Fenech-Soler – ZILLA

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Seguido do EP Kaleidoscope (2016), o Fenech-Soler chega ao seu terceiro disco com uma nova formação. Andrew Lindsay e Daniel Soler deixaram o grupo que agora é uma dupla formada apenas por Ben e Ross.

Aqui é preciso, antes de tudo, contextualizar a música deles, pois o desafio de manter vivo o estilo que marcava as pistas e palcos indies do início da década se tornou um pouco mais complicado. Se em 2010, eles estavam em seu auge ao lado de grupos como Friendly Fires ou Delphic, agora ressurgem quase isolados como um dos poucos que ainda se arriscam nesse pop sintetizado.

A faixa “Kaleidoscope” inicia o álbum de forma bem trivial, para a alegria dos fãs mais saudosistas. “On Top” e “Night Time TV”, que já estavam presente no EP passado, se sustentam na base de falsetes e muitos sintetizadores. Os temas românticos se mantêm constantes e se afinam com as expectativas.

O disco possui também duas espécies de intermedium: “ZILLA I” e “ZILLA II”. Há uma mudança perceptível após o primeiro: as faixas ganham mais guitarras e um tom mais sombrio. “Cold Night” é o ápice do disco, trazendo influências do darkwave e um novo fôlego para o trabalho.

Após “ZILLA II”, o disco segue para a sua conclusão com duas faixas mais calmas: “Be Someone” e “From Afar”. A atmosfera se transforma e abre espaço para baladas mais românticas que estariam prontas para embalar um romance, se estivéssemos em 2010.

ZILLA é um disco redondo: do início ao fim. A mudança na formação poderia ter sustentado novas experiências, mas o que o ocorreu foi a manutenção plena e muito bem realizada do que já conhecemos. É um disco para guardar e ouvir naquele momento nostálgico para pensar “poxa, que música boa, como não ouvi isso na época?”.

OUÇA: “Cold Night”.

Sampha – Process


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Após silêncio de quase quatro anos desde o lançamento da EP Dual, o cantor britânico de R&B Sampha retorna com o lançamento de seu aguardado primeiro álbum de estúdio batizado de Process, produzido pelo próprio cantor e o engenheiro de som Rodaidh McDonald. O  reconhecimento de Sampha pelo grande público se deu apenas em 2016 com seus feats com Kanye West (“Saint Pablo”) e Solange (“Don’t Touch My Hair”) e sua aparição em Endless, o elogiado álbum visual de Frank Ocean, fato que intensificou a espera pelo debut do cantor. O lançamento de Process representa a consolidação de Sampha como talentoso músico e cantor capaz de iluminar os caminhos tenebrosos trilhados pela música contemporânea.

Process pode ser visto como um belíssimo e complexo fluxo de consciência de Sampha que nos leva aos locais mais recônditos de sua mente e coração. Para isso, em quase todas as faixas Sampha alia leves e repetidas notas de piano a delicados elementos de música eletrônica como drum machines e sintetizadores, criando uma atmosfera decididamente introspectiva, como se estivéssemos dentro do território rarefeito de sua própria mente.

A impressão de que estamos dentro de uma câmara confinada em algum lugar do espaço é facilmente identificável em faixas como “Plastic 100°C”, “Under” e “Kora Sings”, canções altamente reflexivas e que nos levam a um universo distante e inóspito. O álbum também tem sua parcela de sentimento e emoção com o single “(No One Knows Me) Like The Piano” e “Take Me Inside”, que são faixas quase exclusivamente tocadas por Sampha com a simplicidade das notas de um piano. A junção do que de melhor há no R&B alternativo e na música eletrônica é vista em faixas como “Incomplete Kisses”, “Timmy’s Prayer” e “Reverse Faults”.

Para além do aspecto puramente musical, em Process, Sampha nos dá uma honesta visão sobre eventos extremamente dolorosos como a morte de sua mãe após longa batalha contra o câncer e também o distanciamento de Sampha de sua própria família (em especial, seu irmão). Por outro lado, nos deparamos com a própria consciência do cantor, que ainda foge dos erros do passado e, observando tudo ao longe, se arrepende de como reagiu às coisas da vida em cada momento. As faixas nos mostram um misto de niilismo e de esperança pela restauração dos relacionamentos e da própria vida após a morte, além de nos conduzir pelos caminhos árduos dos relacionamentos desfeitos, dos relacionamentos que nunca se consolidaram e dos relacionamentos que ora se desfazem, ora se refazem.  As reflexões de Sampha nunca nos remetem a algum local específico da realidade, nem tampouco há indicativo do momento no tempo em que suas experiências ocorreram. Inclusive, Sampha menciona que diversas partes do álbum não necessariamente o representam autobiograficamente, mas dizem respeito a uma persona imaginada para o projeto.

