VÉRITÉ – Somewhere In Between

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VÉRITÉ é como conhecemos Kelsey Byrne. O pop alternativo que a norte-americana nos entrega é cheio de energia.

Foi possível ouvir a artista pela primeira vez em 2014, época em que ela lançou, de forma independente, o single “Strange Enough”. A partir daí, até chegarmos no recém-lançado debut, três EPs: Echo (2014), Sentiment (2015) e Living (2016), foram lançados com o objetivo de entender como o público receberia um disco de VÉRITÉ.

Antes de lançar o material completo, e mesmo durante a divulgação de seus extendend plays, a artista construiu uma sólida cronologia de lançamentos de singles, incluindo um cover – sucesso de streaming no Spotify com mais de 70 milhões de reproduções -, da música “Somebody Else”, da banda The 1975. O cover proposto por VÉRITÉ nos permite reconhecer toda sua estética sonora na canção: vocal suave, roupagem eletrônica e a exploração da rouquidão de sua voz. Com certeza a visibilidade alcançada com o cover no Spotify alavancou a carreira da cantora.

Somewhere In Between, o álbum de estreia, foi lançado em junho. Nele é possível ouvir muito material inédito, além das faixas “Phase Me Out” e “When You’re Gone”, lançadas como singles. As canções do disco exploram os vocais frescos de Kelsey embebidos em um pop alternativo que vem com muito fôlego. É como se uma Banks menos obscura assumisse os vocais e entregasse à audiência 13 novas músicas.

Em tempos que é comum ouvir mais do mesmo em termos de música pop, nomes alternativos e surgidos na cena independente costumam fornecer à indústria os instrumentos necessários para que ela se autorregule e transforme: VÉRITÉ apresenta características interessantes nesse sentido com uma sonoridade diferente e que destoa do comum.

OUÇA: “Phase Me Out”, “When You’re Gone” e “Solutions”.

Vince Staples – Big Fish Theory

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A personalidade de Vince Staples é cheia de aparentes contradições: um cara que está sempre opinando sobre o que diz não dar a mínima e alguém que em suas letras critica as estrelas do rap enquanto trilha um caminho que o leva cada vez mais pra perto disso. Seu mais recente trabalho leva essas dualidades a um novo nível, trazendo seu olhar crítico e afiado sobre tudo o que o cerca usando batidas techno perfeitas pra qualquer pista de dança.

A primeira faixa “Crabs In A Bucket” chega com os dós pés no peito logo de cara. A metáfora do caranguejo dentro do balde na psicologia diz que se você coloca um caranguejo dentro do balde, ele logo de cara vai tentar escapar mas quando há dois ou mais, eles vão começar a se agredir para ver quem fica no topo. Na mitologia de Vince Staples, essa metáfora representa o universo do hip hop como um todo, onde o tempo todo um novo nome surge e quem já estava lá dentro faz de tudo para o derrubar. Enquanto eles se matam, quem ganha é o homem branco que faz circo disso tudo. No final da faixa, percebemos o cansaço de Vince Staples por ter que fazer parte disso (Drowning in my own ocean/I forgot to care/I ain’t never had no chance to breathe). Essa canção estabelece toda a carga do álbum usando um instrumental preciso com um baixo bem marcado e um bumbo-caixa sintetizado que monta a atmosfera que a letra pede.

Na sequência, vemos toda a ironia e contradição de Vince que, depois de ser super agressivo e crítico na abertura, traz uma parcela de total alienação e despreocupação com o que acontece no mundo. “Big Fish” traz a ostentação cantando que passou a noite toda curtindo e gastando dinheiro. No instrumental, ela traz toda a tradição do funk californiano dos anos 90 num arranjo bem contemporâneo com pitadas de techno, fazendo a música ser pronta pra qualquer balada.

