Benjamin Clementine – I Tell A Fly


O Benjamin Clementine tem uma origem peculiar: ele é natural de Londres, na Inglaterra, mas mudou-se para a França, Paris, logo cedo. O talentoso músico se viu em situação de rua durante sua adolescência e enfrentou situações complicadas até ser descoberto. Clementine é dotado de uma genialidade ímpar e é considerado uma das vozes e pessoas mais influentes da Grã-Bretanha. Seu primeiro disco apareceu lá em 2015 e conquistou a crítica e a audiência por conta de seus fatos estranhos – é praticamente impossível rotular ou colocar em uma caixinha muito bem definida e certa o estilo de som do rapaz.

I Tell A Fly é o segundo disco do cara e aparece num cenário turbulento da Europa: crises políticas, mobilizações e discussões acerca de migrações dentro e fora do continente. O cenário político propiciou o desenvolvimento do panorama desse álbum. A alegoria escolhida por ele para ilustrar sobre essa Europa borbulhante são duas moscas apaixonadas em busca de um lugar seguro e todas as emoções envolvidas nessa migração. O disco tem uma montanha-russa interessante que nos remete às viagens e mudanças drásticas de humor. São nas idas e vindas, subidas e descidas [instrumentais] que Clementine encontra seu maior apoio para contar a história e sua alegoria. O cenário vai mudando conforme as emoções desses dois viajantes oscilam.

Se At Least For Now era bastante introspectivo e mostrava muito sobre a personalidade do músico, que era até então totalmente desconhecida para o público, colocando-se como uma introdução na discografia, em I Tell A Fly, Benjamin começa a olhar para o resto do mundo e entender seu papel nessa história. Depois de um disco singelamente introspectivo, Clementine começa a explorar suas relações, angústias, expectativas e desafios em relação ao outro e ao mundo. Frequentemente o músico se vê como um alienígena (como vemos em “Jupiter”) que não pertence a nenhum lugar.

Clementine ganhou o Mercury Prize com seu primeiro álbum e desde então um peso gigante foi colocado nele para ver qual seria seu próximo passo – é muito raro alguém ganhar o prêmio com o primeiro disco da carreira. E o mais engraçado e bacana disso tudo é que Clementine consegue ser genial e não ter apelo comercial nenhum com suas músicas. Parece um mundo totalmente aleatório àquele glamouroso que estamos acostumados a relacionar quando falamos de influência musical. Clementine cria muito bem um mundo particular e nós somos meros espectadores olhando com admiração todo esse império teatral.

Claro que o próprio I Tell A Fly é bastante teatral, já que possui todo um conceito por trás. Com as letras e orquestrações de Clementine é fácil imaginar uma peça que poderia ilustrar e ajudar a visualizar o pensamento do cantor quando compôs tudo isso aqui. É incrível os sentimentos que ele consegue passar com músicas sombrias como “Phantom Of Aleppoville” – exatamente, Aleppo, Síria – e mais intensas e extrovertidas como “Better Sorry Than A Safe” – retratando sobre a migração.

Talvez o fato mais pesaroso aqui é que a genialidade de Clementine atrapalha um pouco em algumas situações. O músico exagera em alguns pontos, acaba se perdendo em sua viagem teatral e deslizando em cima de sua alegoria com músicas levemente desagradáveis como “Farewell Sonata” ou “Ave Dreamer” que não adicionam muito bem ao álbum, dificultando a digestão de algumas coisas.

Esse segundo álbum do músico é, no final das contas, um disco difícil em várias instâncias: difícil de ser concebido – o músico encontrou alguns problemas com a gravadora – e difícil de ser digerido e compreendido com tanta rapidez. Mais uma vez Benjamin Clementine consegue mostrar sua genialidade dentro de um estilo único e improvável, aliado de boas letras e harmonias que oscilam e mudam consigo as atmosferas das músicas, gerando um painel sonoro e visual espetacular. I Tell A Fly é um disco único e peculiar, exatamente como Clementine é.

