Mac DeMarco – This Old Dog

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Mac DeMarco é o tipo de cara que você queria ter no grupo de amigos. Ele é aquele cara sensível que consegue falar o que você está sentindo em poucas e boas palavras. Em seu novo disco o cantor canadense encarou a relação conturbada com seu pai ausente em letras sinceras e arranjos pouco complexos com violão, drum machine e sintetizadores. Em todos os seus discos, fica clara a facilidade que Mac DeMarco tem em criar discos e músicas que se encaixam e traduzem sentimentos profundos de forma simples. This Old Dog foi capaz de deixar a mostra toda a essência verdadeira e sincera de Mac, que não tenta ser o que não é. Talvez esse seja um dos motivos que de uns tempos para cá suas músicas tenham ganhado grande relevância com novos públicos.

Assim como em Salad Days, o cantor usa e abusa da sua principal fonte de riqueza musical: riffs de guitarra que grudam na cabeça e ficam lá para sempre. “Sister”e “A Wolf Who Wears A Sheeps Clothes” são bons exemplos disso.

O álbum tem ótimo fluxo e sintonia ao longo de todas as faixas que contam a trajetória de pensamentos e reflexões. Por mais que o tema principal das letras seja a relação com seu pai ausente, DeMarco não segura o seu lado romântico em faixas como “Still Beating” e “For The First Time”. No seu novo disco, Mac também se joga na psicodelia na canção “Moonlight On The River”, que conta com um belíssimo final instrumental. “On The Level”, talvez a melhor canção do álbum, é uma das faixas que tem a carinha simpática de Mac DeMarco. Aqui é fácil perceber a homogeneidade dos trabalhos do cantor que ao longo desses 5 discos continua inovando sem perder o seu estilo musical que agrada tanto seus fãs.

This Old Dog mostra a visão de um jovem de vinte-e-poucos-anos que colocou pra fora pensamentos que carregava consigo durante anos. É o tipo de álbum que quem passou por alguma experiência parecida vai se identificar totalmente. O conceito do disco traduz muita coisa, sendo assim impossível ignorar a genialidade na escolha de sequência de músicas. A música final do disco, “Watching Him Fade Away”, contrasta com a primeira canção do álbum “My Old Man”. Tudo que vem no meio disso é um histórico que marcou a vida de Mac DeMarco e lhe rendeu inspiração para mais um bom trabalho de sua carreira.

OUÇA: “Still Beating”, “Moonlight On The River” e “On The Level”.

Sondre Lerche – Pleasure

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As primeiras notas de Pleasure parecem saídas de um disco da fase de ouro clássica do New Order: industriais, com um vocal dúbio marcado por sintetizador, elas precedem um refrão potente e risonho. É com uma referência dessas que Sondre Lerche começa seu nono disco de estúdio, primeiro depois de Please, de 2014.

Faces Down, debut do rapaz saiu em 2001. De lá para cá ele caminhou por uma variedade de sons e gêneros: indie pop, folk, country, jazz, indie rock. Em uma audição rápida da rica discografia do norueguês é impossível encontrar um disco fraco ou que poderia ter sido pulado da tarefa retroativa.

Mas é fora da sua zona de conforto que Sondre brilha mais ricamente e é em Pleasure que podemos contemplar com mais grandeza seu trabalho. Observar um trabalho que flerta tanto com o post-punk, new wave e synthpop de maneira tão rica e com tanta maestria é prova do talento do moço e faz com que ouçamos sua discografia com a ciência disso.

Pleasure opera numa chave oposta aos famosos covers de Lerche. Vá ao Spotify e você encontrará belas versões de “Chandelier”, “Hotline Bling” e, a minha favorita, “Wrecking Ball”. Sondre transforma canções dançantes em interpretações amargas, sentimentais e catárticas. O disco atual do rapaz é um álbum extremamente abrasivo, ensolarado e, surpreendentemente feliz. A nostalgia dos anos 80 se apresenta aqui animada, etérea e sempre presente.

Recheado de canções como “I’m Always Watching”, seu início extremamente alegre e refrão potente, lembra o saudosismo do The Desired Effect, último disco solo de Brandon Flowers, principalmente na canção “Lonely Town”. Aqui, entretanto o ouvinte encontra mais experimentalismo e vocais ora presentes, ora sussurrados.

“Serenates In The Trenches”, grande hit do registro é uma feliz metáfora, grudenta, sobre os conflitos românticos e que usa o imaginário das trincheiras e das guerras. A canção recebeu ainda um clipe sexy, com seu baterista, David Heilman. Há ainda espaços para psicodelia em “I Know That Something’s Gonna Break Your Heart” e solos de guitarra em “Reminisce”.

