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The Walking Dead: uma homenagem ao Cine Trash, um insulto à humanidade.

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A realidade é um muro de concreto. Imaleável, subjetivamente, quebra-se como porcelana. Era o que pensava o homem, involuntariamente, olhando fixamente para um vaso intacto, em cujo interior jaziam plantas mortas. Havia sido baleado e, há alguns segundos, conversava com seu melhor amigo, sentindo que se recuperava. Sentia que a lógica era um organismo vivo. Dependia de cada um dos seus órgãos, dos centrais aos mais insignificantes. Se um deles não funcionasse, todo o resto era questionável. Do interior à realidade, já não mais poderia afirmar que qualquer coisa fosse real, ainda que palpável. Gritava por ajuda sem saber que não havia ninguém para atendê-lo. Ou todos aqueles corredores estariam dominados por pessoas, escondidas sob seus cadáveres. Criaturas do demônio, um castigo de Deus, um erro da ciência, um produto natural das escolhas da humanidade. Isto, somente ele poderia decidir. Aquele homem, que dormiu por dias, meses, anos, estava prestes a envelhecer mais do que qualquer pessoa que viva em tempos de paz, ainda que velada. Mas provavelmente não gostaria que seus gritos de ajuda fossem atendidos. Não naquele momento. Não daquela forma. Foi aí que tudo começou para alguns. Para outros, começa no gênero que se encontra nos 60s, se expande nos 70s e consolida seu espaço nos 80s. Mas os zumbis nasceram muito antes.

O princípio

Passado-tratada

Apesar do artigo de reunião supersticiosa “The Country of the Comers-Back”, publicado pelo jornalista Lafcadio Hearn na Harper’s Magazine (1889), foi o aventureiro William Seabrook – membro da Geração Perdida de escritores norte-americanos – o primeiro a ir além da superfície do mito. Dono de uma escrita espontânea e subjetiva – estamos falando de um escritor que se recusou a escrever sobre canibalismo (em seu livro Jungle Ways) até que provasse por si mesmo a carne humana, a qual descreveu como semelhante à carne de porco, mas que “precisava de mais tempero” -, em viagem à capital Vodu do Caribe (Haiti), publicou “The Magic Island” (1929), livro que mostraria que a lenda zumbi vai além das superstições sem padrão apresentadas no artigo de Hearn.

O Haiti, em situação colonial ainda pior do que a brasileira, teve sua população indígena dizimada, seguida por uma grande importação da mão-de-obra escrava africana e imigração de uma minoria de proporção irrisória que dominaria esta mão-de-obra. Do híbrido da cultura africana e da tentativa de catequização forçada, nasceria a religião Vodu, que resistiria à caça às religiões pagãs. De acordo com tal crença, uma pessoa seria composta de duas almas: a primeira representando sua força vital (“gros-bom-ange”), enquanto a segunda, sua essência (“ti-bom-ange”). Aqui, nasce a possibilidade de que as duas sejam separadas por um terceiro, restando ao corpo, de volta à vida, apenas sua força vital, sem qualquer vestígio de sua essência: uma casca vazia. Diante deste contexto de exploração extrema de uma vasta maioria por uma minoria, era assustador à população haitiana a possibilidade de que este feitiço fosse utilizado contra eles para que o que restasse de seus corpos vazios fosse utilizado para o trabalho escravo, fazendo inclusive com que fosse comum que, após a morte de um parente querido, a própria família o “matasse novamente” com um tiro na cabeça. Se isto, a princípio, soa como uma superstição banal, o alcance da veracidade do mito pode surpreender, o que é constatável da descrição de Seabrook ao se deparar pela primeira vez com o que os fazendeiros haitianos se referiam como zumbis:

“Minha primeira impressão dos três supostos zumbis, que continuavam a trabalhar, foi a de que eles tinham realmente alguma coisa de estranho. Seus gestos eram de autômatos (…). O mais horrível era o olhar, ou melhor, a ausência do olhar. Os olhos estavam mortos, como se fossem cegos, desprovidos de expressão. Não eram olhos de um cego, mas de um morto. Todo o semblante era inexpressivo, incapaz de expressar-se. Eu havia visto no Haiti tantas coisas que fugiam do senso comum que por um instante tive um surto, quase pânico, no qual pensei, ou senti: ‘Bom Deus, talvez seja tudo verdade e, se for, é terrível demais, pois isso muda tudo’. Por ‘tudo’ eu me refiro às leis e aos processos da natureza nos quais o pensamento e a ação humana moderna se baseiam.

