The Fresh & Onlys – Wolf Lie Down


Depois de 9 anos de carreira, o sexto álbum de The Fresh & Onlys – Wolf Lie Down – se encaminha para um som mais refinado e pensativo, bebendo das fontes dos rock dos anos 60. Formada por Tim Cohen, Whymond Miles (guitarra), Shayde Sartin (baixo) e Kyle Gibson (bateria), a banda surge em 2008 dentro da cena de bandas de garagem de São Francisco, mas cresce em outra direção, com um som mais focado e fácil de digerir do que as outras bandas dessa região como Thee Oh Sees e Sonny & the Sunset.

O sexto LP desta banda de San Francisco não adentra nenhum terreno completamente novo, percebemos a mesma batida de guitarra e violão que eles nutrem desde do álbum Grey-Eyed Girls de 2009. As melodias parecidas com The Cure, musicalidade com que flertam desde House of Spirits de 2014, foram substituídas nesse álbum por um som pop mais robusto.

Os ritmos de rock simples entram crus, mas com uma energia honesta e são fundidos com vários fragmentos de indie, garagem e alt-country formando uma boa e velha mistura de rock and roll. Além de algumas mudanças de tempo, as trilhas, na maior parte, rápidas, raramente se rompem, a menos que se construam para uma parede de som imponente ou se acostumem a uma melodia mais lisa e suave. Mas de qualquer maneira, essas quebras dão espaço para alguns ritmos coloridos e cativantes ou algum violão artístico para definir o tom.

As faixas mais suaves e mais lentas, como “Walking Blues” e “Becomings”, são os pontos fortes da banda com riffs finos montando sobre melodias breezy e são o yang perfeito para o yin da crescente fuzz rock da soberba “Dancing Chair” e o título de abertura do EP.

The Fresh & Onlys parece se contentar com o som que já criaram durantes os nove anos de carreira, em vez de explorar uma nova direção ou som. Demora para que cada uma das oito músicas apresentadas aqui sair da agradável base de stoner rock. E enquanto a composição não é ultra-imaginativa e os ganchos do pop são poucos e não são facilmente aparentes, aqueles que se comprometem com jogadas repetidas serão eventualmente recompensados ​​por uma banda única que parece mais empenhada em tocar música que eles gostam do que atrair novos ouvintes.

OUÇA: “One of a Kind”, “Impossible Man” e “Becomings”

Brand New – Science Fiction


Confesso que sou um fã tardio de Brand New. Tive meu primeiro contato com a banda por volta de 2014, e só então descobri o real peso que a mesma possui para o cenário da música emo. Com duas décadas de carreira um repertório extremamente coeso com 4 discos, contendo um clássico do gênero, Deja Entendu de 2003 e a obra-prima The Devil And The God Are Raging Inside Me, a banda surpreendeu a todos com o lançamento de Science Fiction, esse que até o presente momento marca a despedida do Brand New.

Uma constante em toda discografia da banda é a “facilidade” em que o vocalista Jesse Lacey tem de exorcizar seus próprios demônios em cada composição, cada catarse que é atingida em suas músicas, e acredito que isso que faz com que seja tão “fácil” de se identificar com tudo o que Jesse escreve. Através dela, ele dialoga, reconhece e nos ampara de certa forma. Lacey sofre da mesma forma que nós, criando uma espécie de suporte, e mesmo sendo extremamente pessimista, só de conseguir se expressar dessa forma em especial, cria um tipo de terapia para os fãs da banda.

E essa terapia é literal, visto que os primeiros minutos da faixa de abertura “Lit Me Up” narram uma conversa de um paciente em terapia, dando início ao desfiladeiro sentimental de 60 minutos com composições bastante melancólicas e densas onde Lacey deixa um pouco de lado a agressividade e inconformismo dos trabalhos anteriores e se mostra um pouco exausto. Isso pode ser percebido na sonoridade em que a banda adotou para esse novo álbum: leve. Os vocais gritados são bem mais econômicos e usados em momentos cruciais, guitarras sem distorção, violões e até mesmo alguns elementos do folk, ao invés daquela explosão já conhecida.