O baixo é o elemento de coesão em todo o álbum, presente fortemente tanto nas faixas mais dançantes como nas mais conceituais e viajadas. “Alyssa Interlude” e “Love Can Be…” são bem complementares e apresentam uso do baixo de formas totalmente diferentes, trazendo um peso emocional na primeira e fazendo a cama pra algo mais futurista na combinação com teclados e backing vocals da segunda. Às vezes, as linhas de baixo acabam por cobrir o que Vince canta mas, uma vez que os elementos do lore do álbum já estão estabelecidos, é difícil não pensar que isso foi proposital como se o que ele tivesse a dizer não fosse tão importante quanto fazer um bom beat.

Algo que talvez irrite os mais puristas nesse disco é o excesso de elementos techno no hip hop de Vince Staples, muita coisa de branco num som de negros, alguns diriam, e essa pra mim é a cartada final do artista nesse jogo, reconhecer que a cultura hip hop não está mais associada apenas com a cultura negra e se apropriando das armas de seus antagonistas para fazer sua crítica.

Brincando com os limites do que é permitido ou não, Vince faz Big Fish Theory como uma obra de arte conceitual na pista de dança e um som de balada dentro de um museu ao mesmo tempo, com um niilismo que transita entre atacar todo mundo e se esquecer de tudo enquanto apenas curte o momento.

OUÇA: “Crabs In  A Bucket”, “Love Can Be…”, “SAMO” e “BagBak”.

Rancid – Trouble Maker

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Parece que Rancid nunca conseguiu desvencilhar-se “Black coat, white shoes, black hat, Cadillac”, o icônico refrão de “Time Bomb”. O oitavo álbum da carreira – Trouble Maker – carece de originalidade, mas mantém o clássico punk californiano dos anos 90, cujo tradicionalismo ainda atrai uma legião de fãs.

Com 25 anos de carreira, a banda da década de 90 ainda é considerada um dos principais nomes do punk californiano, ao lado de Offspring, Green Day e Bad Religion. Tim Armstrong (guitarra), Matt Freeman (baixo) e Lars Fredriksen (vocal) podem ter envelhecido, mas seu som continua o mesmo dos singles de sucesso, como Roots Radical, Wanna Riot e Salvation. A influência de ska e reggae em mútuo convivio com punk e hardcore permanece como o principal diferencial da banda, inclusive no último álbum recém lançado.

Trouble Maker, é o primeiro álbum pós-câncer do pulmão do Matt, devido ao fumo, e a dúvida que pairava sobre a volta do baixista a banda. Mas como o público brasileiro já presenciou esse ano em show nostálgico no Lollapalooza, Rancid está soando mais velho do que nunca. Talvez esse apego ao passado e às raízes do punk californiano, seja a principal motriz do seu sucesso até hoje.

Mas ainda fica uma curiosidade e até certa de ansiedade em ouvir um novo Rancid, um pouco mais original, que não encontramos em Trouble Maker. Composto por 19 tracks bem curtos, o álbum é de escuta fácil e um dos com os refrões mais “catch”, como em “Farewell Lolla Blue/ We’re gonna miss you”. Além dos clássico punks que parecem vir direto de um dos álbuns dos Ramones, ainda temos faixas com muita influência do reggae e do ska com em “Where I’am going”.

Rancid nunca fizeram um álbum ruim na carreira e esse provavelmente é melhor que pode ser feito, após tantos anos de estrada. Todo legado da banda é preservado, com os necessárias e irresistíveis solos de guitarra, a clássica rouquidão da voz, os gritos e, inclusive, algumas músicas surpreendentes como “Telegraph Avenue”. No entanto, o disco também passa uma sensação de esgotamento. Não resta mais aquele gostinho de quero mais.

OUÇA: “Ghost of A Chance”, “Telegraph Avenue” e “Where I’m Going”.

Laurel Halo – Dust

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Diz-se de um artista que ele “encontrou sua voz” quando produz uma obra bem-realizada, traduzindo algo de essencial que até então estava oculto, atingindo um potencial antes apenas sugerido em seu trabalho. Num plano mais literal, também encontramos essa expressão empregada quando um cantor ou cantora dominam seus vocais: é o que falaram de Joanna Newsom quando fez sua transição do patinho feio de The Milk-Eyed Mender para o elegante cisne de Have One On Me, ou de Zac Efron quando não precisou ser dublado em High School Musical 2. Laurel Halo, no entanto, parece nunca ter encontrado sua voz. E em Dust, seu terceiro LP, ela pode ter descoberto como perdê-la.