Mais uma vez, porém, Seabrook não se rendeu aos mitos e, em diálogo com um médico haitiano, constatou que havia grandes chances de que o que os haitianos se referiam como zumbis fossem sonâmbulos em estado induzido de hipnose. Por isto, não é de se estranhar que algumas listas de zombie movies incluam filmes como “The Cabinet of Dr. Caligari”. Tal hipótese, inclusive, é reforçada pelo Código Penal do Haiti que, em seu Art. 249, assim dispunha:

                             “É também considerado atentado à vida de uma pessoa, o emprego feito contra ela de substâncias que, sem produzir a morte, causam um efeito  letárgico mais ou menos prolongado, quaisquer que sejam as consequências.  Se por efeito desse estado letárgico a pessoa for enterrada, o atentado será considerado assassinato”.

Para mais informações a respeito, sugiro a leitura de “Book of the Dead”, de Jamie Russel.

O apocalipse chega ao Cinema

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O livro de Seabrook chega aos EUA em meio à Grande Depressão e, além, em um contexto em que o Haiti, país já independente e que sofria embargos de toda a comunidade internacional, despertava interesse a todos pela construção preconceituosa de uma sociedade e cultura de selvagens. Não é aí, porém, que os zumbis encontrarão seu espaço livre de preconceitos.

A Guerra Fria, conhecida pela ausência de conflito direto entre a dualidade de potências mundiais, não tem a perder em relação às demais Grandes Guerras. Principalmente com a proximidade da Guerra do Vietnam, a população norte-americana – especialmente os jovens – se percebia enfim como vilã no mundo. Era uma juventude perdida e que se via como vazia, clamando por sentido. Foi aí que Jack Kerouac iniciou suas viagens que dariam origem ao “On the Road”. Que um fã de Woody Guthrie, influenciado pela obra de Kerouac, de voz questionável, saiu pelo país com um violão nas costas e um talento para letras que revolucionaria a música. O movimento Punk, enfrentando o privilégio e a extrema delimitação da música, gritou ao mundo o lema “do it yourself”, universalizou o acesso à música e a produção da mesma com sua atitude que preenchia seus acordes em grande parte simplórios e, principalmente, com o muito que tinham a dizer – ou gritar. Agora, qualquer garagem poderia se expressar através da música. O cinema, que é uma arte de alto custo, não ficou de fora disto. O tão mal quisto Cine Trash nada mais é do que a vertente “do it yourself” do Cinema. Pessoas com muito a dizer, que queriam apenas se divertir ou que buscavam chocar, sem dinheiro e sem apoio de produtoras, lançavam seus filmes low budget e conquistavam aos poucos seu público. Daí as inúmeras vertentes; o humor negro, macabro ou muitas vezes simplesmente pastelão, filmes de produção limitada e com conteúdo infinitamente maior do que grandes produções hollywoodianas ou filmes que lidavam quase estritamente com o gore. E claro, a mescla de tudo isso era comum. Para bom espectador de um filme trash, o sangue falso ou a maquiagem tosca não ofusca o plano de fundo. Guarda-se o foco etimológico do termo “monstro”: o termo latino monstrare; demonstrar, mostrar, apresentar. E mesmo o gore, que tanto preconceito sofreu no Cinema (e hoje está em alta), era algo equivalente a um adolescente trancado no banheiro raspando sua própria cabeça e saindo às ruas com seu moicano. Foda-se se você gosta ou não, e se detesta, que seus olhos tenham a nítida certeza de que não queremos que pense o contrário. FUCKOFF. Com o Cine Trash, o processo de aceitação foi mais lento, mas não menos corajoso.

Neste cenário, os filmes de zumbi se encaixam se dirigindo a um público específico. Aqueles que têm curiosidade sobre a verdadeira natureza humana.  Sobre quão certa nossa é nossa escala social de valores, quando testada diante do caos. Aquele grupo de pessoas que se perguntam se o que eles fazem e que aparentemente contribui à sociedade por uma atribuição humana de valores realmente é útil em um estado de natureza. Se nossa ciência realmente produz algo que transforma e evolui o ser humano. Se estamos no caminho certo. Esta reflexão pode parecer inútil se o estado caótico for colocado como uma situação utópica tão distante, mas a abstração pode trazer algum sentido real às nossas vidas, nos afastar de um caminho determinista improdutivo. De uma verdadeira escravidão. Da letargia. Isto, afinal, adotando a postura de que estamos tão distantes do caos. Estamos? Ou estamos próximos? Talvez vivamos nele? Ele seria tão ruim assim?

