Will Joseph Cook – Sweet Dreamer

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O britânico Will Joseph Cook é reunião dos riffs do Phoenix com aquilo que a gente sente quando está na praia num fresco dia de sol. É também como se o Julian Casablancas abusasse um pouco menos dos autotune e se entregasse às referências oitentistas.

Dono de alguns extended plays lançados em 2015, o caso de You Jump I Jump (de maio) e Proof Enough (de agosto) e Insignificant With You (de dezembro), enfim Cook lançou seu debut. Já faz um mês que é possível ouvir o primeiro disco do cantor, intitulado de Sweet Dreamer. São 13 novos registros sonoros que evidenciam o ótimo desempenho de Will Joseph Cook em termos de roupagem, arranjos e voz. O tom elogioso de todos os textos divulgados lançamento após lançamento recai justamente na particularidade da voz de artista, explorada ao máximo nas canções do novo lançamento.

Se a proposta do álbum era transportar o ouvinte para a uma lugar onde mesmo a melancolia dos dias ensolarados parecesse uma ideia feliz, quem foi feliz foi o próprio Cook.

O debut, a exemplo dos lançamentos anteriores, revela uma voz madura de alguém que certamente já viveu mais do que a pouca idade de Will indica. Talvez a gente não espere uma voz potentemente rouca assim de alguém que não aparenta ter nada além de uns 25 anos (ele tem 20 hoje), E é justamente toda a atmosfera grudenta e melancolicamente feliz e praiana o que torna viciantes as composições do garoto.

Desde adolescente e muito incentivado pelo pai, que o lavava às performances ao vivo de artistas como MGMT, Cook se relacionava com a música escrevendo e compondo. Mesmo assim, quando, em 2015, produziu e lançou online seu primeiro EP a surpresa de ter algumas canções com ótimos desempenhos em plataformas de streaming era algo inesperado para ele. A partir desse momento Will Joseph Cook passou a receber constante maior atenção da indústria, inclusive da gravadora Atlantic.

A partir desse primeiro passo, que o fez alcançar o topo do chart de canções virais globais do Spotify, pouco depois ele se apresentou no BBC Introducing durante o Glastonbury Festival em 2015 e, mais tarde, em 2016, no South by Southwest (SXSW) nos Estados Unidos.

O ano de 2016 também trouxe a escolha de Cook como uma das revelações do “Spotlight On 2016”.  

Atualmente o artista em turnê pela Europa para promover o debut, Sweet Dreamer.

OUÇA: “Treat Me Like A Lover”, “For Thursday” e “Alive”.

Criolo – Espiral De Ilusão

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“A gente não faz samba exaltação, a gente faz samba meio pra dentro, narrando situações um pouco menores, menos grandiosas. A gente tem um pouco de vergonha da cidade, de trazer vocês aqui em São Mateus. Poxa, o campinho é de terra! Então cê acaba buscando beleza nessas coisas.”

Quando questionado a respeito do tipo de samba feito por ele, essa é a resposta que Rodrigo Campos dá. Por que começar uma resenha sobre o novo disco do Criolo com menção a outro artista? Rodrigo Campos faz parte da geração de músicos que tem trabalhado de forma independente e é frequentemente visto em parcerias com Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Juçara Marçal. Criolo já desenvolveu parcerias com todos esses artistas citados, o que faz com que nesse momento seja preciso olhar para além do disco atual e reconhecer o emaranhado de relações que se faz no meio musical e nos benefícios resultantes. Para exemplificar, Marcelo Cabral, em parceria com Daniel Ganjaman, tem produzido todos os trabalhos do Criolo desde o Nó Na Orelha (2011). No hit “Duas de Cinco” Criolo sampleia “Califórnia Azul” de Rodrigo Campos, o que cai como uma luva naquela canção. Ainda que já tenha flertado com o samba em momentos anteriores, é muito interessante que a vez de um disco só com sambas tenha chegado, com Criolo assumindo o seu lugar de cronista desses momentos pouco grandiosos da realidade periférica, como Rodrigo conta. A crítica social não é propriedade do rap e o Criolo, em sua versão sambista, demonstra isso.