Pleasure é um trabalho eficiente, divertido, complexo e capaz de apresentar a sonoridade de Sondre para novas audiências em mesma medida que satisfaz a sede dos antigos fãs por música de qualidade. Vale a audição.

OUÇA: “Serenates In The Trenches”, “I’m Always Watching” e “Soft Feelings”.

Tinie Tempah – Youth

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Americanos tendem a ignorar o desempenho em outros países de atividades que eles dominam. É assim no basquete, por que não seria no rap? Isso explica o terceiro álbum do rapper britânico Tinie Tempah, Youth, ter sido solenemente esquecido pelos veículos culturais estadunidenses. Uma boa oportunidade, porém, para checar a cobertura do disco por parte de publicações inglesas como Telegraph, Independent, Guardian e NME.

Mesmo sendo considerado um dos principais rappers britânicos da atualidade, Patrick Okogwu a.k.a. Tinie Tempah não recebeu a já esperada análise exaustiva de seu lançamento por parte da mídia do seu país. Talvez em razão de uma certa decepção com o que foi entregue.

Youth começa de forma promissora. Solo, Tinie conta suas ambições para este ano, relembra de como veio do nada para atingir o estrelato, que de repente “já” está com 28 anos, meditando, fazendo yoga e reverberando um olhar nostálgico. Repetitiva e lenta, a batida dá espaço para o rapper brilhar, mas o que devemos de fato guardar da faixa-título é o segundo verso: “let’s get more number 1’s and more plaques this year”. O restante do disco deixa claro o caminho traçado pelo artista pra atingir tal objetivo.

O primeiro terço do álbum apresenta um rap ensolarado; há a latina “Mamacita”, como que feita sob medida para explodir no verão americano, o sexy r&b de “Text From Your Ex” com participação de Tinashe, e a ‘drake-esca’ “Chasing Files”. A faixa “If You Know” aparenta uma mudança de direção, com Tinie explorando seu talento no flow e nas rimas, um rap mais puro, que remete ao seus discos anteriores. No entanto, o rapper está mais pop do que nunca, e faixas com featurings como Zara Larsson e Jake Bugg surgem para tirar o peso do rap old-school ensaiado em algumas partes do álbum.

Há, portanto, um claro esforço de produção na composição das faixas e Tinie segue à risca a tendência atual dos discos de rap: quase vinte músicas e lotado de participações. O problema é que ao longo da obra o rapper parece ser o convidado de suas próprias canções; a ambição da primeira faixa vai se desfazendo e o artista britânico vai caindo no clichê “mulheres, roupas e dinheiro”. O resultado é um álbum que mais parece um amontoado de faixas, sem qualquer narrativa, feito para funcionar no spotify.

OUÇA: “Youth”, “Text From Your Ex”, “Girls Like”.

Splashh – Waiting A Lifetime

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Depois de uma espera relativamente longa, finalmente temos um sucessor para o debut do Splashh. A demora para o segundo álbum mostra certa cautela da banda, o que para o Splashh se traduziu em idas e vindas: troca de baterista, descarte de material e mudanças de direção. De 2013 para cá, tivemos poucas informações sólidas do que seria o novo trabalho dos anglo-australianos, dando motivos para diversas especulações. Frustrando quem esperava algo extremamente inovador e também quem já havia desistido da banda, eis que Waiting A Lifetime se apresenta de forma simples e modesta, como uma ótima continuação do trabalho anterior.

Já na primeira audição, Waiting A Lifetime parece ser uma evolução natural de Comfort (2013). As semelhanças com o álbum anterior são tão facilmente notáveis quando as diferenças. A banda mantém sua essência ao mesmo tempo que experimenta novos rumos. Waiting A Lifetime tem uma atmosfera mais alegre e mais limpa. A produção também é visivelmente mais apurada, reflexo da nova conjuntura da banda: enquanto o disco anterior foi gravado no apartamento do guitarrista, o atual contou com uma gravadora. A aura lo-fi do trabalho anterior dá lugar a sons mais claros e nítidos, o que abriu caminho para experimentações de novas sonoridades sem que houvesse uma overdose de texturas. As canções continuam com a fórmula de vocais abafados intercalados por guitarras marcantes. Porém, cada faixa traz algo de singular, pendendo às vezes para o eletrônico, às vezes para o dream pop, criando canções ora enérgicas, ora melancólicas.

