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Show da Vida – The National

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Neste dia do rock, o Catárticos presenteia você com um relato de um leigo aposentado no assunto sobre o melhor show de sua vida. Animado? Bom, antes de chegar ao show, preciso situá-los sobre como conheci uma das bandas da minha vida: The National. Tudo não começou em torno de 2006, quando meu amigo Wanderson Meireles – ex-membro da Cambriana – me recomendou um álbum: “Alligator”, afirmando que eu simplesmente piraria. Nessa época eu tinha uma pasta no computador: “álbuns por ouvir – Wanderson”, com dezenas de álbuns nos quais “eu piraria”. Essa pasta ainda existe, cheia e imaculada (meus amigos estão acostumados com o bom e velho “quando chegar em casa ouço”; “estou meio ocupado agora fazendo porra nenhuma, assim que der, ouço” etc). Mas eis que, em 2009, abri essa pasta que não estava empoeirada somente por ser eletrônica, e coloquei o álbum no MP3.

À época, com 18 anos, havia ido à Niterói fazer faculdade de Direito, contra a vontade dos meus pais. Dividia um quarto com duas pessoas, o que simplesmente detestava (não por elas), não tinha amigos, gostava de uma garota que demorou muito pra ficar pra trás com a minha mudança, não tinha grana pra fazer absolutamente nada. Na época, não tinha telefone fixo ou celular; quando queria falar com minha família – o que se resumia a brigas – precisava usar telefones públicos nas ruas. Minha vida se resumia a música e literatura. Foi a época em que li “Misto-quente”, do Bukowski, “Crime e Castigo”, “Irmãos Karamazov”, “Humilhados e Ofendidos”, “Noites Brancas”, “O Tirano”, de Dostoievski… Enfim, creio suficiente pra ter uma pequena imagem do que era meu cotidiano.

O Alligator foi um álbum atípico. Era uma enorme dificuldade passar para a música seguinte, porque todas faziam completo sentido, uma por uma. Por essa situação no local onde morava, estava quase sempre na garagem do prédio, ouvindo música, e sou capaz de afirmar gastei ao menos duas horas em cada faixa do álbum, compartilhando sentimentos com veículos estacionados. Quando finalmente consegui chegar ao seu fim, fui falar com o Wanderson sobre como tinha gostado da banda, se havia possibilidade de ver um show deles no Brasil, e ouvi como resposta o seguinte: “eles têm um contingente reduzido de fãs e tocaram aqui recentemente, em um festival”. Essas palavras significaram para mim, como vocês devem imaginar: “não”.Eis que um ano depois, o “não” se tornou “sim”. Pisei pela primeira vez em São Paulo, acompanhado pelo João Vítor Medeiros (o @Indiedadepre), para ver um show do National no falecido Citibank Hall. Chegamos muito cedo. A sensação, pelo público na porta, era de que veríamos um show de uma banda paulistana de médio porte. É claro que depois o público aumentou, mas como ficamos próximos ao palco, de costas para tudo, essa sensação permaneceu. E cresceu, quando à meia luz, exatamente como sempre imaginei, o National abriu com “Runaway”, em um tom especial, simples e despretensioso, como se fosse uma banda em início de carreira, respeitando cada um de seus shows como um momento de sentimento único. Não era exatamente como eu havia esperado, mas maior do que minhas expectativas. Percebi as lágrimas que escorriam de meus olhos somente ao fim da faixa. O que se seguiu a isso foi uma catarse que desaguou em um público em silêncio para a execução completamente acústica de “Vanderlyle Crybaby Geeks”.

Após o show, enquanto todos esperavam a saída de Matt Berninger – que já havia ocorrido, porque ele saíra às pressas embriagado pelo vinho e por um beijo do João quando se jogou na plateia -, fiquei por um tempo conversando com Scott Devendorf, que não recebia atenção de absolutamente ninguém: “Ninguém se fode pra baixistas”, ele disse. Foi uma conversa completamente informal, ele chegou a me fazer perguntas pessoais, como há quanto tempo eu tocava baixo. Enquanto os seguranças tratavam os fãs como canibais tentando engolir os membros da banda, os caras saíram por entre a gente, trocaram ideia com todos, atravessaram a rua no meio da galera e ficaram do outro lado da calçada, sem qualquer equipe ao redor, conversando entre si. Ainda tive tempo de dizer ao Aaron Dessner que ele me lembrava o Charlie, personagem de “Lost”.

Por tudo isso, “Alligator” será sempre o álbum que representa pra mim a quebra que é crescer, enfrentar o mundo e se tornar independente. O “Boxer” não é meu símbolo da melancolia.

Tempos depois, em visita à Rússia – país que sempre sonhei em conhecer -, talvez por toda a literatura russa que me bombardeou à época em que conheci National, a banda voltou com tudo aos meus fones, mas de uma forma completamente diferente. Fiz as pazes com o meu passado e passei a achar tudo bonito, de uma forma inexplicável. Eis que uma das gravações da viagem se transformou no vídeo abaixo:

 

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