O Espiral De Ilusão é um disco que deve ser ouvido coletivamente, de preferência em um local onde você e os presentes possam cantar os refrãos em coro. A roda de samba, enquanto uma experiência construída não só pelos músicos, mas também pelos presentes no entorno, é invocada e representada fielmente por Criolo. Em alguns momentos ele parece até fazer referência aos sambistas antigos em sua entonação. Em entrevista, o próprio admite que respeita muito o estilo e tem a dimensão da importância do samba para o povo brasileiro.

Da religiosidade até a reforma da previdência, Criolo mobiliza diversos temas em suas letras que, como de praxe, se entende na medida em que o tempo passa. As letras são um ponto importante do álbum, seja pelas temáticas ou pelos significados a serem desvendados. “Saudosa Maloca” do Adoniran Barbosa, que quase todo mundo é capaz de cantar de cor, é uma canção sobre expropriação. Sobre uma transformação da cidade que depende da remoção dos alojamentos populares para que se dê lugar aos edifícios de luxo. Assim, a crítica social pode estar contida nas canções de variados gêneros e principalmente naqueles que emergem da população pobre. Pode soar estranho a princípio que um disco de samba tenha sido feito por um MC. No entanto, é muito compreensível se entendido dentro desse contexto: de um samba que é memória afetiva do passado e forma de expressão popular, cantá-lo hoje é prestar homenagem e também criar.

OUÇA: “Hora Da Decisão”, “Nas Águas” e “Lá Vem Você”.

John Mayer – The Search Of Everything

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John Mayer já foi o queridinho da galera, foi reconhecido pelo seu talento com a guitarra e se transformou no artista polêmico do rolê. De tempos pra cá ele busca seu lugar ao sol com disquinhos sinceros e músicas que refletem a sua longa jornada em busca de redenção. Ele coleciona Grammys e músicas que marcaram a sua carreira e o perseguem até hoje como “Your Body Is a Wonderland”, “Daughters” e “Stop This Train”, mas John Mayer é muito maior e melhor que isso. Por mais que falte muito pra ele conseguir bater seu disco de 2006, Continuum, The Search For Everything consegue cumprir o seu trabalho de expressar o seu momento atual.

Desde Born and Raised, quando começou a explorar diferentes estilos musicais, Mayer vem buscando respostas para dúvidas que talvez nunca sejam respondidas. Ele faz canções pra arrancar a angústia e frustrações do peito. É quase impossível não se identificar com uma das 12 canções do disco, que apresenta um mix de tudo que fez em sua carreira. Ainda com o lado country e folk fortemente aflorados, o disco não apresenta uma grande revolução em conteúdo, mas sim em forma.

John Mayer nunca cantou de um jeito tão sincero, tocou de um jeito tão solto ou se preocupou tão pouco em não agradar ninguém. Ele só precisava tirar do peito aquilo que estava preso, e, por isso, ele merece grande reconhecimento com esse álbum. De uns tempos pra cá, além de belas canções o cantor desenvolve também grandes conceitos. O lançamento do novo álbum, que foi dividido em 4 pequenos EPs, criou grande expectativa após mostrar músicas como “Moving On and Getting Over”, uma das melhores do disco.

Na parte técnica, fica muito claro que John Mayer não poupou esforços na produção do disco. Ele trouxe de volta ao estúdio Pino Paladino e Steve Jordan, membros do John Mayer Trio. As músicas “Still Feels Like Your Man” e “Helpless” mostram que os três ainda sabem criar aquele mojo que agrada, e muito, nossos ouvidos. O tema da maioria das canções é o fim de um relacionamento e a remanescência de sentimentos verdadeiros por alguém em especial.  Ele também levanta questões sobre sua família em “In The Blood”,  coisa que já havia feito em seus trabalhos anteriores. O disco vai ganhando força conforme as músicas vão passando, como se fosse uma grande evolução do próprio artista. Na parte final do disco, “Never On The Day You Leave” cria uma atmosfera nostálgica com momentos especiais e uma ponta de otimismo que fica completa com as canções seguintes.