O tempo de espera para o lançamento do disco se refletiu em um visível aprimoramento da banda. Fica claro que o grupo esteve mais preocupado em produzir um material em que realmente acreditasse, do que em realizar um lançamento às pressas. Waiting A Lifetime é uma ótima continuação para o debut do Splashh, abrindo caminho para uma banda que ainda promete muito pela frente.

OUÇA: “Rings”, “Waiting A Lifetime” e “Closer”.

Blaenavon – That’s Your Lot

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Eu descobri Blaenavon numa dessas perambuladas na internet caçando novas bandas, ou talvez numa publicação de algum veículo que intitulava a banda como “aposta”. Ao certo não lembro, mas recordo que foi life-changing.

Na época, seu último lançamento era o EP Miss World, de 2015. Em minha opinião, o mais fraco entre os três já lançados desde 2013, ano em que o trio inglês iniciou suas atividades. Mas a faixa que realmente me conquistou e me fez sentir algo diferente pela banda foi “Prague”, do EP Koso.

O debut demorou cinco anos para sair. No meio do caminho teve até um álbum descartado pela gravadora, alegando que eles não o estavam levando a sério o bastante. 2017 então, That’s Your Lot finalmente vêm à vida, e sua espera foi certamente válida.

Com quase uma hora de duração em suas 12 faixas, Blaenavon nos entrega o melhor do indie banhado à rock progressivo, diferente do que estamos acostumados a ouvir por aí. Letras profundas e instigantes. Instrumentais fora da zona de conforto. Denso ao mesmo tempo em que dançante. Barulho que dá prazer.

Podemos inclusive dividir That’s Your Lot em duas partes. A primeira, mais comercial, tem calibre para colocar Blaenavon nos circuitos de festivais ao redor do mundo e conquistar cada vez mais público. Faixas como “Let’s Pray”, “Orthodox Man” e “My Bark Is Your Bite” – todas inclusive já lançadas como single antes mesmo do lançamento do álbum –, nos fazem dançar e cantarolar suas melodias por dias.

Já a segunda parte, nos apresenta a banda em sua forma mais genuína. “Prague ’99”, regravação da “Prague” que mencionei acima, e “Swans”, a primeira faixa escrita pelo frontman quando tinha apenas 16 anos, ao mesmo tempo em que nos impacta com tamanha grandiosidade, nos passa impressão de jam session, como se os integrantes estivessem juntos conosco tocando aquilo pela primeira vez. “Take Care” é outro soco no estômago, uma excelente faixa abre-alas para o mundo conhecer seu trabalho.

Se você gosta de bandas como The Smiths, The Maccabees, The Vaccines, até mesmo a recente Sundara Karma, mas principalmente Foals, dê uma chance à Blaenavon. Eu garanto que você não irá se arrepender. Uma das melhores novidades que você ouvirá em 2017.

OUÇA: O álbum inteiro.

The Maine – Lovely, Little, Lonely

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Talvez fãs esperem muito de seus músicos favoritos. A cada disco lançado, a expectativa é de que seja o melhor de sua carreira, o mais memorável, o que vai trazer a nova música de sua vida. Essa pode ter sido a razão pela qual Lovely, Little, Lonely, sexto trabalho de estúdio da banda emo do Arizona, The Maine, tenha sido um pouco decepcionante para mim, pelo menos em meu primeiro contato com o disco. O estranhamento passou depois da segunda ou terceira vez que ouvi o álbum completo. A sensação de que ele poderia ter sido melhor, no entanto, permaneceu.

Isso não significa, de maneira alguma, que Lovely, Little, Lonely, seja um disco ruim. Uma das primeiras músicas divulgadas antes do lançamento, “Black Butterflies & Déjà Vu”, é, de fato, uma das melhores que a banda produziu nos últimos tempos – e isso pode ter sido um fator que elevou as expectativas a respeito do álbum como um todo. Letra e melodia se complementam de maneira brilhante, o título é bastante poético (de uma maneira que remete um pouco ao button poetry dos millenials) e ela tem uma boa narrativa, algo que sabemos que John O’Callaghan, frontman da banda, é muito competente em fazer. Além disso, esse trabalho, que marca os 10 anos de existência do The Maine, traz algo inédito para eles: interlúdios. Os três interlúdios, intitulados “Lovely”, “Little” e “Lonely” – que inteligente! – conferem unidade ao álbum ao mesmo tempo que funcionam como respiros, momentos para absorver o que foi ouvido até agora. O último deles, “Lonely”, é tão bom que poderia muito bem ser desenvolvido em uma música completa.