Cantoras (e aqui escrevo cantorAs, com ênfase no feminino) são frequentemente cobradas para terem vozes classicamente treinadas ou tradicionalmente “bonitas” — muito mais do que seus colegas homens. É o que permite a Tom Waits ou Bob Dylan, por exemplo, serem idolatrados com todas as suas excentricidades vocais, enquanto figuras como Björk permanecem “polarizantes”. Laurel Halo nunca nem teve uma chance. Seu debut, Quarantine, ganhou atenção na cena alternativa talvez mais por seu talento como produtora de música eletrônica — sua voz, no entanto, impediu muitos de apreciarem sua música e também lhe rendeu um bom número de críticas negativas. Nesse álbum, sua voz estava bem ali, no centro de tudo, nua e quase combativa em sua falta de técnica (uma canção como “Years” é de fazer qualquer crítico de sua voz arrancar os cabelos).

Isso foi em 2012. A partir de então, Halo tentou seguir outra estratégia: com seus dois álbuns seguintes, Chance Of Rain e In Situ, ela abandonou sua voz por completo. E pode-se argumentar que se saiu bem por esse caminho: ambos discos receberam críticas largamente positivas, embora tenham ganhado uma quantidade injustamente pequena de atenção, em geral. Neles, ela demonstrou que tem os músculos de produtora para criar música interessante e desafiadora sem precisar abrir a boca. Ela tem formação em música e composição, afinal, e isso se traduziu em sua eletrônica, por vezes tingida de jazz.

Com Dust, seu quarto e mais recente álbum, a rota tomada se modifica ainda outra vez. Sua voz volta a aparecer em algumas de suas 11 faixas — não todas, deve-se notar –, mas, diferentemente de em Quarantine, aqui ela não comanda o ritmo e a mensagem das canções. Halo parece mais preocupada em construir ambientes sonoros: muitas das músicas no álbum rodam como uma cena de um filme noir, passando em loop contínuo.

Há uma atmosfera ameaçadora persistente no modo como elas são construídas. Vários elementos na instrumentação caminham devagar em um descompasso perturbador. A percussão, com uma paleta de sons estranha, por vezes parece acidental. Teclados, pianos, saxofones despontam ocasionalmente nesse cenário, como fumaça, apenas dando a tudo um tom mais misterioso. Quando surgem vozes — que nem sempre são de Halo –, em geral se misturam ao fundo, cantando monotonamente ou mesmo falando letras surreais e oníricas. De certa forma, as canções lembram alguns dos experimentos do no wave, de Lydia Lunch ou Suicide.

As duas faixas mais dançantes do conjunto são as que mais fogem à essa descrição, e também dois dos destaques mais positivos. “Moontalk” é uma mistura de influências díspares, contando com uma batida com um quê de tribal, um sample de língua estrangeira, palavra cantada e sintetizadores que podem ter saído de um programa de audiência dos anos 80 — isso é, antes da música ser engolida por um furação de violinos e levada ao além. De alguma forma, essa colcha de retalhos funciona muito bem. Já “Jelly”, o primeiro single de Dust, é a que mais faz jus às progressões musicais encontradas nas canções mais longas dos últimos discos de Halo.

Progressão esta que não se encontra nas outras faixas do álbum, que giram no próprio eixo, a resultados mistos. “Syzygy” fica no extremo negativo desse espectro de resultados, em 6 minutos de um pesadelo interminável protagonizado pela voz de Halo presa numa mesma melodia que zigue-zagueia para cima e para baixo. No outro extremo, faixas curtas como “Koinos”, “Nicht Ohne Risiko” e “Arschkriecher” trazem as qualidades atmosféricas sem abusarem de sua estadia.