Process, nesse sentido, é um grande começo para Sampha e, embora ele tenha o apelo de ouvintes mais introspectivos, sua música relata de forma sublime o confuso pântano da existência humana a ponto de alcançar a todos sem qualquer distinção. Há algo de profundo e expressivo em Process e cada faixa pode revelar segredos sobre nós mesmos que até então desconhecíamos.

OUÇA: “(No One Knows Me) Like The Piano”, “Incomplete Kisses” e “Blood On Me”.

Cloud Nothings – Life Without Sound

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Em seu quarto álbum de estúdio o grupo americano de Cleveland, Ohio, Cloud Nothings, apostou novamente em letras melancólicas e em influências de estilos musicais que caminham entre o surf rock, uma pitada de new age e na presença marcante do Lo-Fi.

O título do disco já nos dá uma ideia da atmosfera que encontraremos ao escutar. Batizado de  Life Without Sound, o registro foi lançado ao fim do mês de janeiro e suas faixas estampam, mais uma vez, a sonoridade suja e o espírito carregado de medos e perdas do sujeito narrado pelos integrantes. Apesar de falarem sobre uma “vida sem som”, o disco possui uma sonoridade crescente e nos mostra um lado levemente mais ameno da banda conhecida por suas guitarras enérgicas e constantes, sobretudo nos excelentes registros Attack On Memory (2012) e Here And Nowhere Else (2014).

Na primeira faixa do novo álbum, a mensagem a compartilhar, é novamente clara. “Up To The Surface” além de ser o cartão de visita do conjunto de novas faixas, também se destaca como uma canção que cresce a medida que é narrada. Com uma introdução leve, ela aumenta seu ritmo tal qual o decorrer do álbum como um todo. Não transbordando de uma vez a enxurrada de guitarras destorcidas.

O ápice dessa tendência se encontra na quarta faixa “Darkened Rings”, sendo esta a canção que possui doses mais marcantes de hard rock.

Entre “Up To The Surface” e “Realize My Fate”última faixa do disco – a narração das canções se estabelecem sobre dilemas internos de um eu-lírico atormentado sobre sua vivência e incertezas. Na primeira faixa é proferida a seguinte frase: ‘I saw life in the shadows, on foreign lines, I knew peace in the terror’. E nos últimos minutos de audição a frase ‘Am I to fear of being blank, I find it hard to realize my fate’ é dita como uma espécie de veredito sobre a vulnerabilidade enfrentada pelo sujeito.

Sobre canções que narram crises, desconfortos e medos, o Cloud Nothings mostra mais uma vez, sua capacidade para expurgar todos os demônios através da vitalidade musical traçada a cada novo registro. Os elementos variantes deste novo trabalho foram poucos, mas mostram um disco aprimorado do grupo que tem como essência fornecer uma viagem sonora marcada por nostalgia e reinvenção.

OUÇA: “Up To The Surface”, “Internal World”, “Enter Entirely”, “Modern Act”.

Ty Segall – Ty Segall

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Saí pra correr ontem de noite depois de algumas semanas de hiato, com o meu corpo acostumado ao sedentarismo. Uni o útil ao agradável e coloquei o novo álbum do Ty Segall no meu iPod para ouvir enquanto corria. E pra começo de conversa, recomendo que todos que correm e gostam de um bom punk experimentem. É um ótimo álbum para começar aquela rotina de exercícios que você se prometeu na virada de 2016 para 2017, mas que tá enrolando pra começar.

Dava pra sentir as porradas da bateria ecoando nas minhas têmporas, os socos dados nas guitarras cheias de distorção, os berros de Ty. Apesar de ser basicamente a mesma receita dos projetos recentes de sucesso do ícone da cena punk atual, esse álbum é diferente. Passa uma sensação de que você está numa jam session na frente da garagem de um dos integrantes da banda. Desde o estilo de gravação que remete mesmo a um estilo de garage rock até os arranjos de guitarra caóticos e desgovernados, o álbum tem um ar de despreocupado e solto. Tem momentos em que duas guitarras fazem dois solos ao mesmo tempo. Você não sabe nem pra onde vai.

Isso é bom e ao mesmo tempo ruim. No que diz respeito a harmonia na construção do álbum, com as músicas se complementando, o projeto deixa a desejar. Comparando a outros trabalhos como o primeiro LP do Fuzz e a Ty Segall Band com Slaughterhouse, é bem aparente que Ty consegue desenvolver obras harmoniosas, bonitas de se ouvir como um todo. Enquanto que nesse LP, parece que ele meio que jogou as faixas todas numa compilação planejada de última hora. Talvez se ele tivesse esperado um pouco mais e estruturado faixas que combinassem mais umas com as outras, o álbum deixasse de ser apenas ‘bom’ para virar um ‘incrível’.