 

OUÇA: “Jupiter”, “By The Ports Of Europe” e “Quintessence”

Partner – In Search Of Lost Time


O ano era, mais ou menos, 2005. Eu estava fazendo nada e divagando por comunidades do Orkut quando me deparei com um clipe/música que iria mudar minha vida, de uma banda até então desconhecida para mim, mas que veio a se tornar uma das minhas preferidas até hoje. Sua música era bastante atual para a época e, ao mesmo tempo, bastante inovadora em alguns sentidos. Guitarras elétricas e acústicas coexistindo, teclados e sintetizadores lá apenas para complementar o que estava acontecendo, letras em sua maioria depressivas e ambíguas, mas que vinham acompanhadas de melodias dançantes e contagiantes. E, principalmente, a diversão. Era tangível para qualquer pessoa que escutasse/assistisse seus vídeos que a banda estava se divertindo horrores do começo ao fim, fazendo o que gostava e o que queria fazer.

Tratava-se das maravilhosas Tegan and Sara na melhor fase de sua carreira, aquela época maravilhosa da ‘trilogia’ If It Was You/So Jealous/The Con. Por anos eu esperei sentir a mesma coisa por alguma outra banda e, sim, houveram tantas outras pelas quais eu me apaixonei nesses mais de dez anos mas nenhuma me passou logo de imediato essa admiração instantânea que me fazia querer ser amigo das moças que estavam ali tocando. Sentar, tomar uma cerveja ou um café e conversar sobre a vida por horas. Isso nunca mais havia acontecido comigo de uma forma tão orgânica e imediata. Até “Play The Field”, do Partner, aparecer em minha vida.

Foi um caso de amor à primeira ouvida, fui atrás de tudo o que consegui achar sobre as moças e fui me apaixonando cada vez mais. Pouco tempo depois, Josée Caron e Lucy Niles lançaram seu primeiro álbum completo – In Search Of Lost Time. Álbum que compartilha o nome com o trabalho mais conhecido de Marcel Proust, mas está bem distante de ser algo pretensioso.

A busca pela diversão é o tema constante do álbum, e essa diversão vem principalmente na forma de ficar em casa assistindo TV e fumando maconha. Em um de seus primeiros singles, a música “Comfort Zone”, conta a história de uma pessoa contando os segundos para sair do trabalho; para poder ir pra casa dormir, beber usando pijamas e não fazer nada. É basicamente o hino da minha vida.

In Search Of Lost Time, com suas 13 músicas e 6 skits, conta basicamente a história de duas melhores amigas, lésbicas, que procuram o tempo todo se divertir e aproveitar a vida. Às vezes às custas de trotes para seus próprios produtores e fotógrafos. E também ilustra, de forma explícita ou apenas nas claras influências sonoras, a obsessão das meninas com as cantoras Melissa Etheridge, k.d. lang e as próprias Tegan and Sara.

Seu som pode parecer datado – e de certa forma ele é. In Search Of Lost Time não estaria nem um pouco fora de lugar se tivesse aparecido em 2003. Isso está longe de ser um ponto negativo, muito pelo contrário. A sensação de nostalgia, mesmo se tratando de músicas inéditas, é em grande parte o maior charme do álbum. É lindo ver que ainda existem pessoas hoje em dia que têm a capacidade de produzir dentro desse som ~indie rock anos 2000~ e trazê-lo para hoje em dia sem gigantescas modificações, apenas por que é um som bom que caiu em desuso e ninguém parece querer resgatá-lo.

Partner consegue te transportar para pelo menos dez anos no passado, e essa distração e quase escapismo às vezes é tudo o que você precisa. In Search Of Lost Time é um álbum feito sem pretensões, apenas para ser divertido e divertir os ouvintes. Nada de grandes produções megalomaníacas, batidas eletrônicas ou camadas e mais camadas de samples. É um álbum de indie rock com todas as influências certas, e que no mínimo serve pra te fazer lembrar dos bons tempos de quando você começou a se interessar pela música indie de forma geral.

