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Praia do Futuro: trilhando e distorcendo o caminho aberto por La Vie d’Adèle

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O Cine LGBT está em voga. Embora o próprio nome seja ainda um resquício de preconceito, é uma fase necessária à libertação cultural: filmes que abordam as diversas opções sexuais em lugar tratá-las todas como tão ordinárias quanto a heterossexualidade, o que de fato são. As produções não são recentes, mas o papel do vencedor da Palma de Ouro de melhor diretor (Abdellatif Kechiche) e atrizes (Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux) “La vie d’Adèle”, sobre o qual escrevi aqui, tem um papel crucial neste foco. E diante de sua razoável – tendo em vista a temática – aceitação pela crítica e, inclusive, pelo público, seria quase inevitável que outros filmes seguissem pelo caminho aberto pela obra.

!CONTÉM SPOILERS!

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Em “Praia do Futuro”, dirigido por Karim Aïnouz, escrito por este em parceria com Felipe Bragança, Donato (Wagner Moura), um salva-vidas na chamada Praia do Futuro, em Fortaleza, após tentativa infrutífera de resgatar um de dois turistas que se arriscam em seu mar, em meio à perturbação e sensação de impotência advindos da frustração, adentra em um romance com o sobrevivente, Konrad (Clemens Schick), relacionamento que acaba o levando a Berlin, onde, sem dominar o idioma e culturamente isolado de seu habitat natural, divide-se entre a sensação de solidão e a completude de um amor conflituoso por sua própria natureza. Sua posterior opção por Berlin resulta também em um abandono à sua mãe e seu irmão, Ayrton (Jesuita Barbosa), que posteriormente vai ao encontro do irmão em Berlin, sentindo-se abandonado e evidentemente confuso diante não apenas da opção sexual e do abandono de seu irmão, mas também pelo novo mundo cultural alemão a que foi exposto.

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“Praia do Futuro” propõe-se a apresentar a visão masculina sobre a homossexualidade: não há personagens femininos atuantes no filme. Mesmo a mãe, que poderia acrescentar papel de peso à obra, sequer tem alguma aparição. Propõe-se a tanto, mas passa longe de qualquer êxito.

Em “La vie D’adèle”, conforme a resenha que sugeri em supra, Abdellatif nos insere à perspectiva de Adèle, utilizando-se de um composto técnico que vai do visual, passando pela trilha sonora e montagem, que se soma ao roteiro para nos inserir à sua rotina, à sua experiência heterossexual, sua descoberta homossexual e transtornos no tocante à autoafirmação social de sua condição. Em verdade, “La vie D’Adèle” é não apenas um filme completo, mas ousado e visualmente interessante. Todos seus elementos se integram e funcionam para seu propósito.

Em “Praia do Futuro”, as coisas acontecem. E nós engolimos todas as alterações, esperando a substância. Da cena em que os protagonistas se conhecem, há um corte brusco para uma cena de sexo entre eles. Depois de alguma interação vaga, eles estão em Berlin. Após algum conflito, por lá se estabelecem. Então, Ayrton está em Berlin e o filme fecha com um recado aparentemente profundo sobre os personagens. O roteiro não se fundamenta, os personagens não se apoiam em nada sólido senão na fé do espectador de que são profundos por alguma razão, como se a natureza de seu relacionamento fosse o bastante; mantém-se na superficialidade. No sentido técnico, é um apanhado do Cinema Europeu jogado às telas aleatoriamente, sem funcionar com qualquer propósito à trama. Se as cenas de sexo em “La vie D’adèle” chocam, são ousadas, também funcionam no sentido de demonstrar a diferença abismal entre a frustração da experiência heterossexual e a descoberta do prazer e do amor na experiência homossexual. Em “Praia do Futuro”, as cenas sexuais homossexuais são tratadas com naturalidade, o que é uma qualidade, mas não funcionam para a discussão de gênero. Tem-se, portanto, que se visto sob a perspectiva do Cine LGBT a que me referi a princípio – de discussão da sexualidade -, trata-se de um filme fraquíssimo. Se visto sob a perspectiva de um drama que trata a homossexualidade como elemento comum e indiferente, é também uma obra fraquíssima sob o aspecto dramático.

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Pouco depois de referida aceitação e sucesso de “La Vie d’Adèle”, assim como obras artificiais como “12 Years a Slave” – completamente projetado e planejado visando o Oscar e a lucratividade, aproveitando-se de um tema importante e o tratando de forma completamente rasa e insatisfatória -, “Praia do Futuro” é um filme mal planejado para o Cinema Europeu, para conquistar espaço em festivais europeus, não visando propriamente a lucratividade, mas o espaço em si, a visibilidade que proporciona aos autores.

Não adentrará o mundo europeu. Viveremos esta rotineira ideia de preconceito com o Cinema Brasileiro. Quando este preconceito é, na verdade e há muito tempo, nada mais do que ausência de autocrítica.

Trailer

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