No meio de tantas indiretas para um alguém especial, John Mayer revela detalhes de uma relação que não deu certo. Talvez funcione em outro momento, talvez não. Os sentimentos de hoje representam que tudo valeu a pena e que as memórias ficarão com ele pra sempre. Com isso, Mayer fez uma das letras mais lindas de sua carreira em “You’re Gonna Live Forever In Me”. A frase final da canção deixa esse sentimento claro:  “But you’re gonna live forever in me. I guarantee, just wait and see.”

The Search Of Everything rende boas reflexões para aqueles que passaram por algum final de relacionamento intenso. Ao mesmo tempo, ele encoraja os românticos a expressarem o que sentem: “It’s been so long since I got to hold you. But I still can’t seem to get you off my mind.”

OUÇA: “Emoji Of A Wave”, “Moving On And Getting Over”, “Never On The Day You Leave” e “You’re Gonna Leave Forever In Me”.

Ásgeir – Afterglow

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A Islândia, quase como uma regra, exporta para o restante do mundo talentos musicais muito particulares. Ásgeir Trausti é um deles. É dessa forma que o cantor e compositor é conhecido na própria terra. Ásgeir, quando lançou a carreira internacional, em 2013, é como ele é conhecido no restante do mundo.

A carreira do jovem de 24 anos é composta por três álbuns. O primeiro deles, aparentemente impronunciável para nós aqui no Brasil, Dýrð í dauðaþögn, foi lançado em 2012. O álbum foi um completo sucesso para o garoto que cresceu em uma vila (Laugarbakki) de não mais de 50 pessoas no interior do país. Seu lançamento rapidamente ultrapassou os recordes regionais anteriores em termos de música. Estimativas de vendas do álbum indicam que 10% de toda a população do Islândia tem uma cópia do disco.

Dois anos mais tarde o artista, que nasceu em 1992, relançou o debut em Inglês com o envolvimento cantor e compositor americano John Grant. Foi uma clara tentativa – de bastante sucesso – de se inserir na cena folk internacional. In The Silence foi o título escolhido para o material.

Ásgeir não se distanciou daquilo que estamos acostumados a ouvir quando pensamos em seu nome e nos entrega em Afterglow (2017), o terceiro registro de estúdio, um disco em que seus vocais estão limpos e facilmente reconhecíveis em meio a um instrumental impecável. A evolução de sua sonoridade reside em faixas como “Underneath It”, com um roupagem instrumental pouco mais carregada em relação às faixas dos álbuns anteriores. O eletro-folk melódico soa como se Bon Iver e James Blake tivessem decidido lançar um álbum juntos. Ásgeir explora o intimismo que as batidas eletrônicas e uma voz suave podem revelar, frequentemente entoando versos em falsete.

Afterglow, lançado em 5 de maio, conta com letras escritas por Trausti, por seu irmão e seu pai, o poeta islandês Einar Georg Einarsson, além de outros compositores. São 15 novas canções (14 em Inglês e uma em Islandês), das quais antes do lançamento oficial já era possível ouvir as três faixas que abrem o álbum: “Unbound”, a homônima “Afterglow” e “Stardust”, lançadas como singles.

Ásgeir é um artista bastante exitoso se considerarmos sua raiz independente: diversas de suas canções possuem mais de um milhão de execuções na plataforma de streaming Spotify (o destaque é de “King And Cross”, do In The Silence, com 22,5 milhões de plays). O cantor conta cerca de 1,5 milhões de ouvintes mensais atualmente. O artista se prepara para sair em turnê em breve.

OUÇA: “I Know You Know”, “Stardust” e “Here Come The Wave In”.

Juliana Hatfield – Pussycat

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Na década de 80, quando o indie ainda era um movimento verdadeiro e underground, surgiu a Juliana Hatfield em uma banda que deveria ser conhecida pelos amantes do estilo, o Blake Babies — uma banda com instrumental acima da média e o vocal estridente da Hatfield – que, deve ser dito, tem uma das letras mais lindas do mundo: “Rain”.