Esclarecendo que este texto não tem intenção de qualquer tipo de orientação relativa a filmografia, apenas para reforçar o que foi até então dito, não poderia deixar de citar o grande mestre George Andrew Romero. Tido por muitos como o grande criador do gênero no Cinema – o que não é bem verdade, apesar de tê-lo adaptado de uma forma que será a linha seguida majoritariamente – com seu filme “Night of the living dead” (1968), que se foca no terror e na natureza humana e divergência comportamental e ideológica em face do apocalipse, tem “Dawn of the Dead” (1978) como obra base e que melhor ilustra o que foi até então exposto – que posteriormente recebeu uma das mais lastimáveis adaptações do Cinema, do diretor Zack Snyder – na qual ultrapassa a situação de exteriorização do zumbi para consolidar a ideia de que é também o zumbi uma metáfora para a alienação já presente no indivíduo de nossa sociedade, além de considerações sobre a defesa de valores sociais em uma inércia de ausência crítica até o limite do caos, envolvendo inclusive o humor e o gore típicos supracitados. Em “Land of the Dead” (2005), filme que se inicia em meio a um apocalipse zumbi já consolidado, mas com uma cidade completamente cercada e reforçada onde vive o que restou da humanidade, o diretor dá ainda maior amplitude ao que construiu. O filme atinge seu ápice quando os mortos a invadem e, ao tentar fugir, a população se vê cercada pelos muros que ela construiu para sua própria proteção, o que é destacado pelo personagem, indicando seu sentido metafórico explícito. Não é, porém, conveniente buscar listas e afins, embora tais filmes sejam bons para quem está ainda ingressando no mundo dos zumbis. O legal é que você mesmo trilhe seus caminhos, vá encontrando os filmes que te agrade. Seria uma pena delegar a terceiros a escolha dos filmes em um gênero tão amplo.

The Walking Dead – Uma homenagem ao Cine Trash

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“Welcome to the big city”. Foi com esta frase que Glenn recepcionou Rick, enquanto observavam as ruas repletas de zumbis.

Há poucos motivos para não considerar a primeira temporada da série excelente e muitos motivos para não considerá-la ruim ou meramente mediana. Priorizando situar o espectador no novo mundo, o primeiro episódio inicia-se com um Rick fraco, que mal consegue caminhar, em um hospital infestado. Caminhando pelas ruas enquanto o espectador tem a percepção de que, em uma cidade deserta, talvez um dos zumbis fosse suficiente para acabar com o personagem ali mesmo. É um contraste interessante com o Rick que termina o episódio saudável, recuperado e seguro, caminhando pelas mesmas ruas e inclusive matando um zumbi que antes o assustara. Não se limitando ao bom suspense e à ação, já nesta temporada os personagens são apresentados em seu básico, sem grande desenvolvimento, e os espaços do HQ são preenchidos com referências a diálogos, ao gore e ao suspense clássico dos zombie movies, embora levemente amenizados. Inclusive o contraste de cenas de imagens fortes com músicas leves, com um toque de humor negro que suaviza o suspense levando o espectador a divertir-se acima de tudo com o que está por vir.

A primeira temporada não traz ao espectador a segurança de que uma boa série está por vir, mas consolida uma promessa. Seus erros irão se refletir majoritariamente na segunda temporada, o que comentarei posteriormente. Se cabe aqui uma crítica, seria a Noah Emmerich, que enfraquece seu personagem. Outro bom ator poderia dar ao desfecho um peso muito maior. Mas é muito positivo que a adaptação não tenha se dado ao pé da letra, como muito acontece e é desastroso, mas sim resgatando as origens do gênero, constituindo verdadeiro transporte do modelo de expressão dos comic books para o das séries. É ótimo destacar que, apesar de toda a explicação dada pelo Dr. Edwin a partir de suas pesquisas mantém ainda em aberto a causa. O fornecimento de uma explicação limita que os personagens expressem suas visões pessoais diante da nova realidade. Alguns personagens importantes da HQ, cortados, aparecerão posteriormente. Não estou certo, porém, que isto tenha sido premeditado, mas retornarei a este ponto ao comentar a terceira temporada.

Uma adaptação é subjetiva, podemos dar importância maior a detalhes aos quais os roteiristas não se detiveram, e não creio que isto sempre possa ser posto como crítica. Ao ser questionado sobre sua profissão antes do holocausto, diante da admiração do grupo por suas habilidades, Glenn os surpreende dizendo que era entregador de pizza. Nas HQs ocorre uma conversa no acampamento em que cada um fala brevemente sobre sua ocupação e sua vida antes da mudança. Considero esta cena importante. Característica dos filmes de zumbi, demonstra normalmente o contraste entre a importância dos empregos e a verdadeira utilidade de cada um diante daquela nova circunstância, ainda reforçando a ideia de que após o apocalipse zumbi, todos são iguais. Mas não se pode esperar – ao contrário é ideal que se repudie – que uma fórmula seja obedecida. A arte em geral não deve funcionar assim.