Ainda assim, resta aquele gostinho de potencial não realizado. Halo encontrou novos modos de se expressar através de sua voz tão divisiva, mas não soube (ou não quis) implementá-la a canções com a riqueza composicional de seus discos instrumentais. Dust consegue ser interessante e relevante por conta própria, só que, infelizmente, soa mais como uma coleção de experimentações sonoras do que um álbum de canções propriamente dito.

OUÇA: “Jelly”, “Moontalk”, “Koinos”.

Curumin – Boca

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Curumin é o nome artístico de Luciano Nakata Albuquerque, que tem em sua banda mais dois integrantes que o acompanham há um bom tempo: Zé Nigro e Lucas Martins. As composições do artista se caracterizam por serem uma miscelânea entre vários estilos brasileiros com a contemporaneidade de elementos eletrônicos, trip hop, rap, funk e um pouco de rock. Desde o seu trabalho mais aclamado, Japan Pop Show (2008), as misturas de estilos e “quebras” nos álbuns se tornaram elementos indispensáveis.

O novo trabalho do compositor conta com a participação de vários musicistas muito bons, dentre os quais podemos destacar: Anelis Assumpção, Rodrigo Campos, Russo Passapusso, entre outros.

Boca é um disco embebido na atual situação do país. “Boca de groselha, de falar besteira” nos faz pensar automaticamente nos acéfalos que reproduzem o discurso que circula na grande mídia – que estamos pagando por isso todos os dias: aposentadoria quando estivermos com o pé na cova, fim dos direitos trabalhistas, terceirização em massa, e por aí vai. Assim como o belo corte, logo no início do disco, com o “O Burguês Que Deu Errado” após a despretensiosa “Bora Passear” – que joga logo na cara que um homem branco heterossexual hoje em dia só serve como símbolo de intolerância.

É um trabalho curto, e mais psicodélico que os outros. Há muitos batuques e frases jogadas no ar (“Cabeça” e “Descendo”). Tem o rap obscuro de “Tramela”. Mas não é só isso, em “Boca Cheia” o ritmo dançante tira um pouco a seriedade com uma letra que exala sexo. “Prata, Ferro, Barro” é uma das melhores faixas, uma mistura de soul com baixo funkeado e trip hop. Assim como o samba da “Paçoca”.

Dessa vez Curumin investiu na mensagem e no subliminar, abdicando muito das suas composições dançantes. Talvez muitos torcerão o nariz para um álbum tão carregado e cheio de intervalos, entretanto, ao vivo se torna muito interessante.

OUÇA: “Bora Passear”, “Prata, Ferro, Barro” e “Paçoca”.

Beach Fossils – Somersault

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Em 2009, Dustin Payseaur inicia um projeto musical no Brooklyn chamado Beach Fossils. Inicialmente, ele toca todos os instrumentos e grava, lançando o primeiro álbum intitulado Beach Fossils (2010), e somente mais tarde, outros músicos entram no projeto e isso colabora para que a banda realize tours pelos EUA e divulgue o trabalho realizado. A banda ainda lançou o EP What A Pleasure (2011) e o segundo álbum Clash The Truth (2013), mas após um hiato, lançam o terceiro álbum chamado Somersault, ou seja, Beach Fossils é mais uma banda que estava em hiato e que escolheu o ano de 2017 como um bom momento para mostrar as inéditas, e ainda contar com as participações de Rachel Goswell (Slowdive) e do rapper Cities Aviv.

Em linhas gerais, não é difícil sentirmos que Beach Fossils – não especificamente nesse registro – nos lembre bandas como DIIV, Wild Nothing ou Real State, mas essa impressão pode ser justificada pelos reverbs e pela atmosfera lo-fi, elementos bastante comuns entre eles. Mas, a banda também é conhecida por sua sonoridade mais dream pop – apesar de caracterizarem o registro anterior como mais próximo do post-punk .