OUÇA: “Play The Field”, “Comfort Zone”, “Daytime TV”, “Ambassador To Ecstasy” e “Creature In The Sun”

Cults – Offering


Cults poderia ser apenas mais um caso de banda que impressionou a mídia com seus singles de debut e ganhou espaço, contrato com gravadora famosa, fãs ao redor do mundo, e então passou a produzir um trabalho mais morno. Mas a dupla não aparenta falta de vontade em manter os motivos pelo qual ganhou esse reconhecimento. Formado por e Madeline Follin (vocais) e Brian Oblivion (vocais, guitarra, teclado e percussão), o duo carrega em seu trabalho uma forte herança do synthpop dos anos 80. O single “Go Outside” de seu EP de estreia, intitulado Cults 7, foi classificado como “Best New Music” pelo Pitchfork, e em seu álbum de debut, Cults manteve a qualidade de suas gravações, e ganhou seu segundo “Best New Music” pelo single “Abducted”.

Depois de quatro anos desde o seu último álbum Static, Cults está de volta ao rolê com seu terceiro álbum de estúdio intitulado Offering, trazendo mais synth e indie pop em um trabalho bastante maduro. No anúncio do novo álbum a banda falou sobre a faixa título, uma das mais vulneráveis, e que fala sobre oferecer esperança e se doar às pessoas a sua volta mesmo em situações em que parece impossível: “It’s hard these days to feel like you’re being heard, or like the people who might hear you care enough to look outside themselves and help you”.

Rejeição é um tema bastante recorrente em Offereing, as duas faixas “I Took Your Picture” e “With My Eyes Closed” complementam uma a outra não apenas no título, inclusive em um clipe para as duas músicas os nomes foram postos juntos. Offering também mostra uma característica bastante interessante enquanto você o ouve: as primeiras faixas trazem melodias mais dançantes, e a partir da faixa “Right Words” as músicas começam a ficar um pouco mais calmas, com um estilo que traz uma certa sensação de conforto. A partir daí as músicas também compartilham de uma mesma característica: todas tem algum momento de transição, onde as melodias ficam mais intensas e conseguem te levar para dentro das histórias contadas ali.

Apesar de essa transição ser bem construída e as faixas serem muito boas, há aquele sentimento de que são todas muito parecidas, e isso pode causar desinteresse em algum momento; “Natural State” e “Nothing Is Written” são exemplos disso. Mas há destaques nas duas partes do Offering: “Recovery” e “I Took Your Picture” trazem uma sensação de preenchimento bastante satisfatória no início do álbum, e as três últimas faixas: “Talk In Circles”, “Clear from Far Away” e “Gilded Lily”, não decepcionam. Pode se destacar, inclusive, a construção de “Clear from Far Away”, onde os vocais e a melodia parecem ter sido explorados ao máximo.

É notável o amadurecimento da banda nesse período de hiato, Offering se mostra um trabalho muito bem planejado. Uma curiosidade que não deve ser deixada de lado é o fato de que Cults já cantou em português em uma parceria com o grupo Superhuman Happiness. Se trata de uma versão da música “Um Canto de Afoxé para o Bloco de Ilê”, de Caetano Veloso, para o álbum Red Hot + Rio 2, parte de uma campanha de conscientização sobre a AIDS.

OUÇA: “I Took Your Picture”, “Talk In Circles” e “Clear from Far Away”.

The Front Bottoms – Going Grey


O The Front Bottoms está envelhecendo – ou, pelo menos, é o que afirma seu quarto disco de estúdio, Going Grey.