Após o termino da banda (que durou poucos anos e teve breves voltas – uma no ano passado), Juliana investiu na carreira solo enquanto participava de outras bandas, como o Some Girls, Lemonheads, Minor Alps e o The I Don’t Cares.

Um dos pontos positivos que podemos ressaltar na carreira da Juliana Hatfield é que as boas ideias melódicas se mantém, as letras excelentes e a guitarra com detalhes interessantes – que mostram que a musicista não fica só no básico – se mantêm, e que a voz vêm se modificando e evoluindo, deixando de ser fininha e se tornando verdadeiramente audível – e não apenas suportável por causa das suas letras e riffs.

Após o seu último trabalho, em 2015 com o Juliana Hatfield Three, a compositora volta na sua carreira solo, com o Pussycat. Um bom álbum de indie rock cheio de ressentimentos e, como sempre, boas letras.

Ele se inicia com “I Want To Be Your Disease”, em que logo no início a compositora mostra todo seu potencial com uma letra “suja” propositalmente. Suja no bom sentido. Sobre quando o objetivo é ser aquela que fará “tudo de ruim” e fazer com que o sujeito relembre em uma pessoa tudo o que ele foi antes. E com um riff com distorção suja pra combinar na letra politicamente incorreta e sarcástica. “Impossible Song” é a que nega o título, pois é uma das que mais grudam na cabeça, com um refrão previsível. “Heartless” e “You’re Breaking my Heart” são os rocks de “menininha bobinha”. Como destaque de uma das possíveis melhores faixas está “Wonder Why”: uma canção pop rock com excelente letra e melodia perfeita — nessa a compositora acertou a mão – é uma das que entram na cabeça e dá vontade de ouvir de novo logo após o fim do disco. Que logo emenda com “Sunny Somewhere”, com uma guitarra gostosa, formando uma sequência excelente. “Everything Is Forgiven” é a possível negação de tudo o que foi dito anteriormente com um lindo solo de guitarra distorcido, outro momento em que Juliana acertou a mão. Um álbum com começo, meio e fim, e delicioso de ouvir.

Quando um artista após vários anos e vários discos na carreira consegue se manter criando, e com a mesma capacidade de gerar boas músicas – dentro do estilo – é sempre uma surpresa feliz. Do que é possível observar em longas carreiras, três são as possibilidades: um artista estar sempre em processo de transformação, se reinventar ao longo dos anos ou continuar fazendo a mesma coisa e não de forma cansativa. Juliana Hatfield faz a terceira, da melhor forma e sempre melhorando.

OUÇA: “I Want To Be Your Disease”, “Sunny Somewhere” e “Wonder Why”.

Gorillaz – Humanz

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I’m useless, but not for long

The future is coming on

As distopias e universos apocalípticos imaginados por Gorillaz finalmente colidiram e a estética fictícia chegou muito próxima do que vivemos hoje: um mundo de distâncias e silêncios intermitentes entre as guerras e o preconceito. O futuro chegou e ele é o tema de Humanz, o trabalho mais recente da banda Gorillaz.

Com participações de veteranos do R&B e rappers que estão em voga, algumas parcerias se destacam. Em “Momentz”, De La Soul nos lembra porque “Feel Good Inc.” deu tão certo: em menos de 30 segundos você já está ansioso pelo que este feat têm a oferecer. Em “Andromeda”, a voz de Damon e D.R.A.M te guiam pela vida noturna inglesa, mas poderia ser a de qualquer cidade cosmopolita.

Infelizmente, o acerto nessas e outras faixas é afetado pela sobrecarga de mensagens que o grupo deseja passar. Com 26 faixas em sua versão Deluxe, a sensação é que Albarn quis colaborar com todos os artistas que admira de uma só vez. O resultado enfraqueceu o álbum e comprometeu experiência proposta.