Em Somersault, a banda acrescenta piano, violino saxofone e flauta, criando uma outra atmosfera, e alegando que é necessário reinventar e expandir. Assim, o novo registro nos mostra uma atmosfera mais leve, mostrando uma fase da banda mais leve, ensolarada e colorida, como se fosse a descrição sonora de uma viagem à praia com os amigos vestindo bermudas e camisas floridas. Ou seja, Beach Fossils sai da sua atmosfera “obscura” e dá lugar para uma atmosfera mais leve e vibrante, experimentando e buscando outros caminhos.

Basicamente, Somersault poderá ser uma surpresa para os fãs da banda que esperam a mesma sonoridade. Mas, ressalto que mesmo criando uma nova atmosfera e incluindo novos instrumentos, ainda é possível notar que a “assinatura” da banda está ali coexistindo com os novos caminhos e com a sutil necessidade de criar uma nova identidade. E sem dúvidas, Somersault é um marcador importante para a trajetória da banda, pois é um registro com bons arranjos e muito bem produzido. Enfim, apesar de toda a leveza, simpatia e a maturidade apresentada no registro, ele pode ser considerado coeso e agradável, mas não é um registro extremamente marcante.

OUÇA: “Tangerine”, “Rise”, “Sugar”, “Be Nothing” e “Social Jetlag”.

SZA – CTRL

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Você já abriu o diário de alguém e não conseguiu parar de ler por causa da sinceridade dos relatos? Pois essa é a sensação que o novo trabalho de SZA proporciona. A forma com que a cantora norte-americana de 26 anos se entrega nas letras faz o público sentir que está ouvindo uma amiga se abrindo sobre suas frustrações amorosas e como estas a levaram a se sentir mais forte, segura e livre.

Para quem nunca ouviu falar de Solána Imani Rowe, trata-se da mesma voz que dividiu o holofote com Rihanna em “Consideration”, uma das músicas mais bacanas do conceitual Anti. SZA já tem dois EPs no currículo: S (2013) e Z (2014). O plano original era lançar um álbum denominado A, mas vários atrasos e problemas nos bastidores alteraram o resultado.

Diferente de S e Z, CTRL não deixa a voz da cantora em segundo plano. Ainda bem, já que ela possui um grande alcance vocal e personalidade de sobra para se destacar da concorrência. Não faltam influências ao álbum, especialmente Frank Ocean. O R&B pop de SZA mistura hip hop e elementos eletrônicos com muita fluidez em um trabalho conciso e agradável até para quem não é fã desse estilo.

Uma das razões para CTRL ser um primor é o quanto as letras da artista contribuem para que as canções se tornem experiências retumbantes. Apesar de lidar com frustrações amorosas, SZA evita o clichê de se vitimizar e focar no sofrimento. Em vez disso, ela opta por caminhos que combinam com os sons inusitados de suas músicas. A libertação permeia o álbum inteiro, principalmente a liberação sexual, como na feminista “Doves in the Wind”, que soa delicada mesmo abordando explicitamente o poder da vagina.

Não é fácil abrir o coração sobre suas inseguranças para mostrar que superou dificuldades amorosas, mas isso SZA faz com maestria, sem perder o controle por um segundo. É admirável o quão confiante ela soa, não apenas nas letras, mas também na sua sonoridade cativante. As músicas de CTRL são perfeitas para uma geração que lida constantemente com problemas românticos e sexuais em uma era em que conhecer e descartar alguém é tão simples.

OUÇA: “Drew Barrymore”, “Anything” e “Prom”.

Royal Blood – How Did We Get So Dark?

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O Royal Blood é daquelas bandas que cresceram e ganharam espaço tão rápido que é fácil esquecer que ainda são uma banda jovem com uma longa estrada pela frente. Em 2014 fui à um festival onde primeiro show da noite foi justamente do Royal Blood. Os ingleses nem tinham lançado o primeiro álbum, ainda eram desconhecidos com o nome da banda bem pequeninho no final do lineup. Eu só tinha ouvido falar deles na época e não poderia ter me surpreendido de uma forma melhor com o show. Um som pesado e cru, extremamente poderoso, executado perfeitamente por dois caras que pareciam estar simplesmente se divertindo no palco. Quando achei que o garage rock já estava morto, percebi que na verdade era só o começo para o Royal Blood.