Por fim, a criação de Merle e Daryl é de se tirar o chapéu. Merle cortando a própria mão e a cauterizando no fogão é um ato sequer exposto em cena que já traduz a essência do personagem. A interpretação que Norman Reedus dá a seu personagem o engrandece e segue uma crescente por toda a série. Ele e Steven Yeun já se marcam como bons atores, em gritante contraste com a maioria dos demais, o que também vai ficando cada vez mais nítido pelo caminho.

The Walking Dead – Um insulto à humanidade

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Se o problema fosse somente a covardia, o desenvolvimento chulo dos personagens, a abundância de más atuações (aqui alguns atores devem ser aliviados, porque simplesmente não dava pra trabalhar com o que lhes foi passado) e o conteúdo absolutamente nulo, a segunda temporada seria apenas horrível. O problema invade inclusive o campo técnico, com uma direção que deixa a desejar, em contraste com a season 1.

Cabe aqui um questionamento que diz respeito à montagem das séries, no tocante à diferença aos filmes. Ao contrário do que se pensa a princípio, a diferença não deveria ser tão grande. A vantagem das séries é a possibilidade de contar longas histórias com maior tempo para desenvolvimento. Mas se todo este tempo é inutilizado, não havendo qualquer desenvolvimento, quebra-se o sentido. Não estou aqui considerando, porém, um mundo idealizado que não leve em consideração o caráter comercial da série. Mas considere-se, por exemplo, Lost: temporadas e temporadas de enrolação que fizeram com que parte do público desistisse. Qual a diferença? Lost inicia suas temporadas atingindo todos os personagens a fundo, contrastando a ideologia de cada um com resgate a clássicos científicos como os contratualistas bem como personagens fictícios literários. É plenamente plausível para um fã de Lost estabelecer um diálogo com um dos personagens, apenas olhando para a parede, porque foi criada uma personalidade verdadeira, como se cada um deles realmente existisse como uma ideia. Em Walking Dead, como me referi, os personagens foram meramente apresentados na primeira temporada e simplesmente não foram desenvolvidos na segunda: não há qualquer tipo de ideia, apenas uma eterna e maçante novela de entretenimento sem esforço, se é que há algum entretenimento.

Toda a temporada se guia basicamente em uma dualidade entre o instinto de sobrevivência (Shane) e a manutenção da humanidade (Rick), mas o discurso simplesmente não se desenvolve, mantendo-se repetitivo, como mera forma de legitimação de uma novela sem fim. As discussões inerentes aos filmes de zumbi são esquecidas. Os personagens chegam a encontrar uma igreja e, impressionantemente, ninguém expõe qualquer tipo de pensamento cético firme: não há discussão.

As mudanças dos personagens se dividem entre alterações bruscas e mal planejadas e a covardia de maculá-los, o que impede o desenvolvimento de algum conteúdo, de conflito real de ideais, no roteiro. Assim como a morte de Dale, que era um personagem capaz de causar as piores vergonhas alheias a um ser humano, o covarde Hershel da série, com sua defesa pacífica e civilizada da propriedade (defesa que o simboliza a princípio nas HQs, mas de forma rígida) deveria ao menos ter recusado abandonar sua fazenda e morrido defendendo sua propriedade, demonstrando que, mesmo após o apocalipse, alguns valores sociais não se perderam. Ambos personagens chegam ao limite da tolerância humana na segunda temporada, se comparados com os personagens de expressão das HQs.

A atuação de Sarah Wayne Callies merece um destaque especial. Simplesmente messiânica, é um provável sucesso do século XXII. Por enquanto, ninguém compreende muito bem o que ela está fazendo. Parabéns.

O grande problema da segunda temporada é que, com objetivo comercial nítido e estrito, houve má leitura do mercado. Tudo o que desperta um mínimo interesse pode ser amenizado, adaptado e rentável. Atualmente tem-se um movimento de importação de elementos do Cine Trash a filmes produzidos; formou-se um verdadeiro hype. O público se interessa atualmente por estes temas, quer conhecê-los. O que a série fez foi exatamente fugir do que considerava “repugnante para atrair audiência” para um modelo velho e conservador, quando o público esperava exatamente que a série seguisse a linha da primeira temporada.

Terceira temporada e o resgate

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O fracasso da segunda temporada parece ter sido um alerta efetivo. Mas nem todos os problemas por ela ocasionados puderam ser habilmente solucionados.