Em uma entrevista para a Stereogum, Albarn disse que Humanz estava antecipando a noite das eleições americanas de 2016, mas tentando fazer uma festa desse momento. Recentemente, ele também afirmou que retirou todas as referências a Donald Trump do álbum. Mesmo sem a citação direta ao presidente dos Estados Unidos, o inconformismo ficou claro em em singles como “Hallellujah Money” e “Ascension”. Mensagem recebida com sucesso.

É difícil manter uma banda relevante, ainda mais com uma distância de sete anos entre um álbum e outro, mas mais uma vez Albarn prova que seu conhecimento musical é importante. Todos sabem que ele tem a habilidade de se reinventar como artista solo ou em uma de suas bandas, mas são tantas parcerias e direcionamentos diferentes em apenas um álbum que a sensação ao chegar ao fim é de desconforto e cansaço. Humanz te tira da mesmice, mas te desnorteia completamente no processo.

É uma pena que, com seu último trabalho, Gorillaz reflita o mundo nos últimos anos: muito barulho, muita informação, poucos acertos e caos por toda parte. Ainda que a inventividade esteja presente, decisões criativas questionáveis comprometem o desempenho do álbum. Ele não é ruim, mas não faz jus à consistência da carreira da banda.

OUÇA: “Ascension”, “Andromeda” e “Hallelujah Money”.

Incubus – 8

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É. Aquela banda que marcou a adolescência de muitos de nós ainda não largou os estúdios de mão. Ficou conhecida por “Drive” de 2000, “Megalomaniac” de 2003, “Dig” de 2007, entre outros singles que ficavam perdidos na playlist mal (ou bem) organizada dos “mp3 players” que piscavam em várias cores e ficavam pendurados nos fones de ouvido como colares. Antes disso, talvez ainda estivessem presentes naqueles estojos de 100 CDs graváveis e, provavelmente, junto nesses estojo tinha CDs de bandas de rock com influências no funk, tipo Red Hot Chili Peppers, Rage Against The Machine, Linkin Park, Limp Bizkit, Soundgarden. Não é à toa, porque essas bandas, ou são influências, ou são contemporâneas à formação de Incubus.

Incubus teve seus altos e baixos, chegando à marca de Nº1 da Billboard 200 com o álbum Light Granades de 2006, que despencou na lista em questão de dias. Não que esse tenha sido o motivo, mas depois de Light Granades a banda só voltou a gravar em 2011 depois de um hiato. O vocalista Brandon Boyd deixou claro que a decisão foi coletiva em sua declaração à MTV News na volta do hiato, dizendo que não era porque tinham se esgotado enquanto banda, mas porque precisavam de tempo para voltarem suas atenções às vontades individuais. Voltaram como conjunto e lançaram If Not Now, When?, que não foi lá essas coisas – não ficou tão pesado como a crítica esperava.

Em 8, oitavo álbum de estúdio, o quinteto apresenta um pouco do peso que faltou no álbum anterior com um pouco da adolescência dos álbuns do início da década passada. As letras não são de grande profundidade, e, depois de 6 anos entre If Not Now, When? e 8, esperava-se uma temática mais original. As músicas não fazem muitos questionamentos sociais e tratam de experiências, imagino, pessoais do grupo. A sonoridade instrumental do álbum é consistente, mas algumas soluções de mixagem são simples demais, como os ecos em “Familiar Faces”. O disco foi produzido por Dave Sardy, que já trabalhou com Fall Out Boy, Paolo Nutini, Royal Blood, Gorillaz; foi co-produzido por Skrillex.

O arranjo vocal é bem diversificado e não perde a singularidade de Brandon, mesmo em faixas diferenciadas, como “Loneliest” e “When I Became a Man”. As guitarras deixam a desejar. Não pelo peso, porque Mike Einziger abre 8 com velocidade, mas depois apresenta pouco. Riffs simplórios e solos sem muita vontade. Já o baixo de Ben Kenney é mais interessante. Nada como os slaps do Dirk Lance no início da banda, mas cumpre um papel importantíssimo ao fugir do óbvio – tem momentos que lidera a percussão de José Pasillas e casa muito bem com a voz quase que aguda de Brandon. Contudo, Incubus seria pouco sem Chris Kilmore, o cara que tá na turntable e nas teclas. É ele quem faz a liga e dá o toque de acabamento no som.