Com dez anos de existência, o duo de New Jersey formado por Brian Sella e Matt Uychich de fato está mais perto dos 30 do que dos 20 anos e bem longe de onde estavam em 2007, fazendo música em suas garagens apenas com um violão e uma bateria. Envelhecer para eles, no entanto, não se traduz em assumir a persona do velhinho ranzinza e excêntrico que faz exatamente o que quer sem se preocupar com a opinião de ninguém. Pelo contrário: o The Front Bottoms de Going Grey pende para o lado mais pop do espectro musical e passa a encarar com mais resiliência algumas das questões que eram centrais em suas composições em discos passados. No álbum, que é o segundo da banda lançado pela gravadora Fueled By Ramen, se eles assumem alguma persona, é a do senhor sábio que relembra com afeição, e não superioridade, como ele com alguns anos a menos costumava encarar o mundo.

E Going Grey é um disco bonito. O conceito de envelhecer vai para além do título e perpassa todas as onze canções mas de uma forma particular em cada uma delas, conferindo unidade ao trabalho mas não o tornando repetitivo – cada música é distinta da outra de alguma forma. Há, além disso, a utilização de um recurso interessante que o torna cíclico, ligando o início ao final: a primeira faixa surge, inicialmente, com apenas um som tímido do mar, que vai se intensificando até que os instrumentos que compõe “You Used to Say (Holy Fuck)” apareçam, um por um. O oposto ocorre no final da última música, “Ocean”, que aos poucos dá lugar ao mesmo som do mar, diminuindo até chegar no silêncio completo.

O amadurecimento também está na sonoridade. O The Front Bottoms agora muito claramente já não é apenas um violão e uma bateria. No disco anterior, Back On Top, houve a introdução, ainda que sutil, de guitarras nas músicas. Desta vez, além das guitarras muito mais evidentes – por vezes até mais evidentes do que o violão de Brian Sella – são acompanhadas por sintetizadores e teclados, com uma influência forte da música dos anos 80. É uma mudança grande – e arriscada – para o som da banda que, às vezes funciona e outras não – “Everyone But You” é um exemplo em que o risco não valeu a pena e nos lembra que os anos 80 foram cool, mas também muito cafona.

O principal diferencial do duo dentro de um universo de bandas pop punk, folk punk ou qualquer outro rótulo que você decida usar sempre foi sua capacidade de escrever letras geniais. Sella é um compositor brilhante por sua honestidade, pela forma como consegue tratar de questões emblemáticas ou situações não tão significativas assim com o mesmo tom confessional, construindo narrativas que sempre trazem pequenos detalhes que as fazem parecer, de certo modo, mais reais. Unido a isso, o uso do fluxo de consciência nas letras, em trechos quase mais falados do que cantados, sempre trouxeram ainda mais sinceridade, como se o vocalista precisasse desesperadamente colocar para fora sentimentos que não cabem mais dentro dele e não cuidou em poli-los antes.

Contudo, esse que era o diferencial do The Front Bottoms faz muita falta em Going Grey e nenhuma grandiosidade sonora consegue o substituir. Em um primeiro contato, as faixas parecem vazias de conteúdo – exceto, talvez, o primeiro single “Raining”, sobre a dificuldade de nos permitirmos tempo suficiente para nos curarmos, e a ótima “Vacation Town”, que, não coincidentemente, são as mais semelhantes aos trabalhos anteriores da banda. Após o choque inicial com a falta de letras, percebe-se que a essência da banda ainda está lá, mesmo que mais contida. Envelhecer parece ter conferido a Sella a capacidade de se expressar de maneira mais ponderada, sem toda a agressividade e word vomits de antes. É uma espécie de resignação ao aceitar o que o enfurecia nos primeiros álbuns – às vezes, parece até que as letras do disco inteiro foram escritas sob o ponto de vista de alguém à beira da morte refletindo sobre sua vida.

