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The Texas Chain Saw Massacre – O massacre ao massacre de Tobe Hooper

Imagem 1Coloque Jimmie Rodgers pra tocar. Sente-se na cadeira mais confortável de sua casa. Pés na mesa. Acenda um cigarro de palha, feche os olhos e sinta o cheiro do mato. You’re in the jailhouse now, ma friend. Spoiler Alert

É assim que se inicia a história real contada por Tobe Hooper. Vocês ouvirão que – apesar de assim apresentada logo no início do clássico de 1974, bem como assim descrita no pôster do filme – isto não procede. E de fato, apesar de leatherface ser inspirado em um verdadeiro assassino (Ed Gein), o que é narrado no filme não é estritamente verdadeiro. Mas também não é completamente falso. Estamos no conturbado período político da década de 70, com grandes escândalos como o de Watergate, recente retirada das tropas dos EUA no Vietnam e, enfim, um período em que o Estado trata a população como uma massa bovina que engolirá qualquer informação veiculada. Portanto, esta história é tão real quanto tantas outras engolidas por aí. Ou mais, porque seu conteúdo é tão cruel e verdadeiro quanto as verdades que elas escondem.

São estas circunstâncias que levam Tobe Hooper, com um cachê aproximado de 83 mil dólares, em uma filmagem apressada de sete dias (com trabalhos em torno de 16h/dia, lembrando que demora na gravação de um filme é um privilégio vinculado ao cachê), selecionando atores desconhecidos com participações em comerciais ou vínculos pessoais, a gravar um dos maiores e mais influentes filmes de terror de todos os tempos. São vários os remakes, narrativas pré ou pós, superproduções, que não alcançam nem de perto a ideia e a maestria deste clássico. Não que todo terror tenha de ter um conteúdo, mas o terror de entretenimento do submundo possui um humor mais refinado e um suspense muito mais divertido do que os mecânicos e enferrujados do mainstream. Neste filme estão vários dos “clichês” que tomaram conta de diversos filmes de terror e ali está a raiz de diversos gêneros. Não gosto de “filmes obrigatórios”, mas creio que este seja inevitavelmente uma indicação essencial aos fãs do Terror e Suspense em geral. Mas nem todos gostarão de vê-lo. Negrito, porque não tenho gosto para assassinar, assim como Jim Siedow. I’m just a cook.

Enfim. É neste clima Jimmie Rodgers – vamos conhecer o campo – que Tobe Hooper nos introduz na narrativa em que dois irmãos pretendem conhecer a velha casa do vovô, levando seus amigos. A perturbação inicial é mais sutil e se concentra no personagem cadeirante e em suas limitações locomotoras e afins (o que é terrível para nós que sabemos estar vendo um filme de terror em que uma hora ou outra um maluco de 100kgs vai surgir empunhando uma motosserra). Além disto, aos poucos o diretor vai demonstrando que os personagens não têm o mínimo de respeito por Franklin Hardesty, nem mesmo sua própria irmã, que sente por ele um misto de pena e irritação. Nosso paranoico personagem está o tempo todo alerta para todas as possíveis merdas, enchendo o saco dos demais a respeito, que o respondem com piadas ou indiferença.  É um rapaz, enfim, que tem tudo para se foder grande, mas ao mesmo tempo, quem sabe não é o único que vai se salvar? Afinal, é uma armadilha muito comum do Terror.

Esse clima tranquilo começa a ficar bastante suspeito quando os personagens param para pedir informação e, chamando a atenção apenas de nosso pobre personagem paranoico, um velho lança disparates sobre coisas estranhas que acontecem por ali, destacando que seus avisos são sempre em vão, porque ninguém dá atenção a um velho bêbado. Não parece ser o caso de Hardesty.

Mas qualquer coisa que ele tenha a dizer é ridícula. Nevermind.