8 é uma álbum fácil de ouvir, feito pra vender e recolocar Incubus no mapa musical. Não apresenta grandes novidades, mas afirma a capacidade musical da banda. Esperava-se mais, mas fizeram um trabalho aceitável. Nada poético, mas tem nostalgia – até o som de discagem da internet discada incluíram.

OUÇA: “Loneliest”, “Love In A Time Of Surveillance” e “Make No Sound In The Digital Forest”.

Slowdive – Slowdive

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Slowdive é considerada uma das bandas-alicerce do shoegaze – apesar de todas as críticas e pressões que permearam a carreira do grupo duas décadas atrás – e obviamente, falar do novo registro sonoro não é uma tarefa simples. E antes de mergulharmos nas novas atmosferas sonoras criadas, temos que ter em mente que a banda possui três registros de estúdio na carreira: Just For a Day (1991), Souvlaki (1993) e Pygmalion (1995). Logo, o novo trabalho intitulado também como Slowdive é o quarto álbum do grupo e rompe com o hiato de anos da banda, marcando o retorno da banda não só ao estúdio, mas também aos palcos.

Afinal, o último lançamento foi nos anos 90, né! E esse tempo todo gera uma enorme expectativa e ansiedade nos apreciadores/ouvintes. Mas, agora temos essas oito faixas para degustarmos após anos de silêncio, não é mesmo? E já posso dizer que esses quase cinquenta minutos de álbum possui o seu charme e já garantiu o famigerado lugar ao sol.

O novo registro é extremamente leve e marcado por uma atmosfera etérea que nos envolve e que é resultado da soma de: vocais doces e submersos, linhas de baixo bem marcadas e envolventes, sintetizadores e guitarras enevoadas. Essa é a receita do novo experimento do grupo que fez as distorções/ruídos coexistirem com o sutil.

Convém dizer que o registro é uma forma de resgatar a trajetória interrompida e de resolver os assuntos inacabados experimentando mais uma vez. É um rememorar e um experimentar mais uma vez o fazer musical como Slowdive, mas com o adendo de levar na bagagem vinte e dois anos de experiências acumuladas.

As faixas nos mostram um Slowdive caminhando por um caminho conciso, experiente e que precisou de distanciamento para retomar. Logo, a sutileza presente no álbum é reflexo desses acúmulos de experimentações musicais, emocionais e do tempo. E a pressa não é algo que combine com ele e as faixas mostram bem esse percurso, o crescer de cada uma delas e a duração necessária para atingir o desejável.

Enfim, Slowdive é um álbum aconchegante e muito bem produzido, cada elemento foi muito bem colocado para criar a ambientação proposta e criar uma bela colagem sonora com ruídos/distorções/vozes sobrepostas que acalmam! E sem muitas delongas: é um álbum marcante, sensível e um belo presente para os fãs/futuros fãs da banda.

OUÇA: “Slomo”, “Sugar For The Pill”, “Everyone Knows” e “Falling Ashes”.

Mac DeMarco – This Old Dog

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Mac DeMarco é o tipo de cara que você queria ter no grupo de amigos. Ele é aquele cara sensível que consegue falar o que você está sentindo em poucas e boas palavras. Em seu novo disco o cantor canadense encarou a relação conturbada com seu pai ausente em letras sinceras e arranjos pouco complexos com violão, drum machine e sintetizadores. Em todos os seus discos, fica clara a facilidade que Mac DeMarco tem em criar discos e músicas que se encaixam e traduzem sentimentos profundos de forma simples. This Old Dog foi capaz de deixar a mostra toda a essência verdadeira e sincera de Mac, que não tenta ser o que não é. Talvez esse seja um dos motivos que de uns tempos para cá suas músicas tenham ganhado grande relevância com novos públicos.

Assim como em Salad Days, o cantor usa e abusa da sua principal fonte de riqueza musical: riffs de guitarra que grudam na cabeça e ficam lá para sempre. “Sister”e “A Wolf Who Wears A Sheeps Clothes” são bons exemplos disso.