Science Fiction apresenta temas que são explorados pela banda desde o seu álbum de estreia Your Favorite Weapon: referências religiosa, políticas e literárias. Um ótimo exemplo disso é a ótima “Desert” que é um ataque direto ao fundamentalismo de diversos grupos religiosos. Em “137” já presenciamos um cenário distópico de um holocausto nuclear. Já “In The Water” usa inserções bíblicas, morte e passagem de tempo para referenciar a dificuldade da banda em produzir o último disco, Lacey passou por diversos períodos de bloqueio criativo e deixa isso bem claro que não entregaria nada que não fosse realmente sincero apenas para agradar seus fãs (o que também pode ser notado em “Can’t Get It Out”).

Ruptura e a incredulidade que anda de braços dados nos momentos difíceis é o que o Brand New trata em Science Fiction. Questionamentos, incertezas, aquela sensação de suspensão que nos guia em situações como esta. Mesmo com demora, e dificuldade em sua produção, esse novo material é a chance ideal dos fãs de dizer um merecido adeus e agradecer, mais uma vez, ao amparo dado pelo Brand New (até mesmo aqueles que, como eu, os conhece há “pouco tempo”). Em contrapartida, um registro tão intenso quanto esse só prova o quão relevante o Brand New continua sendo.

OUÇA: “Can’t Get It Out”, “Desert”, “137” e “Could Never Be Heaven”

Liars – Theme From Crying Fountain


Enquanto, surpreendentemente ou não, o Liars soma mais e mais álbuns, quando se trata de seus integrantes a situação é bem diferente, dessa vez com a saída de Aaron Hemphill da banda, Angus Andrew foi só o que restou, e inesperadamente ao invés pavimentar uma carreira solo, o moço simplesmente resolveu tocar pra frente como dava. Se enfiou no mato, se inspirou em tudo quanto era som que o rodeava, consequentemente dando vida a algo bem pessoal e, não que seja surpresa, adicionou um álbum mais do que singular pro bagageiro da banda.

Agora solteiro de membros de banda, por que não colocar véu e grinalda na capa do álbum? Toda deslocação de Andrew e a situação da banda não se tornou nada conturbado, mas com certeza muitas dúvidas devem ter ficado pairando por lá. De seu pranto inicial o álbum foge pro descaso, e do descaso pra piadas, tudo isso intercalando o que ora soa puro experimentalismo ora puro country, não há um sentimento certo pra ser despertado no ouvinte, mas o trabalho dedicado a cada faixa é tão visível e diverso de uma para outra que se torna admirável, e no final das contas, pro melhor ou pro pior, TFCF se torna um álbum pra lá de confuso no que tenta entregar e totalmente indiferente a sua própria sonoridade, que volta e meia dá uma deixa de se solidificar em um todo, mas isso de fato nunca acontece, e tudo termina parecendo ser obra do próprio acaso.

Se em algum momento o Liars já deu a impressão de ser uma banda de rock ou eletrônica, foi chegada a hora de jogar tudo pro alto e ver no que TFCF ia dar. Antes de mais nada, TCFC é um álbum extremamente sóbrio, até cansado e gasto pra ser mais exato, apesar de ser bem explícito com seu emocional em sua primeira metade e mais descontraído e até bem humorado na segunda, é um álbum de Angus Andrew para Angus Andrew, curte o trabalho do cara? Ótimo, você vai amar, mas se não, não espere por uma conexão mirabolante com o trabalho do moço. Há um descontentamento quase amargo em seu início que do nada joga suas pernas pro ar e não quer mais se importar com nada, os ares acústicos são extremamente rústicos, o que cai muito bem no álbum como um todo, mas, de novo, em seu início, deixa um clima seco e pesado. E toda essa incerteza é o que acaba por ser o rosto do álbum.