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Enquanto Hardesty narra diversas formas de se matar animais, o que se reveza com imagens do tratamento cruel que dispensamos a eles, nossos viajantes decidem por dar carona a um hitchhiker pela beira da estrada. Obrigado por isso. Graças a eles conheceremos a atuação sensacional do lunático Edwin Neal. Com um bom e velho country a fundo, nosso novo amigo entra com tudo no assunto, discutindo novas técnicas de se matar animais com um sadismo incômodo. Logo o louco inofensivo se converte em um lunático inconstante e coloca todos os demais em uma situação defensiva, sem conseguirem compreender se estão lidando com apenas um maluco qualquer ou um psicopata perigoso. Mas depois de queimar uma foto com pólvora, cortar a própria mão e demonstrar sua enorme curiosidade por facas, inclusive cortando um de nossos personagens (e quem poderia ser?), acho que todos chegamos à conclusão de que o indivíduo realmente não bate bem e pode ser perigoso. Ao ser chutado da van, continua atrás dela, chutando e deixando por ela marcas de sangue. Cena sensacional! Edwin Neal fica para trás no caminho e na cabeça de todos os personagens. Excetuando-se, claro, nosso pobre amigo paranoico, que fica o tempo inteiro se questionando se eles não serão seguidos e assassinados ou qualquer maluquice do tipo.

Uma parada em um posto para abastecer, porque é claro que eles não se preocupariam com gasolina em uma viagem tão tranquila, um caipira gente fina que os sugere que fiquem e comam um churrasco ao invés de procurar a casa, porque as pessoas naquela região podem ser bastante sensíveis (ou rigorosas) no tocante às suas propriedades. Nossos amigos aceitam o churrasco, mas resolvem ir à casa com o pouco de gasolina que possuem. Chegam a ela, claro e convenientemente, quase sem gasolina.

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Uma chegada tranquila e agradável à casa de campo. Bastante velha e destruída, mas esse parece ser o objetivo aventureiro de nossos personagens. Todos bastante felizes. Exceto, obviamente, nosso amigo só-se-fode que, aliás, está fazendo uma viagem roots com dois casais: algumas pessoas não se ajudam. William e Teri, um de nossos casais, decidem dar um passeio. Mas não se preocupem. Pelo contrário. Em sua caminhada, avistam uma casa próxima. Conseguiremos gasolina. A princípio educado, o rapaz bate à porta, aguarda que alguém atenda. Mas na ausência de resposta, decide entrar e procurar por alguém. E encontra. Nosso herói, Leatherface, que, como se lidasse como um animal, o abate com uma pancada forte e certeira na cabeça. Enquanto William tem um ataque no chão, tremendo pela pancada na cabeça, a trilha sonora pela primeira vez se altera para algo sinistro e impactante. Leatherface fecha a porta com um baque que, além, quebra o filme. Nem o psicopata, nem nosso amigo paranoico, haviam conseguido romper nosso clima country/folk até então. Mas não se engane pensando que entramos em toda a perturbação que o filme tem a oferecer. Indo à procura de William, Teri se vê cercada por ossadas, sons de animais, combinados a uma trilha discreta, porém ambientada e atmosférica (nada daquela trilha meramente indutiva comum dos suspenses/terror, muitas vezes mal utilizada). As câmeras inquietas e rodopiantes se combinam à trilha e ao ambiente para nos situar subjetivamente na personagem. Mas se você já teve náuseas por aqui: pare o filme. Da mesma forma certeira, Leatherface golpeia Teri e a carrega para seu pequeno e introspectivo açougue. Seguindo a linha anterior do tratamento por nós dispensado aos animais, da mesma forma é o tratamento dispensado por Leatherface aos seres humanos. Nota-se em nosso herói alguém que vive isolado em um matadouro. Além de seus problemas mentais, ele realmente não parece ter a noção do que está fazendo. Acostumado a fazer aquilo com animais, parece a ele comum fazer o mesmo com os humanos que não são parte de sua família.