Um álbum que carregue seu nome como título por si só já tem um certo peso. Alguns artistas fazem isso pra tentar criar um álbum que contenha sua essência. Mas como Ty é um artista cuja própria essência remete à transformação e inquietação, ele adicionou elementos nesse álbum que não estão presentes em nenhum de seus outros LPs anteriores. Quem diria que ouviríamos baladas calmas e tranquilas cantadas num álbum de Ty Segall? Juro que me senti ouvindo uma música do Wilco quando começou a tocar a faixa ‘Talkin’’.

Minha faixa favorita do álbum é “Warm Hands (Freedom Returned)”, uma música de mais de 10 minutos, com momentos altos e baixos, brincando com sua expectativa e fazendo você lembrar porque Ty Segall é uma das personalidades mais importantes do Punk Rock Contemporâneo.

OUÇA: “Warm Hands (Freedom Returned)”, “Talkin’”, “The Only One”, “Take Care (To Comb Your Hair)”.

SOHN – Rennen

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Após bastante tempo desde o lançamento de seu álbum de debut, o inglês SOHN, persona de Christopher Taylor, está de volta no rolê. Depois do bem aclamado Tremors (2014), que mostrou para o mundo que Christopher, além de compositor e produtor, é um ótimo intérprete, Rennen (2017) é uma experiência sonora em que SOHN parece se arriscar ainda mais.

No entanto, Rennen, que significa correr em alemão, nem chega a ser uma corrida para assim tão longe, é fato que há uma nova face do artista em seu novo álbum e ela é tão boa quanto a que já conhecíamos, mas como muito do álbum antecessor ainda está presente aqui, e essa mistura um tanto mal feita acaba gerando uma quebra de harmonia no álbum. Não é algo que chega a incomodar, mas não saberemos dizer se essa mistura foi medo de errar, ou se a ideia era realmente fazer um álbum incostante.

A base instrumental do álbum é com certeza um dos seus maiores destaques, o aprimoramento de SOHN em suas bases eletrônicas já era notável em suas parcerias com a americana Banks, por exemplo, com quem trabalhou após se mudar para Los Angeles. A faixa homônima do Rennen também é sua cereja do bolo, mas não exatamente no bom sentido. Além de ser a mais diferentona do álbum, ela é a grande causadora da quebra de harmonia dele, a maioria das músicas do álbum segue a linha de início mais lento e mudança gradual de ritmo até chegar a um estilo dance eletrônico, e isso funciona de forma muito agradável. É bem fácil imaginar faixas como “Hard Liquor” e “Conrad” botando todo mundo para dançar numa balada.

As letras têm temas diversos que vão desde aquecimento global em “Conrad”, até preconceito em “Proof”. Como uma experiência sonora Rennen é ótimo, mas poderia ser perfeito se não fosse por sua faixa homônima, sem ela talvez essa nota estivesse bem lá no alto.

OUÇA: “Conrad”, “Proof”, “Falling”.

The Flaming Lips – Oczy Mlody

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Depois da atmosfera sombria e paranoica de The Terror (2013), o Flaming Lips retorna com um universo próprio criado em Oczy Mlody. Já nos títulos das faixas, nos deparamos com unicórnios, fadas, bruxas, sapos, magos e castelos. O devaneio psicodélico é preenchido por uma sonoridade experimental, densa e confusa. Não é de hoje que a imersão do Flaming Lips nos temas dos seus discos me leva a questionar se não teriam ido longe demais. As peculiaridades desse álbum talvez exemplifiquem a questão.

Sempre considerei uma virtude a capacidade do Flaming Lips de criar álbuns concisos dentro de um tema central, principalmente nos discos mais recentes. Isso tem feito com que cada trabalho tenha particularidades distintas, criando uma identidade sobre cada fase da banda. Agora, o que acontece quando o tema central guia o trabalho para algo confuso e desinteressante? Em Oczy Mlody, as letras giram em torno de um conto de fadas para adultos e se você não estiver sob efeito de alucinógenos, provavelmente vai cansar já nas primeiras faixas. A temática é extensa e exaustiva, tentando mergulhar fundo em algo raso. Coyne inclusive sugeriu que Oczy Mlody seria o nome de uma droga futurística que faz o usuário dormir por 3 meses, o que de certa forma resume bem o álbum, onde tudo parece fazer parte de um sonho psicodélico kitsch.