Daí para frente ganharam o mundo. Todo o sucesso alcançado rapidamente pela banda, tanto pela crítica quanto pelo público, fez com que as expectativas se tornassem gigantes para o que viria a seguir. Segundo álbum nunca é uma tarefa fácil para quem estourou com o debut. As possibilidades e pressões são muitas: agradar os fãs atuais, pegar o embalo e se lançar em direção ao mainstream, apostar em uma direção diferente… O segundo disco do Royal Blood é marcado por essas incertezas. Ao tentar ser muitas coisas ao mesmo tempo, acaba perdendo força e ficando à sombra do seu antecessor.

How Did We Get So Dark? inicia muito bem. Já nas primeiras faixas pode-se ouvir as canções mais enérgicos do álbum, “Lights Out” e “I Only Lie When I Love You”. Singles não tão fortes quanto os do disco anterior, mas que garantem bons momentos. Apesar da pouca diferença estrutural para singles passados, como “Out Of The Black” e “Little Monster”, pode-se perceber as variáveis do novo trabalho: maior produção e refinamento nas faixas, sons mais agudos e distorcidos chegando a deixar dúvidas se realmente só estamos ouvindo baixo e bateria.

Essa dosagem de inovação funcionou nas canções iniciais, porém não se sustenta no resto do disco, onde as faixas perdem drasticamente a força. A fórmula tímida de elementos novos gera um impasse que faz com que as canções não sejam tão fortes quanto as do disco anterior e nem tão inovadores para sustentar um trabalho totalmente novo. How Did We Get So Dark? faz pouco jus ao nome. Está mais para uma escala de cinza com baixo contraste, onde poucas faixas se destacam. No fim, um álbum curto com 35 minutos acaba parecendo longo demais devido a pouca variação entre as canções.

O disco parece estar numa encruzilhada onde ora opta por sons pesados e enérgicos como “Lights Out” e “Hole In Your Heart”, que dão continuidade ao trabalho anterior, ora opta por sonoridades suaves e insossas à estilo AM (2013) do Arctic Monkeys, como em “Don’t Tell”. A maioria das canções acabam em um meio termo morno entre esses dois extremos. É um álbum mais acessível sonoramente, que pode acabar impulsionando os ingleses no sentido comercial, mas que perde o que o Royal Blood tinha de melhor para oferecer. A despretensiosidade que funcionou muito bem no álbum anterior, deu lugar à falta de foco, fazendo de How Did We Get So Dark? um reflexo turvo de seu antecessor.

Essa direção confusa que a banda toma nos faz lembrar que o Royal Blood ainda é uma banda jovem, com espaço para acertos, erros e, principalmente, amadurecimento. Apesar da fragilidade desse segundo álbum, ainda é possível distinguir boas faixas que despertam curiosidade para os próximos passos da banda.  Eu não desistiria tão cedo do Royal Blood.

OUÇA: “Lights Out”, “I Only Lie When I Love You” e “Hole In Your Heart”.

The Drums – Abysmal Thoughts

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Em seu primeiro disco sozinho a frente do The Drums, Jonathan Pierce reafirma, mais do que nunca, o estilo resgatista da banda. Os sintetizadores antigos soam nos picos graves e altos, como ondas harmoniosas muito mais criativas que nos trabalhos que antecedem o álbum Abysmal Thoughts.

O The Drums continua agarrado a sua influência Pós-Punk, mas sem deixar de ser inventivo. O tom nostálgico das músicas sempre foi claro, ainda que não tão exagerado e marcado, sem deixar que seus trabalhos fossem confundidos com algo, de fato, de outra década.

A modernidade dá seu ar não só na mistura de gêneros que chamamos de indie, mas também no primeiro single da banda. O clipe de “Blood Under My Belt” traz blocos de cores fortes, contraste e enquadramentos do design dos anos 1960, uma boa manchete para um álbum leve e divertido.