Essa mudança, aliada à da sonoridade pode desagradar alguns dos fãs mais antigos. Mas a banda consegue se redimir na última canção, além de encerrar o trabalho da melhor maneira possível. É nela que chega-se a finalmente a um equilíbrio entre o novo e o velho, entre a maior complexidade sonora e a habitual complexidade lírica. Em “Ocean”, o sentimento é de que envelhecer não é tão ruim quanto pode parecer, mas que também não é algo milagroso que repentinamente traz todas as respostas e conserta tudo que estava quebrado. Ele está assustado, Brian Sella confessa. E não há nada mais The Front Bottoms do que esse final agridoce.

OUÇA: “Vacation Town”, “Raining”, “Grand Finale” e “Ocean”.

Beck – Colors


Beck Hansen é um dos poucos artistas fora do mainstream a ganhar um Grammy de melhor álbum do ano. Um feito e tanto. Desde o aclamado Morning Phase (2014), o americano se consagrou como uma das principais referências no rock alternativo. Em Colors, até mesmo a classificação como rock alternativo poderia ser revista. Beck é um artista versátil e pouco acomodado. Enquanto Morning Phase trazia canções melancólicas e introspectivas, Colors apresenta um conteúdo oposto mergulhado no pop: alegre, enérgico e dançante.

Quem apostava em uma continuidade do ovacionado trabalho anterior, não poderia ter se surpreendido mais. Já na primeira canção, “Colors”, é apresentada uma atmosfera que flerta com sons eletrônicos, sintetizadores, batidas marcadas e dançantes. A inevitável surpresa estranha em primeiro momento, porém logo envolve e contagia. Colors não é apenas uma aventura ousada. É um álbum muito bem trabalhado, mostrando que o sucesso pode ser um aliado para apostar em caminhos novos.

Colors – cores saturadas e alegres, como as que cobrem a face do cantor na capa do álbum. Sobre o fundo preto e branco, elas que se destacam. Sem uma forma definida, porém expansivas e envolventes. Assim também são as canções do disco. Beck sempre foi habilidoso em trazer complexidade a sons acessíveis. Colors é álbum que afunda o pé no pop e no dance sem se tornar simplório por isso. Talvez depois do sucesso da crítica, trabalhar com sonoridades mais acessíveis tenha partido de uma tentativa de alcançar espaço no mainstream comercial. O que não é nenhum pecado quando não se perde a essência e a qualidade no trabalho. Nesse sentido, o álbum vai muito bem. Apresenta diversos elementos novos, sem aparentar ser algo exagerado ou forçado. Cada canção traz algo original, divagando por uma série de texturas que dão corpo ao álbum como um conjunto de experimentações dentro da proposta pop/dance do cantor.

Ao contrário do seu antecessor, Colors não almeja ser algo profundo e elaborado. É um álbum leve e divertido. Se torna prazeroso no momento em que se aceita as virtudes da leveza e da efemeridade. O disco passa rápido, deixando a sensação de ter proporcionado bons momentos de divertimento. Reflexo dos tempos em que vivemos, o álbum não cria laços fortes e duradouros com o ouvinte. Em vez de se debruçar e esmiuçar cada canção, o recente trabalho convida a uma audição leve e descompromissada, possibilitando uma diversão hedonista.

OUÇA: “Colors”, “I’m So Free”, “Dear Life” e “Wow”.

Bully – Losing


Crescer é laborioso. É um processo longo, difícil, cheio de altos e baixos (normalmente mais baixos) e que às vezes não compensa. Não me leve a mal, não estou dizendo que não devemos tentar amadurecer; muito pelo contrário: a sede de progresso é uma característica intrínseca a nós, mas que não é facilmente saciada. Não sei se os integrantes do Bully concordam minha opinião, mas eles com certeza são um bom exemplo para ilustrá-la.

Losing, o novo registro da banda, tinha muito potencial. Depois do debut Feels Like muito bem recebido, as expectativas pelo próximo álbum haviam se tornado grandes. A banda ter ido para a Sub Pop e lançado singles promissores só colaboraram ainda mais para o hype. Infelizmente, o que o disco traz de mais importante é uma demonstração do que o Bully pode ser, e não o que atualmente é.