É importante ressaltar também que este disco deixa claro, mais uma vez, qual é a sonoridade do The Maine. Todas as músicas são incrivelmente… The Maine. A banda, ao longo de sua carreira, descobriu qual é seu som e segue esse caminho de maneira consistente, e isso é louvável. Há algo confortante em acompanhar o trabalho de um grupo que sabe quem é, o que quer produzir e o faz de maneira coesa e com qualidade. Contudo, isso pode deixar pouco espaço para experimentações e boas surpresas. É o que acontece com diversas faixas de Lovely, Little, Lonely, como “Don’t Come Down”, “Do You Remember (The Other Half Of 23)” e “The Sound Of Reverie”. São boas canções, típicas da banda, porém previsíveis e não muito marcantes.

Outro ponto positivo das músicas deste trabalho é como elas falam diretamente com a fanbase da banda – aqueles que estiveram lá desde o início, que os apoiaram quando eles decidiram deixar a gravadora e lançar seu próprio selo, o 8123. Em trechos como “To the lows and every high/ The hellos and the goodbyes”, ou em “Do you remember the other half of 23?/  All lit up together, full of guts and dopamine/ We were invincible or so it seemed”, fica evidente que eles se dirigem aos fãs, como uma espécie de agradecimento por eles estarem lá durante os 10 anos de sua carreira. Na faixa “How Do You Feel?”, ocorre algo similar. A mensagem que fica é: “também estamos aqui por vocês”.

Ainda assim, fica muito difícil ignorar que, quando analisado como um todo e comparado a trabalhos anteriores do The Maine, falta algo em Lovely, Little, Lonely. E provavelmente o que falte seja alguma coisa que torne as músicas especiais, uma vez que a maioria delas soa um pouco genérica. Faltam os pequenos detalhes nas narrativas das canções que as tornam únicas, mas, de alguma forma, mais reais. O’Callaghan é um ótimo contador de histórias – sabemos isso porque conhecemos seus trabalhos anteriores de composição, como o EP Imaginary Numbers e até mesmo seu projeto solo, John The Ghost. Mas será que alguém que conhecer a banda com o último disco irá ter essa mesma percepção do talento de John como compositor? Com exceção da já citada “Black Butterflies & Déjà Vu” e de “I Only Wanna Talk To You”, outro destaque do álbum, tanto liricamente quanto musicalmente, Lovely, Little, Loney nos apresenta versos com rimas previsíveis e ideias pobres. Um exemplo disso é o “In the backseat/ Of a taxi”, da faixa “Taxi”. Para ser justa, superada – se possível – a péssima abertura, “Taxi” se recupera bem, com trechos que dizem exatamente o que o seu eu jovem adulto angustiado gostaria de ouvir, mas é difícil apagar a decepção com o verso de abertura.

Talvez fãs esperem muito de seus músicos favoritos. Provavelmente porque os conhecem bem, sabem de seu potencial, acreditam que são capazes de produzir algo brilhante. Lovely, Little, Lonely não chega a ser brilhante, mas certamente agradará muito àqueles que estão começando a conhecer o trabalho do The Maine e ensina que expectativas muito altas devem ser, na medida do possível, evitadas.

OUÇA: “Black Butterflies & Déjà Vu”, “I Only Wanna Talk To You” e “How Do You Feel?”.

Deep Purple – inFinite

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São quase 50 anos de estrada – com mudanças na formação, mas ainda assim, o fato é que que o Deep Purple é um dos grandes nomes do rock britânico, cujos membros são lendas vivas do rock. Com inFinite, Ian Gillan, Roger Glover, Ian Paice, Steve Morse e Don Airey trazem o que pode ser o derradeiro disco da banda. O que parece sugerir um trabalho de quem já está, por assim dizer, “puxando o freio de mão”, de quem já se prepara para sair de cena e portanto não apresenta o mesmo esmero presente em outros momentos de carreira. Essa tese poderia – e às vezes é – ser verdade, quando aplicada a outras bandas. Mas não a Deep Purple.

Quem houve Ian Gillan esbravejando em “Hip Boots” e “One Night In Vegas” dificilmente diz que se trata de um senhor de 71 anos. Como um todo, o som do Deep Purple em inFinite é carregado de energia, de momentos contagiantes. Por vezes, o som do grupo pende pro heavy, em certos momentos é mais progressivo. Do início ao fim, “Infinite” nunca chega a cansar o ouvinte ou dar aquela sensação de estar ouvindo a mesma música várias vezes seguidas, o que é muito comum com bandas que estão na ativa há muito tempo.