O que parecia ser um mortuário ou puro martírio acaba não passando de apenas uma fase na vida de Andrew, nem mais nem menos, só mais uma pessoa se virando como pode e seguindo em frente, no meio tempo chora-se um pouco, se ri da própria desgraça e acaba-se se perdendo em pensamentos aleatórios. TFCF a seu próprio modo é cheio de méritos, especialmente firmando Andrew como um belo musicista, mas sem muito propósito além de simplesmente desanuviar, e ao mesmo tempo também é cru e desconexo em todo seu decorrer, e mesmo esses sendo de fato seus objetivos, passa longe de qualquer público que a banda já tenha tido. Theme From Crying Fountain, em suma, termina por ser algo mais além de um mero cara ou coroa, o que quero dizer com isso? Eu não faço a menor ideia meus queridos, apenas desejo sorte e paciência pra vocês no desenrolar dos pensamentos de Angus Andrew.

OUÇA: “The Grand Delusional”, “Cred Woes” e “Ripe Ripe Rot”

The Duke Spirit – Sky Is Mine


The Duke Spirit é uma daquelas bandas que, apesar de sempre lançar álbuns irregulares, guarda umas pequenas preciosidades (geralmente nos lados B) que nos fazem manter as esperanças sobre aquilo que podem fazer no futuro. E parece que, ao menos em grande parte, o futuro chegou. Mais consistente do que qualquer um dos anteriores, Sky Is Mine é um disco homogêneo, ou melhor, coeso. A banda deixa de lado as tendências do garage rock que marcaram seu início de carreira e agora se dedicam a uma sonoridade mais complexa, com vocais etéreos, chegando a beirar o dream pop em muitos momentos, mas ao mesmo tempo se mantendo acessível, visceral e pé-no-chão.

Muito do que Sky Is Mine nos mostrava já estava indicado no predecessor, KIN, mas ali ainda estavam em formação. Pela primeira vez The Duke Spirit parece ter uma identidade própria. A banda não está nem tentando fazer o mesmo que The Subways e tantas outras bandas que surgiram na mesma época faziam (e que, raras exceções, não fazem mais) e nem é aquela que você não vai conseguir reconhecer se aparecer numa playlist que surgir pelo seu caminho. É claro que essa nova cara não vai agradar a todos, é possível que muita gente que curtia álbuns como Cuts Across the Land e Neptune provavelmente não vá gostar de Sky is Mine. Mas o próprio fato de estarem dispostos a arriscar é um ponto positivo da banda. Talvez só façam isso porque não tem uma base de fãs muito grandes, então o risco marginal é muito baixo.

Nem tudo, no entanto, são flores, como não podia deixar de ser. Apesar da coerência, o álbum não inova em nada, apenas elabora aquilo que já vinha sendo construído pela banda já há algum tempo. E isso não é nada de revolucionário, nada que várias outras bandas já não tenham feito antes, e até de forma mais bem sucedida. Também pode desagradar o próprio fato de ser um disco consistente. A falta de altos e baixos pode parecer monótona, e não deve ser bem recebida pela massa de consumidores musicais que está acostumada a ouvir singles. Ficamos imaginando se não teria sido uma boa ideia experimentar um pouco mais em estilos diferentes, ou mesmo apenas manter algumas faixas acústicas, que costumavam ser pontos altos dos álbuns anteriores da banda.

Sky Is Mine merece ser ouvido do começo ao fim, sem pressa e mais de uma vez. Se possível, no escuro, sem outros sons que atrapalhem a sua apreciação. Ao entrarem nos seus ouvidos, as notas vão invariavelmente te lembrar daquelas coisas que você imaginava que The Duke Spirit iria um dia fazer. E é algo raro uma banda nos dar esse tipo de satisfação. E, no meio desse barroco sonoro, impossível não imaginarmos também o que vem por aí. O mais provável é que, agora que encontraram uma identidade, se mantenham presos a ela. Mas essa é uma expectativa que eu adoraria ver ser quebrada.

OUÇA: “Magenta”, “Bones of Proof” e “The Contaminant”

As Bahias e A Cozinha Mineira – Bixa


As Bahias e a Cozinha Mineira se destacaram bastante na cena nos últimos tempos, com o boom da “geração lacração” e seu ótimo álbum de lançamento, Mulher, de 2015. Nele, as Bahias apresentavam uma versão repaginada de Gal Costa e Elis Regina. Hoje, com Bixa, o trio se torna Caê numa versão mais pop, assim como em seu Bicho, de 1977.