Não só pelo aparecimento de diversos personagens da HQ, inclusive personagens que foram omitidos na primeira temporada e que entram bem na história, os combates corpo a corpo e a oposição entre a prisão e Woodbury dão à série um clima de HQ interessante. A escassez de munição e a exploração da prisão me lembraram em alguns momentos o clima de jogos antigos de zumbi como Resident Evil 1, em que frequentemente era necessário o recurso ao corpo a corpo e a munição deveria ser economizada, bem como o clima de suspense. O elenco em geral cresce – as atuações melhoram – apesar de faltar aos personagens a substância, a particularidade determinada, que deveria ter sido desenvolvida na segunda temporada. Isto prejudica a série principalmente pelo aparecimento do Governador.

O governador é, sem dúvidas, o personagem que mais enriquece a série. Com fortalecimento da boa atuação de David Morrissey, sua conduta misteriosa logo expõe ideias que chegam a lembrar clássicos como “Crime e Castigo”. O personagem, em seu discurso repleto de sugestões metafóricas, opõe uma pequena parcela da humanidade a outra de caráter estritamente determinista. Finalmente, ao sugerir que eles reconstruiriam a sociedade, sugere que esta renasceria diferente: uma sociedade em que os indivíduos não se devorariam, nítida comparação entre os zumbis e as pessoas da sociedade em ruína (que no caso, seríamos nós). O personagem cresce e se revela a cada episódio. Infelizmente, sua ideologia não encontra uma ideia para contrastar no grupo da prisão, justamente pela ausência de forte caracterização dos personagens. O fortalecimento da atuação do elenco – conforme supracitado -, porém, ajuda nesta oposição – longe de torná-la perfeita. Apesar da ausência deste contraste, há conflitos relativos ao tratamento dispensado a estranhos e a forma de condução daquele grupo que nos levam a reflexões interessantes.

A temporada apresenta bons momentos de suspense e ação e nos leva a refletir, embora haja tal unilateralidade. Coloca novamente Walking Dead em possíveis bons trilhos, mas não alcança a qualidade da primeira temporada. A série continua em dívida.

3 Comments

  1. Eu assisti a alguns episódios da série picotados, vi um pouquinho desse governador aí e da segunda temporada, além do que me contam a respeito da história, então como alguém que admira as HQs e não aprecia a série eu digo: A Série não tem a essência que Kirkman desde o começo coloca em sua obra de forma a nos fazer pensar sobre a evolução da humanidade, desde o momento em que somos constituídos de sobrevivência até o momento em que nos tornamos políticos, e isso é bem diferente de fazer uma novelinha com duas temporadas focadas em um esposo traído

  2. Concordo com tudo o que foi dito.
    O que eu não consigo entender é como uma série dessa faz tanto sucesso entre as pessoas.

  3. Fernando

    Cara, muito bom seu texto, mas não concordo com a análise em alguns aspectos. Não posso dizer sobre o interesse financeiro e ter sido uma jogada errada da parte da produtora, mas confesso que o que eu acho de mais interessante na segunda temporada é a quebra de ritmo,um ritmo lento e devagar. Massante? Talvez, mas me apegar a chance de ficar em um lugar bom e seguro é o que qualquer(ou alguns) sobrevivente faria. Se os personagens passam por alterações fortes na terceira temporada, é porque houve preparação na segunda. Ela foi longa? Esse talvez tenha sido o problema. Mas o foco entre sobrevivência e humanidade é repetitivo sim, mas essa é uma discussão recorrente em um pós apocalíptico. Diferente do Elton, acho que Walking Dead – Série esta muito longe de uma novela romântica. Existe um drama amoroso sim e que é importante para os personagens. Justamente porque é uma série que se pode perder mais tempo nesses aspectos. A série me incomoda quando força a barra, como um tiro na cabeça dada pelo Carl no Shane, os “zumbis-armadilha” que parecem que estão esperando o sujeito passar pra morder. A segunda temporada certamente não é tão boa quanto a primeira e a terceira, porém ocupa um função importante na transição. A série obviamente alivia, mas não perde o conteúdo. Os dramas humanos, que pra mim são os mais interessantes de séries que envolvem questões pós-apocalípticas, fica bastante palpável e apresentado com bastante clareza. Por isso considero a série muito boa e gostei de todas as temporadas. O que me irrita as vezes são erros técnicos…Tenho limitações em comparar com o quadrinho, pois li poucas partes, mas como adaptação para a TV era de se esperar que se perdesse algo.

    Abraço, continue o bom trabalho xD

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