Vamos concordar que é incrível a pretensão de Alicia Bognanno (vocalista e fundadora da banda): ela escreveu, produziu e canta em todas as faixas do álbum. Sua voz potente e estarrecedora que marcou Feels Like continua firme e forte em Losing, porém agora também mostra um lado mais calmo e contido. Além disso, seu lirismo brilha muito quando é íntimo, pessoal; em contrapartida, as letras com temas mais “universais” são um pouco clichês e simplistas demais. Mesmo assim, é quase impossível não ver (ou ouvir, no caso) que é ela quem carrega o disco nas costas.

O maior problema de Losing é sua redundância. Algumas faixas são intensas e contrastantes, porém muitas outras soam como mais do mesmo. Das diversas vezes que parei para ouvir o álbum, começava motivado (as primeiras músicas, principalmente “Feel The Same”, são ótimas), mas quase não notava seu fim. Perdendo momento, o som começa a virar ruído branco, e você muitas vezes fica sem saber quando uma música terminou e outra começou. Dói admitir isso porque, como disse e reitero, esse disco tinha potencial. As músicas que realmente se destacam dão uma pala de o que o registro poderia ter sido. Talvez se fosse mais enxuto (para um álbum de grunge/garage rock, 40 minutos é bastante coisa) seu triunfo seria maior.

No início da resenha, falei sobre crescimento e como isso pode ser trabalhoso. O que vejo em Losing é parte do processo de amadurecimento de uma banda que pode muito, mas ainda é pouco. O álbum falha em te prender em diversos momentos, mas quando consegue não tem como se soltar. É uma montanha-russa de qualidade que – e eu quero muito acreditar nisso – está bem longe de ser o ápice do grupo. Se esse for o caso, com certeza ouviremos coisas muito mais interessantes do Bully no futuro.

OUÇA: “Feel The Same”, “Kills To Be Resistant”, “Blame”, “Hate and Control”.

Stars – There Is No Love In Fluorescent Light


Veteranos do indie pop, o Stars volta depois de três anos de pausa com seu oitavo disco, There Is No Love In Fluorescent Light. A clara e vasta experiência no gênero deixou a banda canadense confortável, talvez acomodada demais em seus trejeitos. Apesar da qualidade de suas faixas, sempre contundentes, redondas e imersivas, o Stars não inventa muito em seu novo álbum.

A maior novidade trazida pela banda são os vocais de Amy Millan, que voltam ainda mais altos, principalmente na música “Hope Avenue”. O tom ajuda a trazer uma atmosfera oitentista, o que já havia sido explorado no álbum anterior. Ainda que algumas faixas sejam ligeiramente dançantes, o Stars volta ao pop orquestral imersivo do passado, sem no entanto renovar muita coisa. Mantendo fórmulas anteriores, o Stars trás “mais do mesmo”, mesmo sem perder o nível musical.

Conheci a banda no auge de The Five Ghosts, quando os versos de “Wasted Daylight” me tocaram e permaneceram nas minhas playlists reflexivas por quase dez anos. Em “The Maze” e “We Call It Love”, consegui sentir os mesmos arrepios que o meu eu adolescente sentiu tempos atrás.

Ainda que soe meio plástico em algumas frases ou sons, alguns toques conseguem me puxar de volta para o álbum, curiosa para saber onde a viagem vai me levar.

Transformando refrãos, toques simples synch e conversas cantadas em obras grandiosas, o Stars continua fazendo o fluxo do meu sangue correr mais lento ou acelerado em poucos segundos. Ouvir There Is No Love In Fluorescent Light foi como voltar a uma casa antiga, que carrega lembranças em cada lasquinha de tinta descascada.

OUÇA: “The Maze”, “Privilege” e “We Call It Love”.