Sou suspeito para falar porque sou apaixonado por Mulher. Considero esse álbum um daqueles que será reconhecido como clássico apenas no futuro, por outras gerações. Faixas como “Apologia às Virgens Mães”, “Uma Canção Pra Você – Jaqueta Amarela”, “Melancolia” e “Fumaça” são peças únicas da música nacional, que nos arrepiam ao ouvir e transcendem em suas experiências ao vivo.

Ao comparar então Bixa com Mulher, o novo álbum peca em sua entrega final. As Bahias não atingem sua potência vocal, e a Cozinha Mineira troca as guitarras mais pesadas por samples. Se sonoramente ele pode até não agradar muito, e vezes soa até confuso, a qualidade das composições é algo que se mantém impecável e intocável. Raquel e Assucena são duas das maiores letristas que há no nosso país.

Confuso, porque Bixa é uma mistura de ritmos e experimentações. Ele passeia pelo pop eletrônico em “Dama da Night”, pelo samba em “Pica-Pau”, pelo reggae em “Mix” e até pelo bolero em “A Isca”. Enquanto Mulher é um álbum mais orgânico, Bixa tem uma pegada mais urbana.

Por fim, Bixa não é um álbum memorável, mas sua experiência não deixa de ser interessante. Ele vem para concretizar a relevância d’As Bahias e a Cozinha Mineira e expandir o grupo além da “geração lacração”, carimbando sua importância na cena nacional. Vida longa ao grupo e à sua música.

OUÇA: “Tendão de Aquiles” e “Sua Tez”.

Iron & Wine – Beast Epic


Se existe algo como um “feel good movie”, existe também algo como “feel good music”. Iron and Wine por vezes personificou esse tipo de música, um folk reconfortante, indie da melhor qualidade – mesmo que um tanto quanto melancólico. Depois de indas e vindas, Iron & Wine – ou, simplesmente, Sam Beam retorna à Sub Pop Records. E o retorno não é percebido apenas nesse sentido. Beast Epic traz muito da sonoridade que conferiu notoriedade e sucesso ao projeto. Traz as características e o violão que deram a Iron and Wine sua identidade. O próprio Sam Beam admite uma certa “afinidade” de Beast Epic com trabalhos anteriores – e a passagem do tempo e o eventual retorno a coisas que nos são familiares é um tema que permeia o álbum.

O que não é dizer que Beast Epic é simplesmente mais do mesmo, mas sim um aprimoramento de tudo o que tornou o projeto musical de Sam Beam algo singular e que merecia ser ouvido. A voz é outra característica que parece ter melhorado com o tempo: Beam soa como deve soar e a voz dá harmonia a todos os elementos musicais, do violão ao som do piano, quase escondido ao fundo.

Ouvir Beast Epic, é, no fim, como voltar a ver um velho amigo. Um bom velho amigo.

OUÇA: “Claim Your Ghost”, “Bitter Truth” e “About A Bruise”

Grizzly Bear – Painted Ruins


Dizer que o indie morreu não deveria soar apocalíptico ou sensacionalista. Se tem algo que é chocante aliás, é a não aceitação de certas publicações, fãs, bandas e casas noturnas em relação a esse fato. Assim como o pop, o indie não é nem nunca foi um gênero musical, dotado de um formato estético peculiar (ao contrário do rock, jazz, samba etc.): qual banda representa o início do indie, na qual identificaríamos sua forma “pura”? qual seu lugar na história da música e qual originalidade formal apresenta? como se desenvolvem seus sub-gêneros? São perguntas sem respostas, afinal o indie não é nada mais nada menos do que um termo de “cena”, contextualizador de uma determinada produção em um determinado período da história – algo próximo das alcunhas “cinema de arte” ou “cinema francês” como se fossem categorias cinematográficas com uma proposta formal e de estilo homogêneas. O termo indie como conhecemos designa bandas de selos independentes dos anos 2000 buscando fugir do esquema da indústria fonográfica da época; Libertines e Animal Collective são tão semelhantes quanto uma maçã e uma picanha, e ambos são “indie”. Posto que não se trata de um gênero e sim de uma cena, é interessante pensar que o devir que impulsiona o indie e o pop são inversamente proporcionais: nada se torna indie, enquanto tudo está prestes a se tornar pop – e este não morre nunca exatamente por estabelecer a escala dos gêneros que são mais consumidos de acordo com cada época. Do ponto de vista da crítica, essa insistência com o termo parece vir de uma certa preguiça em tentar entender e expressar a mistura de gêneros e complexidade de sons, tão marcante nos nossos tempos, muito em razão do desenvolvimento das ferramentas de produção (o pós-rock dos início dos 2000 com referências claras a uma cena alternativa dos anos 70 virou a representação genuína do indie).