Por fim, o grupo fecha inFinite com uma grata surpresa: a última faixa é um cover de “Roadhouse Blues”, do Doors, extremamente carregado no blues, que honra a canção original. Com “Infinite”, o Deep Purple faz o público desejar que este não seja o último álbum da banda – mas, se for, é um disco e tanto para se terminar uma carreira.

OUÇA: “Time For Bedlam”, “The Surprising”, “Birds Of Prey”.

The Black Angels – Death Song

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Com uma psicodelia caótica mergulhada em um mar sombrio, o 5º álbum de estúdio dos texanos do The Black Angels, Death Song, vem como um dos mais complexos e autênticos trabalhos da banda desde seu disco de estreia, Passover, lançado em 2006. Em uma exploração ao passado, a banda reutiliza fórmulas que já funcionaram e lança uma versão mais madura de seu debut.

Conduzido por ritmos extremamente sujos e agressivos, Death Song – como o nome insinua – trata principalmente sobre a morte em suas composições. O novo álbum do The Black Angels traz uma penetrante carga dramática nas canções. Isso pode ser percebido tanto em suas melodias, capazes de traduzir o caos em riffs pesados e vorazes, quanto em suas letras, que abusam do fatalismo e fazem disso sua principal fonte de expressão artística.

O disco é aberto em compasso acelerado com “Currency”, primeiro single lançado, que dita o tom da maior parte das canções. Guitarras excessivamente distorcidas permeiam a parte inicial do trabalho dos norte-americanos, riffs agudos destoam dos graves e criam a atmosfera ideal para a característica voz de Alex Maas, que soa quase fantasmagórica. Após o agito da primeira metade do álbum, o ritmo cai e o peso sufocante de “Estimate” toma parte na audição. A canção marca um dos pontos altos do disco e, com uma melodia suplicante, ela inicia uma virada energética nas faixas. Apesar de manter um pouco da sujeira distorcida das músicas iniciais, a marcha definitivamente fica mais lenta a partir de “Estimate”. “Death March” e “Life Song” encerram o trabalho de forma marcante, criando um eco deixado no silêncio do fim do disco.

Podemos ver Death Song uma continuação espiritual de Passover, 11 anos após seu lançamento. Isso tem seus prós e contras. Por muitos, Passover é considerado o melhor álbum da banda, e Death Song consegue repetir a atmosfera psicodélica e pesada que os consagrou no primeiro disco. Retornar às origens de algo que funcionou geralmente é visto com bons olhos, porém, falha no quesito inovação musical.

As canções do último lançamento do The Black Angels podem ser facilmente confundidas com as do primeiro álbum da banda, desagradando os que anseiam por novidades e a evolução de um grupo. No entanto, a obra não é, de forma alguma, descartável. Mesmo com a repetição da fórmula inicial de suas composições, Death Song definitivamente diverge dos últimos lançamentos dos americanos, então podemos sentir o contraste nessa mudança de estilo – mesmo que para um já explorado –, quebrando um pouco do estigma de “mais do mesmo”.

Pesado, conturbado, caótico e, por vezes, sufocante. Podemos definir assim Death Song, que crava uma bandeira em suas raízes e nos agracia com o que pode ser o melhor disco lançado pelo The Black Angels desde Passover.

OUÇA: “Currency”, “Half Believing” e “Estimate”.

Said the Whale – As Long As Your Eyes Are Wide

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Said the Whale é uma daquelas bandas que você ocasionalmente vai descobrir mexendo pelos relacionados do Spotify, tive o prazer de resenhar o álbum deles hawaiii (2013) e a gente aqui do You! Me! Dancing! foi até xingado pelos caras da banda por termos vazado o álbum. Aparentemente sabendo que a gente conhece a banda eles decidiram fazer um álbum bem fraco para que a gente nem se importasse. LEDO ENGANO BANDA BALEIA DO CANADA, LEDO ENGANO!

Não, esse texto não é uma represália por eles terem nos xingado, mas sim uma resenha que eu não gostaria de fazer, pois muitas das músicas antigas do Said the Whale são muito boas e esse álbum não chega aos pés do que o grupo já trouxe!