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Se você criou alguma simpatia com nosso aventureiro medroso e estava torcendo para ele sobreviver ao fim como resposta ao deboche e descaso que ele até então recebeu, trago tristes notícias. Afinal, na primeira aparição de nosso herói com sua clássica serra-elétrica, quem melhor para ser cortado em pedaços? Após Jerry também ser abatido, em uma cena que se inicia com o estresse e desespero dos irmãos deixados para trás, já após anoitecer, caminha pelo suspense de ambos em busca dos desaparecidos pelas matas e termina em uma perseguição desesperadora de Leatherface a  Sally (Marilyn Burns), a única sobrevivente a esta altura. Sem apelar para a trilha indutiva, como dito acima (que às vezes acaba por estragar o impacto da surpresa, apesar de reforçar o susto), Leatherface aparece do nada nas matas e corta Hardesty em pedaços. Aí sim, combinada ao som natural da motosserra, a trilha estimulará a adrenalina da perseguição. Por mais que Sally se afaste de Leatherface, ou se esconda em cômodos e afins, o som da motosserra está sempre presente, mantendo a adrenalina ativa. Mas à medida que ele se aproxima da vítima, a trilha cresce e fica mais densa, ampliando a situação. Sally consegue escapar e encontra abrigo no posto do caipira gente fina que conhecemos no início. Estamos de volta ao bom e velho country rolando ao fundo.

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De agora em diante, adentraremos na perturbação que o filme realmente tem a oferecer. Aquele caipiria legal é, na verdade, a causa de tudo. Se Leatherface aparentemente não sentia prazer em torturar humanos – mas apenas os via com indiferença em relação aos animais que são abatidos em matadouros – não sentimos o mesmo de Jim Siedow, cujo personagem não recebe nome no filme. Após capturar nossa última sobrevivente, ele parece sentir prazer com seu desespero. Além, na forma de tratar o hitchhiker (cujo personagem também não recebe nome) e leatherface, parece que boa parte de suas “doenças” tem como origem este cozinheiro, que não gosta de matar, como ele mesmo diz. Sally é levada de volta à casa e amarrada a uma cadeira. Ao retirar-se o saco que cobria seu rosto, reconhece o hitchhiker e ele a reconhece, agora em situações completamente opostas. Vulnerável e desesperada, sente o prazer sádico de Edwin Neal, rindo e tocando seu rosto diante daquela inversão. As câmeras inquietas e em ângulos incomuns no desespero de Sally começam a ficar mais apelativas, revezando-se com os preparativos de nossos psicopatas para o que seria um dos banquetes mais macabros do Cinema, com completas condições de competir com as refeições escatológicas de Pasolini. Um dos cadáveres que Sally havia visto enquanto fugia de leatherface anteriormente era, na verdade, o avô desses malucos. Vivo, em um estado putrefato. Mas suficiente para chupar sangue do dedo da mulher, cujos gritos eram audíveis embaixo da mordaça e cuja mobilidade estava completamente restrita. Não havia escape, desabafo, diante daquela situação desesperadora. Mas principalmente, do que parecia ser apenas o princípio do imprevisível. Sally é, então, apagada.

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Sally acorda em uma mesa de jantar em família. Seus gritos de desespero recepcionados por gritos de deboche. A cena cresce de forma genial. Um revezamento entre o enquadramento no desespero da vítima – que chega a entrar em seu olho – e o sadismo e deboche da família. A trilha se enche, misturada aos gritos que já são uma constante, ao deboche e diálogo maluco dos psicopatas e a barulhos cujas origens sequer são identificáveis. A câmera não para. Aqui, o terror psicológico se enche em uma cena de técnica primorosa, misturado à náusea. O tratamento à Sally já em nada se difere a um animal, e eles decidem que o avô putrefato – dos quais se orgulham por ser um exímio matador – seria o responsável por abatê-la. Ajoelhada, com a cabeça segura acima de um balde, tentando reagir sem êxito, Sally assiste enquanto o avô – que a mataria, segundo a promessa, com apenas uma pancada, por sua habilidade e experiência – sequer consegue segurar o martelo. O velho a acerta, ferindo-a, mas sem êxito. O processo seria bastante lento. As quedas do martelo e os gritos de incentivo da família aumentam o desespero da vítima, já ferida, além do que se pensava possível. No ápice, ela se desvencilha deles e salta por uma janela de vidro. A queda fere sua perna e assistimos à vítima fugir mancando, perseguida pelos dois matadores da casa. Chegando à estrada, o hitchhiker, mais próximo na perseguição, é atropelado por um caminhão, cujo motorista acaba assassinado. Sally consegue subir em uma pick-up, que para em ajuda e, logo em seguida, foge acelerada, enquanto a sobrevivente observa leatherface descontrolado desferindo golpes com sua serra-elétrica contra o carro. Na pick-up vemos, por fim, Sally ensanguentada, sem podermos identificar se sorri, chora, ou faz ambos ao mesmo tempo.