Isso tudo foi pra ilustrar o incômodo que é ver um novo álbum do Grizzly Bear surgir com uma etiqueta escrito “indie” colada ao corpo. Numa estrada pavimentada pelos primeiros discos do Radiohead nos anos 2000, a banda de Nova Iorque (mais precisamente do Brooklyn, coincidentemente ou não, já considerada a meca indie) vem construindo uma discografia baseada em melodias formadas por várias camadas que exigem uma fruição mais cuidadosa, em que cada ouvida algo novo se revela. Passeando por Folk Progressivo, Chamber-Pop e psicodelias dos anos 70, a banda formada por Ed Droste, Daniel Rossen, Christopher Bear e Chris Taylor, é conhecida por suas letras um tanto abstratas, que colaboram para um resultado final com diferentes texturas.

Painted Ruins é o quinto álbum de estúdio da banda, que segue uma mesma “política” adotada nos dois últimos discos: um “padrão Grizzly Bear” com algumas experimentações cuidadosamente selecionadas. O entrelaçamento entre vocais e instrumentação segue marcante, assim como a capacidade de construir uma obra complexa sem cair no hermetismo; as variações de tempo e os arranjos quebradiços também seguem em pauta. É possível perceber uma maior sincronia entre os membros, com uma participação mais conjunta nas composições; as letras, que tendiam ao distanciamento entre banda e público estão mais abertas, apontando para uma sensação geral de conflito interno, de ruína inexorável com a qual se deve lidar.

A curta “Wasted Acres” abre o disco parecendo partir exatamente da onde o álbum anterior Shields parou, e constroi uma interessante introdução para a surpreendente pegada ensolarada e os sintetizadores de “Mourning Sound”, que já aponta para a dificuldade de contato pessoal e o contato com a natureza; já “Four Cypresses” é a faixa que sempre se espera a cada novo disco lançado pelo Grizzly Bear: os instrumentos vão surgindo um por um, aos poucos se juntando até uma aceleração das guitarras e a união das vozes de Droste e Rossen, contando ainda com a frase que poderia servir de resumo do tipo de criação que a banda faz: “it’s chaos, but it works”.

“Three Rings” apresenta uma letra claramente direcionada à dificuldade de relacionamentos, o que faz parte do processo de abertura da banda já mencionado acima, tanto aqui quanto em “Aquarian” há a marca do Grizzly Bear em alongar só o instrumental, como em um filme em que imaginamos o corte mas o plano segue, nos incentivando a uma reflexão mais comedida. A familiar batida de “Losing All Sense” aponta para o maior ‘catchy-tune’ da carreira da banda, “Two Weeks” (Veckatimest, 2009), mas essa veia de canção de arena nunca chega a se concretizar; “Cut-out” reafirma a capacidade da banda em fazer com que vocal, letra e instrumentação apontem para um mesmo efeito, ao que fica claro um senso de revolta com as batidas da bateria enquanto Rossen clama “Can’t you see what’s in front of you?”. Já se aproximando do final da obra, “Neighbours”, cantada por Droste, entrega uma letra desorientadora sobre um relacionamento em que duas pessoas parecem conviver como vizinhos dentro de um mesmo espaço, e que conta com duas entradas cirúrgicas de Rossen durante o refrão, simulando o contraponto do interlocutor.