Enquanto a banda sempre viajou pelo indie, em As Long As Your Eyes Are Wide eles usam e abusam dos elementos do indie pop e seus sintetizadores. Agora como um trio, os canadenses decidiram seguir a onda das músicas de bandas indies atuais, solos de guitarra já não conquistam o público como antigamente, então usar bastante os elementos de sintetizador e explorar ao máximo o pequeno número de membros da banda é essencial, além é claro de vocais sobrepostos bem comuns da banda que remete ao começo da carreira, quando alguns elementos de folk eram bem presentes nas músicas.

Instrumentalmente essa mudança não me agrada, pode ser até uma “síndrome de primeiro álbum” onde nada será tão bom quanto era no começo, ou até uma saturação sem novidade do estilo mas a criação do Said the Whale para o álbum não é algo de se destacar. O grande ponto de destaque do álbum são as letras: relacionamentos já cansados, aborto e luto são temas que aparecem. Miscarriage é um dos poucos momentos de destaque do álbum tanto liricamente quanto instrumentalmente, é talvez a maior mistura de gêneros que a banda trabalhou e que num conjunto trás uma melancolia nova num nível estilo “Hurrcane Ada” (uma das melhores músicas da banda) do álbum Little Mountain (2012).

Entretanto enquanto uma música se destaca as outras não tem essa correlação entre a letra e um instrumental que abraça a causa da música, assim fica meio estranho você ter uma música com um instrumental alegre e uma letra que fala sobre morte, não casa, mas o importante para a banda é atingir um público de maneira mais simples e eficaz, o famoso feijão com arroz: certeiro e sem inventar. “Step Into The Darkness” é esse PF sem erro, fácil de digerir e chamativo sem precisar inventar, o que é bom para alcançar novos públicos, mas conhecendo a carreira da banda não é nada de excitante.

“Emily Rose” é um outro destaque do álbum, bem mais folk que o restante do álbum a música é talvez a última ponta de lembrança do que um dia o Said the Whale já foi e não temos como culpar a banda por seguir um novo rumo, é tudo uma questão de adaptar ao mundo da música atual, e esse álbum é basicamente esse interlúdio de adaptação da banda: ainda não esqueceram tudo o que fizeram, mas precisam olhar para o futuro,.

Num geral o gosto pessoal interfere muito nessa nota, não da para falar que o álbum é ruim dentro do propósito que a banda quer. Tanto que de todos os álbuns do hoje trio, As Long As Your Eyes Are Wide é o mais fácil de digerir para o público geral e isso é ótimo para uma banda de pequeno porte que é o Said the Whale para conseguir um público atual, porém mudar seu som e não inovar em quase nada faz desse álbum algo solido mas irrelevante, só mais um numa maré de bandas que tentam se adaptar aos nomes do Indie Pop atual. Já no meu gosto pessoal o álbum foge muito daquilo que a banda já foi e infelizmente não vale aquela escutada, não é nesse álbum que você encontrará todo o potencial que a banda tinha enquanto um grupo e não como um trio.

OUÇA: “Miscarriage” e “Emily Rose”.

The Big Moon – Love In The 4th Dimension

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Ouvir Love In The 4th Dimension pela primeira vez foi como voltar à minha adolescência e descobrir todas as bandas indies que moldaram meu caminho musical até aqui, dessa vez tendo certeza de que estava ouvindo um som de qualidade e não apenas deslumbramento de descobrir um mundo novo.

No pouco que conheci das meninas nas minhas pesquisas pra escrever essa resenha pude notar a química gigante que elas têm e como isso foi muito bem registrado em estúdio. A impressão que se tem decorrer do disco é que elas estão tocando bem na sua sala. Trabalho de produção e mixagem incrível da Catherine Marks (que trabalhou com o Wolf Alice e o Foals).

É um som “cru”, no sentido de que quase não se encontram intervenções eletrônicas e pouquíssimas coisas parecem ter passado por um computador. Em um disco de rock se torna uma sensação bastante agradável, dada a dificuldade de se encontrar novas bandas com um som realmente empolgante e que não sejam claramente manufaturadas.

Mas o som delas também já está pronto para os festivais do mesmo jeito que consegue parecer uma trilha sonora de um filme de road trip dos anos 80. O sentimento no fim das contas vai ser sempre de coisa boa.

Toda essa vibe de jam session faz o disco ser ouvido tão fácil que ele acaba num piscar de olhos e só te fazer querer repetir a dose. Talvez uma dose de bebida, na sua sala em que elas estão tocando. E depois sair no ônibus da turnê junto com as meninas e tocar bêbado por uns bares sujos.

OUÇA: “Bon Fire”, “Silent Movie Susie” e “Zeds”.