Dean Blunt – The Redeemer (2013)

Por que artistas que se escondem ou brincam com a mídia conseguem ser tão competentes? Será que o fato de terem uma ou várias coisas a menos para se preocupar liberta algum tipo de inspiração? Meu artista contemporâneo favorito, o produtor de música eletrônica William Bevan, mais conhecido como Burial, é um desses. Agora me deparo com Dean Blunt, mais conhecido por ser uma das metades do duo Hype Williams juntamente com Inga Copeland (que estiveram no Brasil em 2012 no festival Novas Frequências). O anonimato e o grande leque de influências de Dean são o ponto-chave desse lançamento conceitual que une de maneira espetacular o pop e o experimental, o erudito com o moderno. Tenho o prazer de apresentar  “The Redeemer”.

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O som em “The Redeemer” se resume a um quinteto de câmara (cordas e piano), um violão, uma harpa e outros efeitos eletrônicos, entre batidas e sintetizadores, entrelaçados e colados por Dean Blunt. A escolha dessa instrumentação por ele não é por acaso, ela é perfeita para dar esse impressionante e bem construído clima soturno e urgente ao disco, perfeita para a temática do álbum: o final de um relacionamento. Tudo está em seu lugar certo em “The Redeemer”,  a ordem das músicas, as inserções de spoken word, samples de buzinas, vidros sendo quebrados, corais angelicais e claro, as letras de Dean que culminam em um disco romântico e ao mesmo tempo sombrio.

Ouça “The Pedigree”

Depois de uma introdução instrumental com cordas, “The Pedigree” é um dos muitos potenciais singles do álbum. Sua combinação simples de sons de cordas, subindo e descendo, com batidas secas terminando com nosso locutor “feliz” por continuar a amizade com sua amada. Em seguida temos uma das mais importantes faixas do disco, “Demons” evoca já no nome o clima que transparece com seus corais e batidas quase tribais, samples de puro caos, buzinas e vidros quebrados, uma voz robótica julgando o locutor, que reconhece que fez algo errado apesar de aparentemente não querer aceitar esse fato, ecoando “no no no” em sua mente.

“Flaxen” marca uma mudança breve de clima depois desse inicio movimentado. Samples de harpas, vozes em coro e um piano fazem dessa uma faixa de rara beleza ainda que incômoda no contexto.  Após o primeiro “interlúdio de secretária eletrônica”, importantes para o background do disco, é a hora de mais um dos bons singles (que sobreviveriam até fora do contexto do álbum), a faixa-título “The Redeemer”. O baixo marcante e o mar de sintetizadores criam um som que se aproxima muito do Downtempo, terminando com um sample de ondas do mar que nos leva diretamente a mais uma seção distinta no álbum.

“Seven Seals of Affirmation” com seu violão pairando sobre as ondas, “Walls of Jericho” onde o locutor pede diversas vezes pela “proteção divina” e as duas faixas seguintes, de teor mais psicodélico, aparentam ser uma auto-análise, uma busca por um refúgio antes que se possa encarar a realidade. E é a partir de “Dread”, onde a garota deixa clara sua intenção dizendo “stop calling me”, que o disco começa a se direcionar musicalmente e liricamente para seu final, com “Y3” sendo uma reação a essa mensagem e também a música mais triste e emotiva em “The Redeemer”.

Ouça “Papi”:

“Papi” é mais um dos bons singles do disco, com a levada downtempo presente novamente, sampleando maravilhosamente “Echoes” do Pink Floyd. A música termina com uma contagem regressiva que leva ao interlúdio de sinos de igreja “MMIX”. Sinos podem representar coisas boas, podem representar um casamento, mas sabemos que com certeza não é o caso aqui, afinal, pode celebrar a morte, o fim, e o nome da próxima faixa “All Dogs Go To Heaven” já deixa isso bem explícito. Em clima de despedida, “Imperial Gold” e “Brutal” são mais duas lindas e dramáticas faixas que Dean Blunt nos apresenta, uma só no violão e outra no piano. “Você foi embora e eu estou aqui”, “E agora vou achar meu lugar, sem você”, canta ele antes de acender um cigarro, encontrando para o bem ou para o mal seu lugar no mundo. É o fim para nosso locutor, que em meio a tosses ouve seu último recado da secretária eletrônica nos cinco segundos de “Par”, sem mais mensagens. Fim.

Confesso que fazia muito tempo que um disco não me despertava uma curiosidade e admiração, tanto no instrumental e nas letras, mas também o conceito e a forma de apresentar o mesmo. O que mais impressiona é aquilo que já havia dito no meu ex-disco-do-ano-até-aqui “Wakin on a Pretty Daze“, fazer pop é difícil, experimentar e ainda assim ser pop é mais difícil ainda. Dean Blunt conseguiu ir ainda mais longe, por um caminho mais arriscado que Kurt Vile. Mas com cada um nos seus méritos, recomendo tanto aquele quanto esse disco, repetidas audições para ambos.

Nota: 4,5/5

Posted on by Aldo Hanel Posted in Lançamentos, Música

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