Com bandas que fizeram parte do panteão indie do começo da década passada buscando fugir cada vez mais de sua origem, é impressionante que o Grizzly Bear entregue um disco que seja muito próximo do que dele se esperava. Desde o lançamento de Shields, há cinco anos, o mundo da música mudou muito, e mesmo assim a banda lança um álbum menos acessível, temático e coeso em sua unidade, buscando um balanço entre sua essência e algumas novas direções. O confronto entre a tensão e a suavidade das vozes de Droste e Rossen somado às letras serenas, porém alarmantes, e a frenética instrumentação geram um resultado dolorosamente encantador de uma banda que nunca precisou se apoiar em cenas ou termos da moda para direcionar seu processo criativo.

OUÇA: “Morning Sound”, “Four Cypresses”, “Losing All Sense” e “Neighbours”

Oh Sees – Orc


Eu gosto de ouvir muitas coisas diferentes. Minha lista de artistas mais tocados no Spotify tem Taylor Swift, XXXTENTACION, MC Cabelinho, Lauv, Frank Ocean e Elton John. Quando comecei a escrever para o blog, uma colega me disse que não tinha problema nenhum eu escrever sobre bandas que eu gostasse ao invés de me arriscar com artistas que eu não conhecia. Dessa vez resolvi sair da minha zona de conforto e falar sobre uma banda que ainda não tinha ouvido: OCS. Thee Oh Sees. The OC.

Oh Sees.

Eu não entendo nada de Psych Rock – também vi classificado como Garage Rock. Se eu ouço de É o Tchan até St. Vincent, esse estilo passou despercebido pelo meu radar. Dei uma pesquisada, tentei ouvir algumas músicas que a banda lançou anteriormente – estranhei quase todas – e escrevi minha resenha do jeitinho de sempre. Enviei no sábado. Na segunda-feira – aka meu aniversário – percebi que perdi tudo. Foi o golpe final do meu inferno astral. Tinha que reescrever uma resenha de uma banda que tem DEZENOVE álbuns lançados e que toca um estilo que eu desconheço quase completamente. O que fazer? Uma lista.

15 coisas que pensei enquanto ouvia Orc. Aperte o play e me acompanhe.

  1. É uma guitarra distorcida nesse comecinho?
  2. Que animada! As músicas que eu tinha ouvido não eram tão boas assim.
  3. Eu não sei vocês, mas ADORO quando aparece um UuUuh ou LA LA LA no meio da música. Fico cantarolando junto.
  4. O álbum chama Orc porque o vocalista parece um bicho cantando? A voz dele é muito estranha, quase caricata.
  5. “Animated Violence” é a música perfeita para momentos clichês de filmes de ação em que o mocinho persegue um personagem de caráter duvidoso.
  6. O instrumental é o forte do Oh Sees. Muito bem estruturado e te contagia em todas as faixas. A bateria rouba a cena.
  7. DE ONDE SAIU ESSE VIOLINO EM “KEYS TO THE CASTLE”?
  8. Deve ser muito doido ouvir essa música chapado.
  9. “Cadaver Dog” faz sentido no disco, mas é tão sem sal…
  10. “Paranoise” é a prova de que uma música bem feita não precisa de letra pra ser foda.
  11. E ESSE FINAL? AMEI!!
  12. Infelizmente ela é seguida pela monótona “Cooling Tower”. ZZZzzzZZZzzz
  13. Orc tá me deixando um pouco apreensiva. Parece que alguma coisa vai aparecer e me levar pras profundezas do inferno.
  14. Eles devem ter usado muita droga escrevendo esse disco.
  15. Acabou. Não sei o que dizer, só sentir.

OPINIÃO FINAL:

O instrumental é incrível. Fui surpreendida com instrumentos que eu não estou tão acostumada a ouvir com e isso me manteve interessada durante o projeto. Com certeza vou ouvir Oh Sees com mais calma, mesmo que a voz do vocalista tenha me irritado algumas vezes durante os 50 minutos de duração desse álbum. Se você curte esse estilo de música e já conhece a banda, provavelmente vai adorar esse trabalho. Orc é um tour que você faz pelo seu inconsciente enquanto tira um cochilo despretensioso num sábado a tarde. Ao caminhar pelos trechos sombrios, tome cuidado com os monstros que pode encontrar pelo caminho.