O álbum tem ótimo fluxo e sintonia ao longo de todas as faixas que contam a trajetória de pensamentos e reflexões. Por mais que o tema principal das letras seja a relação com seu pai ausente, DeMarco não segura o seu lado romântico em faixas como “Still Beating” e “For The First Time”. No seu novo disco, Mac também se joga na psicodelia na canção “Moonlight On The River”, que conta com um belíssimo final instrumental. “On The Level”, talvez a melhor canção do álbum, é uma das faixas que tem a carinha simpática de Mac DeMarco. Aqui é fácil perceber a homogeneidade dos trabalhos do cantor que ao longo desses 5 discos continua inovando sem perder o seu estilo musical que agrada tanto seus fãs.

This Old Dog mostra a visão de um jovem de vinte-e-poucos-anos que colocou pra fora pensamentos que carregava consigo durante anos. É o tipo de álbum que quem passou por alguma experiência parecida vai se identificar totalmente. O conceito do disco traduz muita coisa, sendo assim impossível ignorar a genialidade na escolha de sequência de músicas. A música final do disco, “Watching Him Fade Away”, contrasta com a primeira canção do álbum “My Old Man”. Tudo que vem no meio disso é um histórico que marcou a vida de Mac DeMarco e lhe rendeu inspiração para mais um bom trabalho de sua carreira.

OUÇA: “Still Beating”, “Moonlight On The River” e “On The Level”.

Sondre Lerche – Pleasure

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As primeiras notas de Pleasure parecem saídas de um disco da fase de ouro clássica do New Order: industriais, com um vocal dúbio marcado por sintetizador, elas precedem um refrão potente e risonho. É com uma referência dessas que Sondre Lerche começa seu nono disco de estúdio, primeiro depois de Please, de 2014.

Faces Down, debut do rapaz saiu em 2001. De lá para cá ele caminhou por uma variedade de sons e gêneros: indie pop, folk, country, jazz, indie rock. Em uma audição rápida da rica discografia do norueguês é impossível encontrar um disco fraco ou que poderia ter sido pulado da tarefa retroativa.

Mas é fora da sua zona de conforto que Sondre brilha mais ricamente e é em Pleasure que podemos contemplar com mais grandeza seu trabalho. Observar um trabalho que flerta tanto com o post-punk, new wave e synthpop de maneira tão rica e com tanta maestria é prova do talento do moço e faz com que ouçamos sua discografia com a ciência disso.

Pleasure opera numa chave oposta aos famosos covers de Lerche. Vá ao Spotify e você encontrará belas versões de “Chandelier”, “Hotline Bling” e, a minha favorita, “Wrecking Ball”. Sondre transforma canções dançantes em interpretações amargas, sentimentais e catárticas. O disco atual do rapaz é um álbum extremamente abrasivo, ensolarado e, surpreendentemente feliz. A nostalgia dos anos 80 se apresenta aqui animada, etérea e sempre presente.

Recheado de canções como “I’m Always Watching”, seu início extremamente alegre e refrão potente, lembra o saudosismo do The Desired Effect, último disco solo de Brandon Flowers, principalmente na canção “Lonely Town”. Aqui, entretanto o ouvinte encontra mais experimentalismo e vocais ora presentes, ora sussurrados.

“Serenates In The Trenches”, grande hit do registro é uma feliz metáfora, grudenta, sobre os conflitos românticos e que usa o imaginário das trincheiras e das guerras. A canção recebeu ainda um clipe sexy, com seu baterista, David Heilman. Há ainda espaços para psicodelia em “I Know That Something’s Gonna Break Your Heart” e solos de guitarra em “Reminisce”.

Pleasure é um trabalho eficiente, divertido, complexo e capaz de apresentar a sonoridade de Sondre para novas audiências em mesma medida que satisfaz a sede dos antigos fãs por música de qualidade. Vale a audição.

OUÇA: “Serenates In The Trenches”, “I’m Always Watching” e “Soft Feelings”.