Entre dancinhas estranhas e roupas de marca que parecem ser garimpadas de brechós chiques da cidade grande, o Drums mostra uma faixa pegajosa, de letra fácil e sonoridade oitentista. Assim como nas outras faixas, nota-se que Jonathan mudou seu timbre significantemente.

Ao invés de pronunciar palavras de forma encorpada, Pierce respira menos, sussurra seus versos simples que sobrepõe pensamentos de um período tumultuado. Perder seu principal parceiro de composição, Jacob Graham, possa ter sido um dos motivos de sua nova identidade.

Talvez essa mudança seja o maior sinal de vulnerabilidade de Jonathan Pierce. Abysmal Thoughts tem composições boas, músicas divertidas, alegres e redondas, mas existe uma certa tentativa de reacender o sucesso do primeiro álbum.

Indo pela contramão, a banda tenta fazer uma releitura daqueles primeiros sentimentos daquele homônimo. O que falta neste novo trabalho, no entanto, é a despretensão que o The Drums usou de maneira impecável em seus trabalhos anteriores ao Abysmal Thoughts.

É aceitável querer buscar horizontes coloridos de uma praia ensolarada novamente, mas por vezes esse sentimento soa um tanto forçado. Funciona bem como uma ironia, quem sabe uma ironia que tenta se aproximar do britpop, sonoridade com a qual a banda flerta em algumas faixas como “Are U Fucked”.

O The Drums volta a se apresentar como uma boa banda de pop, mas isso pode atrapalhar um pouco as ondas psicodélicas e mais duras dos álbuns anteriores, um gosto que ficou em minha boca quando ouvi Encyclopedia. Os fãs de rock podem sentir falta das guitarras marcadas que pouco aparecem nas faixas deste disco.

Duas influências do Drums são bandas que não canso de ouvir: The Cure e The Smiths. A presença delas é clara na construção de acordes, melodias e vocal do todos os trabalhos do The Drums. No entanto, sinto que não conseguirei ouvir tanto Abysmal Thoughts quanto os outros discos dessa banda.

O The Drums não conseguiu se superar, pelo menos para mim, alguém com o ouvido treinado por um avô fã de Beach Boys, The Cure e Beatles. Talvez seja questão de paladar, mas, entre outros bons álbuns de indie pop deste ano e este, eu ainda prefiro o arriscado e desengonçado indie rock do Drums.

OUÇA: “Blood Under My Belt”, “Your Tenderness”, “Rich Kids”.

Phoenix – Ti Amo

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Os franceses do Phoenix lançaram no dia 9 de junho o seu novo álbum – mais pop do que indie – o Ti Amo.

É engraçado como o disco, o título, a capa e os nomes das faixas parecem fazer alusão às músicas e o audiovisual brega dos anos 1960-70, que persistiam mesmo com a lisergia invadindo aos poucos a mídia. Para confirmar isso basta ver todos os clipes lançados até então.

Apesar de nos remeter à essa linguagem nostálgica – o que sempre ganha o público hipster – as músicas continuam sendo o pop que eles empreendem desde os trabalhos mais recentes.

Entretanto, vale dizer: o Ti Amo está melhor e mais dançante que o Bankrupt!. Um dos fatores que contribuem com isso é a ausência de elementos orientais falsetas e a escolha de fazer um pop sem muita enrolação.

A proposta de fazer mais um disco feliz e que embale festinhas indies foi atendida pelo Phoenix. Muito embora, pode-se dizer que em comparação ao início da carreira, pouco acrescenta à sua discografia. Alphabetical (2004) e o pretensioso Wolfgang Amadeus Phoenix (2009) nos oferecem músicas bem mais divertidas e com instrumental bem mais elaborado.

Ao perder o seu caráter experimental do início da carreira, a banda deixa de lado muito potencial criativo. Nos fornecendo apenas mais um disco raso para tocar algumas vezes e fazer uma dança sem graça – porque não é difícil imaginar algumas músicas desse disco fazendo parte de um playlist da rádio Antena Um ou outra ainda mais sem sal.

Retomar as inspirações do início da carreira seria mais interessante para o som do Phoenix.