OUÇA: “The Static God”, “Animated Violence”, “Paranoise”

Rat Boy — SCUM


Young, dumb, living off mum”, Jordan Cardy tinha acabado de perder seu emprego na rede de pubs britânica Wetherspoon quando uma de suas demos chamou a atenção de Drew McConnell, baixista do Babyshambles. A partir desse interesse, uma porta ou duas foram abertas para o jovem inglês de 21 anos: ele assinou contrato com a gravadora Parlophone, o que resultou em seu despretensioso e cheio de energia disco de estreia, Scum.

Rat Boy nome adotado pelo inglês a partir de um apelido que recebeu na escola porque os colegas o achavam parecido com um rato claramente não se leva muito a sério, o que torna sua música surpreendente de uma maneira muito positiva. Scum é o tipo de álbum que você começa a ouvir sem muitas expectativas (afinal, o que se esperar de um artista tão novo que se chama de garoto rato e parece orgulhoso disso?) e termina adicionando a maior parte dele às suas playlists. Cardy parece ter feito exatamente o que gostaria de fazer com o disco e ainda conseguiu se divertir no processo, e isso transparece já no primeiro contato com as canções.

O trabalho de 25 (!) faixas tem uma estrutura bastante particular: são 17 músicas entre interlúdios que funcionam como um programa de rádio chamado S.C.U.M. Um locutor americano decadente introduz o programa e volta, depois de uma música ou duas, com mais comentários, propagandas e até mesmo com um pronunciamento falso de Donald Trump. Dessa forma, é como se você estivesse ouvindo a um programa de rádio que reproduz o álbum completo, o que é bastante inteligente e traz um elemento nostálgico, lembrando-nos de uma época em que o rádio ainda era muito relevante. Essa nostalgia também está presente nas músicas, que têm muito influência do brit pop, ska e dub reggae dos anos 90. A estrutura de programa de rádio com todos os interlúdios, no entanto, pode ser um pouco cansativa lá pela sua quarta aparição, mas nada que comprometa demais a experiência com o disco.

No que diz respeito a temática, Scum é movido à revolta millennial. Quase todas as músicas falam da vivência de jovens que enfrentam problemas diante de medidas de austeridade por parte do governo inglês, não concordam com as políticas como o Brexit e têm que lidar com o desemprego e dificuldade financeira. Em “Boiling Point”, por exemplo, ele critica Theresa May, aponta a gentrificação e pede: “If you voted Brexit, please find the nearest exit”. Isso tudo é tratado de maneira descomplicada e honesta, e ainda assim bastante inteligente. Cardy soa tão honesto porque de fato viveu o que está falando em “Everyday”, por exemplo, ele canta sobre ter um contrato com uma gravadora e mesmo assim não receber nenhum dinheiro.

As letras bastante sinceras e politizadas, são acompanhadas de picos muito altos de energia nas músicas. Rat Boy tem muitas coisas a dizer e o faz rápido. Quase todas as faixas começam e terminam tão agitadas quanto possível, o que pode te fazer pensar que isso é tudo que Cardy consegue fazer. Em meio a tanto caos caos positivo , contudo, encontramos as mais lentas “Laidback” e “I’ll Be Waiting”, uma das melhores do disco, que mostram que o cantor também é incrível quando se permite um tempo maior para respirar.

Scum é como um todo muito jovem e isso funciona bem porque Jordan Cardy é muito jovem. A pressa e pouca maturidade que contribuem para o sucesso do disco ficam particularmente evidentes em alguns momentos e podem se tornar um problema daqui a alguns anos em trabalhos futuros. Mas, pelo menos por agora, Rat Boy pode aproveitar toda essa energia para mostrar que millennials não são necessariamente tão alienados quanto todo mundo acredita.