Assim termina o filme. Nada de cena final com a sobrevivente tomando um banho quente, compreendendo os acontecimentos, refletindo a respeito. Tobe Hooper já nos deu tempo e informações o bastante pelo caminho para compreender tudo.

E nada de quebrar a adrenalina. É bom terminar o filme com um “Puta que pariu”, em todos os sentidos possíveis.

Texas Chainsaw 3D

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Você provavelmente está olhando a barra de rolagem e se questionando: ela já está chegando ao final e só agora começará a review do novo “Texas Chainsaw 3D”. Infelizmente, não há muito o que se dizer sobre esse filme. Enfim, o único ponto positivo está na última foto do post. Sinta-se à vontade para deixar de ler o que vem a partir daqui e pular para ela. Se você é mulher, interrompa por favor a leitura antes do que está abaixo da última foto.

A proposta, na verdade, não é ruim ou incomum: a vitimização do vilão. Grande parte dos personagens clássicos do terror (Freddy Krueger, Jason, Candyman…) não são vistos pelos fãs como inegavelmente vilões, pela história construída por trás deles. A questão é: a ideia foi bem desenvolvida? Além, já não estava implícita no original de Tobe Hooper?

O filme conta com diversas cenas que chegam ao infantil. Quando Heather Miller, que se descobre membro da família Sawyer (de Leatherface), questiona seus pais de criação a respeito, nos deparamos com uma cena tão ruim que se torna difícil identificar se a péssima qualidade se deve às atuação fracas ou à má construção em si. Os viajantes dão carona a um rapaz, em um clima de suspeita, e na primeira oportunidade o deixam sozinho em uma casa que Heather recebeu de herança, cheia de objetos valiosos. Ao retornarem, se surpreendem por terem sido roubados! Qual a surpresa? A revelação do bom e confiável policial como um dos vilões chega a lembrar Doofy em Scary Movie. A cena piora com uma tentativa de psicopatia por parte de Heather, que responde à revelação do policial com uma ameaça: “Sou uma Sawyer”.

Toda a climatização inicial da obra de Tobe Hooper é trocada por adolescentes em um carro ouvindo músicas péssimas (com o que não tenho problema; compreendo que seja uma transposição ao que aconteceria atualmente, pela personalidade dos personagens) e atitudes despidas de qualquer naturalidade. O espectador nunca está conectado subjetivamente a qualquer personagem, porque o filme não constrói, em nenhum momento, um ambiente convincente.

A única boa situação de suspense – o policial entrando na casa após os incidentes – é rapidamente estragada com a sua saída: ele acaba de passar pela situação mais grotesca e de maior tensão de sua vida e, para sair, relaxa a guarda, como se não estivesse em perigo algum.

Os sustos não são lógicos – Leatherface aparece atrás do hitchhiker para assassiná-lo, do nada e silenciosamente. Mas como ele moveu aquela pesada porta sem fazer qualquer barulho? – mas combinam com a trilha sonora meramente indutiva e besta.

A proposta inicial, conforme exposto, se desenvolve para um adjetivo não inventado que está além do horrível. Não me assustaria descobrir que James Franco dirigiu e escreveu este filme em segredo (e até diria que ele melhorou um pouco desde que dirigiu e escreveu secretamente REC 2). O único medo que o filme desperta é o fim aberto à possibilidade de uma continuação.

Só um pequeno detalhe: os gastos pra produzir essa merda estão na casa dos 20 milhões de dólares! Contraste com os 80 mil dólares gastos por Tobe Hooper e um belo incentivo para você começar a ser mais otimista com as suas ideias pra filmes caseiros e inventivos.

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Ponto positivo do filme: mantiveram a tradição secular de mulheres gostosas no Terror. Aliás, o 3D aparentemente só serve para realçar a bunda de Tania Raymonde em incontáveis inícios de cenas. Belo trabalho, pessoal!

Obs.: Todas as informações relativas a James Franco são tão reais – e irreais – quanto a narrativa de Tobe Hooper.

 

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