Wolf Parade – Cry Cry Cry


Início dos ano 2000. Uma banda de Montreal, no Canadá, começa a experimentar com orquestrações complexas sendo apresentadas de forma quase lo-fi. Suas apresentações são catárticas, mesmo tendo todos os elementos para ser algo comedido. Parece até que estou falando daquele tempo em que Arcade Fire era uma banda boa, não é mesmo? Mas na verdade é sobre Wolf Parade. E, a despeito das semelhanças que listei, ouvir os trabalhos lançados esse ano pelas duas bandas não nos faria pensar de imediato que as duas sairam do mesmo contexto, e que eram próximas em outros sentidos além da sua cidade de origem.

A Wolf Parade nunca alcançou o público da mesma forma que sua conterrânea, E talvez uma vontade de ter mais reconhecimento tenha de alguma forma influenciado na decisão de de entrar em hiato justamente quando o Arcade Fire deixava o seu lado cult para abraçar o pop com The Suburbs. Voltar aos palcos com Cry Cry Cry, no entanto, significa que o Wolf Parade retorna aos radares de um grupo de pessoas muito mais restrito, ainda que fiel. Quem acompanhar a banda hoje, provavelmente é alguém que se encantou com Apologies to The Queen Mary ou Expo 86. Ou ao menos os considerou bons o suficiente para não esquecer deles.

A orquestração única, com uma vitalidade que vai muito além da sua simplicidade continua presente. Assim como os vocais angulares. Cry Cry Cry não vai decepcionar quem esperou, quem queria um pouco mais. O recurso a elementos não acústicos continua esparso, o que o torna ainda mais poderoso, mas se antes seu uso tinha um quê (muito leve) de shoegaze, e suas canções tinham uma visão um tanto distanciada do mundo atual, agora a banda parece se preocupar com o problema da contemporaneidade de frente. Abraçar a nostalgia seria o caminho mais fácil para conseguir apertar aquele botão de descontentamento que parece ser o fator unificante da cultura pop hoje, com sua infinidade de franquias no cinema e bandas de meia-idade que fazem música como se ainda fossem adolescentes.

Wolf Parade não é uma banda de buscar caminhos fáceis. Talvez seja sua raiz no post-punk. A banda é madura, e o som que faz é condizente. Ainda que seja, surpreendentemente, parecido com seus princípios. Pode ser simplesmente uma questão de integridade da identidade, ou pode ser simplesmente porque há dez anos já tinham uma certa ideia de onde estariam hoje.

Nada poderia ser mais distinto do que ouvir um disco do Arcade Fire. As referências que vem em mente são totalmente outras. Um Monochrome Set moderno, um She Wants Revenge mais acústico, um Walkmen nos seus momentos mais sombrios. Mas são esses qualificativos que fazem com que Wolf Parade se torne única. Sua audição não é fácil, mesmo nas faixas mais diretas (que ficam longe de ser as melhores), mas sim uma experiência de reflexão. Eu imagino que os shows da banda hoje em dia não sejam mais tão catárticos, mas abracem essa essência intimista que sempre esteve lá. E acho pouco provável que essa volta da banda angarie novos fãs. Mas quem se arriscar a ouvir, talvez mais de uma vez, provavelmente vai acabar achando uma sonoridade madura e inteligente, e isso é algo raro de encontrar hoje em dia em uma banda que seja ao mesmo tempo assim tão indie rock.

OUÇA: “Lazarus Online”, “Valley Boy”, “Baby Blue” e “Artificial Life”.

Weaves – Wide Open


O ano de 2017 marca o retorno da banda canadense Weaves com o lançamento do álbum Wide Open, sucessor do primeiro álbum de estúdio da banda, que levou o mesmo nome do grupo. Wide Open representa uma grande evolução na sonoridade da banda e na personalidade dos seus integrantes, com especial destaque para as letras mais conscientes e perspicazes da frontwoman Jasmyn Burke e para a atitude carismática que permeia todo o álbum.