OUÇA: “Revolution”, “Laidback”, “I’ll Be Waiting” e “Sign On”

Adore Delano – Whatever


Adore, sua linda! Preciso começar esse texto dizendo apenas um sincero ‘Muito obrigado!’ do fundo do coração. Agora vamos ao álbum em si e seu contexto;

Whatever é o terceiro álbum de estúdio assinado pela drag queen americana Adore Delano, personagem de Danny Noriega. Pra quem não se lembra, Adore foi uma das finalistas da sexta temporada do reality show RuPaul’s Drag Race. Ano passado a moça lançou seu segundo disco, After Party, também resenhado por mim para o You! Me! Dancing!. E muita coisa aconteceu desde então.

Seus dois primeiros discos seguiam o que era esperado; álbuns pop acessíveis e mainstream. After Party já não foi muito bem recebido pela maior parte de seus fãs por se tratar de um pop um pouco mais adulto e conceitual que o seu Till Death Do Us Party – o que é uma pena pois trata-se de um álbum excelente. Adore também fez história a ser a primeira participante a desistir da competição, durante seu curto momento como parte do RuPaul’s Drag Race All Stars 2.

Seguindo problemas com sua gravadora e um descontentamento generalizado, Adore resolveu fazer o que bem quisesse com seu terceiro álbum e se as pessoas não gostarem, bom, paciência. E aí chegamos na maravilha que é Whatever. Adore sempre citou os movimentos grunge, punk e riot grrrl como influências em sua drag/vida, e agora vimos isso mais do que nunca. Abandonando o pop e se focando nas músicas que fizeram parte de sua própria adolescência, Whatever é um álbum grunge. De verdade. Para a surpresa de muita gente (eu incluso), Adore não estava exagerando quando prometeu um álbum assim.

Com influências de atos que vão desde Nirvana, Hole, Alice in Chains e Marilyn Manson até L7, Babes in Toyland e Mudhoney (e talvez até PJ Harvey). Adore não veio pra brincadeira em seu terceiro álbum. E o melhor de tudo é que, finalmente, ela parece estar confortável no que está fazendo. É possível perceber o quanto ela se diverte e se sente bem nesse álbum, muito mais do que nos anteriores.

Adore também flerta com letras mais politizadas e socialmente consicentes do que antes. Na lindíssima “27 Club”, primeira faixa escrita para Whatever e que quase deu nome ao disco, Adore canta sobre essa idade mítica dos 27 anos e sobre os astros que morreram com ela. A própria Adore tem hoje seus 27 anos, e conclui seu poderoso refrão com ‘And that’s how I know that I don’t wanna go‘. Suas letras, que já estavam ótimas desde o After Party (e a estonteante “I Can’t Love You”), são um dos grandes destaques do disco. Só a catarse do refrão ‘If I wanna whine, I’ll whine‘ em “Princess Cut”, uma música sobre a falsa noção de que sua vida é perfeita, já é o suficiente pra ilustrar isso.

O único momento ruim de Whatever está nas faixas “But Her Fly” e “Hole Nine Yards”, que são releituras eletrônicas das ótimas “Butterfly” e “Whole 9 Yards” – e não são nem versões pop das músicas, são um EDM genérico e chatíssimo como um remix que não deu certo.

Whatever é um disco improvável que eu nunca imaginei que pudesse acontecer dentro do contexto no qual ele nasceu – uma drag queen com dois álbuns pop nas costas e uma fanbase composta em sua maioria por adolescentes que ouvem Katy Perry. Mas, pessoalmente… Whatever me lembra que, por alguns momentos lá em 2014, eu torcia para que Adore fosse coroada vencedora no lugar de Bianca Del Rio. Whatever faz meu respeito pela Adore, que já havia sido consolidado de vez quando ela se recusou a passar novamente pela traumática experiência das filmagens de um reality show e saiu por conta própria, crescer ainda mais.

Só espero que Adore, agora que está confortável e fazendo o que quer fazer, continue se aprimorando dentro do rock. O talento que ela exala aqui nesse tipo de composição é bom demais pra ser jogado fora em um retorno ao pop de sintetizadores. Mas de uma coisa eu tenho certeza; não importa se o quarto álbum da Adore seja de rock ou de pop – ela vai continuar amadurecendo e se tornando cada vez mais uma compositora e vocalista maravilhosa dentro do que quiser fazer.

OUÇA: “Whole 9 Yards”, “Princess Cut”, “27 Club” e “Negative Nancy”