente não foram desenvolvidos na segunda: não há qualquer tipo de ideia, apenas uma eterna e maçante novela de entretenimento sem esforço, se é que há algum entretenimento.

Toda a temporada se guia basicamente em uma dualidade entre o instinto de sobrevivência (Shane) e a manutenção da humanidade (Rick), mas o discurso simplesmente não se desenvolve, mantendo-se repetitivo, como mera forma de legitimação de uma novela sem fim. As discussões inerentes aos filmes de zumbi são esquecidas. Os personagens chegam a encontrar uma igreja e, impressionantemente, ninguém expõe qualquer tipo de pensamento cético firme: não há discussão.

As mudanças dos personagens se dividem entre alterações bruscas e mal planejadas e a covardia de maculá-los, o que impede o desenvolvimento de algum conteúdo, de conflito real de ideais, no roteiro. Assim como a morte de Dale, que era um personagem capaz de causar as piores vergonhas alheias a um ser humano, o covarde Hershel da série, com sua defesa pacífica e civilizada da propriedade (defesa que o simboliza a princípio nas HQs, mas de forma rígida) deveria ao menos ter recusado abandonar sua fazenda e morrido defendendo sua propriedade, demonstrando que, mesmo após o apocalipse, alguns valores sociais não se perderam. Ambos personagens chegam ao limite da tolerância humana na segunda temporada, se comparados com os personagens de expressão das HQs.

A atuação de Sarah Wayne Callies merece um destaque especial. Simplesmente messiânica, é um provável sucesso do século XXII. Por enquanto, ninguém compreende muito bem o que ela está fazendo. Parabéns.

O grande problema da segunda temporada é que, com objetivo comercial nítido e estrito, houve má leitura do mercado. Tudo o que desperta um mínimo interesse pode ser amenizado, adaptado e rentável. Atualmente tem-se um movimento de importação de elementos do Cine Trash a filmes produzidos; formou-se um verdadeiro hype. O público se interessa atualmente por estes temas, quer conhecê-los. O que a série fez foi exatamente fugir do que considerava “repugnante para atrair audiência” para um modelo velho e conservador, quando o público esperava exatamente que a série seguisse a linha da primeira temporada.

Terceira temporada e o resgate

walking-dead-season-4-david-morrissey-governor-amc

O fracasso da segunda temporada parece ter sido um alerta efetivo. Mas nem todos os problemas por ela ocasionados puderam ser habilmente solucionados.

Não só pelo aparecimento de diversos personagens da HQ, inclusive personagens que foram omitidos na primeira temporada e que entram bem na história, os combates corpo a corpo e a oposição entre a prisão e Woodbury dão à série um clima de HQ interessante. A escassez de munição e a exploração da prisão me lembraram em alguns momentos o clima de jogos antigos de zumbi como Resident Evil 1, em que frequentemente era necessário o recurso ao corpo a corpo e a munição deveria ser economizada, bem como o clima de suspense. O elenco em geral cresce – as atuações melhoram – apesar de faltar aos personagens a substância, a particularidade determinada, que deveria ter sido desenvolvida na segunda temporada. Isto prejudica a série principalmente pelo aparecimento do Governador.

O governador é, sem dúvidas, o personagem que mais enriquece a série. Com fortalecimento da boa atuação de David Morrissey, sua conduta misteriosa logo expõe ideias que chegam a lembrar clássicos como “Crime e Castigo”. O personagem, em seu discurso repleto de sugestões metafóricas, opõe uma pequena parcela da humanidade a outra de caráter estritamente determinista. Finalmente, ao sugerir que eles reconstruiriam a sociedade, sugere que esta renasceria diferente: uma sociedade em que os indivíduos não se devorariam, nítida comparação entre os zumbis e as pessoas da sociedade em ruína (que no caso, seríamos nós). O personagem cresce e se revela a cada episódio. Infelizmente, sua ideologia não encontra uma ideia para contrastar no grupo da prisão, justamente pela ausência de forte caracterização dos personagens. O fortalecimento da atuação do elenco – conforme supracitado -, porém, ajuda nesta oposição – longe de torná-la perfeita. Apesar da ausência deste contraste, há conflitos relativos ao tratamento dispensado a estranhos e a forma de condução daquele grupo que nos levam a reflexões interessantes.

A temporada apresenta bons momentos de suspense e ação e nos leva a refletir, embora haja tal unilateralidade. Coloca novamente Walking Dead em possíveis bons trilhos, mas não alcança a qualidade da primeira temporada. A série continua em dívida.