Wide Open nos traz um Weaves mais maduro e polido, que aprendeu a ser pop ao mesmo tempo que preserva sua sonoridade indie. Boa parte das faixas são permeadas por confiantes e quase onipresentes guitarras, acompanhadas por linhas simples (mas sinceras) de baixo e uma bateria enérgica, embora por vezes bem quadrada. Contudo, o que mais chama atenção são os vocais expressivos e confiantes da frontwoman Jasmyn Burke, que, embora possam ser exaustivos perto do final do álbum, são no geral agradáveis e aconchegantes. A voz jovem de Burke, aliada à sonoridade da indie pop da banda, nos transporta à sonoridade de bandas do início dos anos 90 como o Blake Babies, liderada pela sempre-jovem Juliana Hatfield. Faixas como “Walkaway”, “La La” e alguns elementos de “Grass” são evocativas do indie de garagem do começo dos 90’s.

Contudo, o álbum não apresenta uma sonoridade unívoca, o que torna a experiência auditiva mais interessante, embora pouco concisa. Faixas como “Slicked”, “Gasoline” e até a introspectiva “Wide Open” se aproximam do indie mais atual, recheada de riffs de guitarra (com efeitos), várias onomatopeias e gritinhos, mudanças de tempo e uma atitude semi-hostil. Já a faixa Scream, com participação da cantora canadense Tanya Tagaq, destoa de todo o resto do álbum e contém algo que poderia ser chamado de “scream pop”, trazendo ao ouvinte um desagradável e inexplicável canto gutural que está francamente dissociado da sonoridade do restante das faixas.

No geral, Wide Open é um álbum interessante e representa grande evolução da banda, mas ainda diz muito pouco sobre se de fato o Weaves se firmará como um nome de peso no cenário musical atual e se realmente trilhará um caminho próspero na floresta obscura da música popular contemporânea.

OUÇA: “Walkaway”, “Wide Open” e “La La”.

Carla Bruni – French Touch


Um dos melhores fatos sobre Carla Bruni é que ela é francesa e canta “Quelqu’un m’a dit”. Nada disso está presente em seu último álbum French Touch, no qual ela decidiu fazer covers de músicas já consagradas com um “toque [clichê] francês”. Talvez ela tenha conseguido alcançar o ápice da breguice musical, isso porque ainda não citei o cover de “Highway to Hell” (não ouçam).

Além de ser gravado no emblemático estúdio da Capitol Records em Los Angeles, o álbum French Touch foi produzido por David Foster, vencedor de 16 Grammys. Seus arranjos souberam adaptar-se ao tom de voz suave e melódico de Bruni, quase um cochicho nos nossos ouvidos. Praticamente todos os covers receberam o mesmo tratamento com um fundo de jazz e uma melodia francesa blase sem emoção, o que talvez seja algo positivo. Carla retira quase que cirurgicamente todos os gritos e aquela emoção “fake”, típica dos românticos apaixonados dos anos 80, mas isso, no entanto, não impede que ela caia em outra outra armadilha – o estereótipo da música francesa.

Ela abre com “Enjoy the Silence” de Depeche Mode, como uma balada pungente acompanhado por um piano fantasma e guitarras deslizantes, essa que já se tornou a mais ouvida no Spotify do seu álbum novo. Bruni, depois segue com uma releitura do “Jimmy Jazz” do Clash, transformando-o em um típico jazz dos anos 30. Um dos destaques é a nova roupagem que Bruni e Foster dão para “Miss You” dos Rolling Stones, a música fica ainda mais sexy em sua voz.

Carla afirma em vídeo introdutório do álbum que inicialmente achava impossível fazer novas versões de músicas que já considerava perfeitas, então optou por aquelas que mais amava. O álbum, portanto, ainda conta com covers de “The Winner Takes It All” da ABBA, uma versão meio cabaret do “Perfect Day” de Lou Reed e a ousada [no sentido negativo] reinvenção de “Highway to Hell”. O cover da clássica música do AC/DC escancara a falta de criatividade que perpassa todo o álbum.

OUÇA: “Miss You” e “Enjoy The Silence”.