A sonoridade e arranjos tem bons momentos ao longo do álbum, mas não apresentam uma unidade clara, trazendo grande inconsistência. Além disso, Oczy Mlody não é fácil de ser ouvido. É um álbum denso: as faixas têm em média 5 minutos que passam devagar. Exige concentração para entrar na proposta do Flaming Lips e quando se ouve desatentamente, pode soar irritante e desagradável. É preciso esforço para aprecia-lo.

As tentativas de renovação e experimentação do Flaming Lips são louváveis. Funcionou em The Terror (2013). Porém, o preço por apostar em trabalhos menos óbvios é por vezes errar a mão. Oczy Mlody erra pelo excesso. Tanto na insistência com o cenário psicodélico barato quanto na sonoridade do disco. Não é um álbum ruim a final de contas, porém, para uma banda com 34 anos de estrada, passa como algo descartável e facilmente esquecível. Serve para nos lembrar da grande banda que o Flaming Lips foi um dia.

OUÇA: “The Castle” e “How??”.

Migos – Culture

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Era domingo a noite e eu esta acompanhando o Golden Globes. Entre dois goles de coca e um pedaço de pizza, vejo o Donald Glover – aka Childish Gambino – aceitar o prêmio de Melhor Série de Comédia por Atlanta. De repente ele agradece o grupo Migos pela música “Bad And Boujee”. Eu tinha ouvido “Versace” uma vez ou outra, mas não conhecia os caras muito além disso. O discurso foi o suficiente pra despertar minha curiosidade e de muitas outras pessoas: depois do discurso, a música foi #1 nos Estados Unidos, estourou no mundo inteiro e o hype em cima do aguardado Culture foi grande.

Formado por Quavo, Takeoff and Offset, Migos estourou em 2013 com uma mãozinha do Drake no remix de “Versace”. Depois de muitas mixtapes, alguns singles esquecíveis e o resultado comercial abaixo do esperado de Young Rich Nation, Migos ficou um pouco esquecido. Culture demorou pra sair, mas trouxe participações importantes como a de Gucci Mane, Travis Scott e a do Dj Khaled – que aparece logo na primeira faixa do álbum e que dá título ao trabalho. Com um hit estourado e apresentações no horário nobre da TV americana, Culture virou o jogo para os trio.

A sintonia entre o eles fica clara desde a primeira faixa. Musicas como “Call Casting” e “Brown Paper Bag” tem flow consistente, mas podem soar repetitivas e esquecíveis. Já outras faixas como “Get Right Witcha” e “Slippery” trazem elementos inesperados, como um instrumental diferente ou bom aproveitamento do autotune. Culture é um álbum interessante porque ao mesmo tempo que possui estilos diferentes consegue manter uma unidade. A colaboração de cada um é perceptível, mas muito bem construída.

O disco cumpre muito bem seu propósito de homenagear a cultura negra de Atlanta e traz faixas que são criativas, mas fica um pouco repetitivo depois da primeira metade do álbum. Entretanto, Migos mostra que seu som é único e eles conquistaram seu espaço de honra no Hip Hop Moderno. É claro que esse novo som não agrada a todos, mas é necessário reconhecer que a mudança é inevitável. É nítido que esse disco foi feito com um propósito para o trio e, mesmo que ele não seja um marco do hip hop, podemos encontrar muitas pérolas inesperadas entre singles manjados ou faixas esquecíveis.

Com Culture, Migos mostra que veio pra ficar e, mesmo com a repetição de temas (mulheres, drogas, dinheiro e sucesso), esse disco mostra o amadurecimento do trio e abre as portas para que eles conquistem outros espaços que não sejam o sul dos Estados Unidos. O hype foi excessivo, mas esse não é um trabalho que deva ser ignorado. O trio deixou sua marca e não serão esquecidos tão cedo.

OUÇA: “T-shirt”, “Get Right Witcha” e “Out Yo Way”..

Julie Byrne – Not Even Happiness

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Aos 18 anos, Julie Byrne saiu de sua cidade natal em Bufallo, EUA e passou a viver na estrada ou em qualquer lugar que podia se chamar de casa pelo menos por alguns meses. Essa sua vida nômade e desprendida não é perceptível, no entanto, no seu primeiro álbum – Rooms With Walls And Windows.

Lançado em 2014 por um pequena gravadora independente em Chicago, o álbum folk é repleto de sussurros e vocais intimistas. As faixas no mesmo tom e com os mesmos arranjos possuem seu elo de ligação humana mais no som em que está transmitindo do que nas letras. Algo incomum na tradição da música folk. Apenas pequenas frases inspiram emoção, enquanto a maior parte da sua escrita é composta por pensamentos enigmáticos e vagos. De modo que a introspecção exacerbada acaba nos distanciando de sua música.

Em Not Even Happiness, o álbum liberta-se dos ambientes retidos de Rooms With Walls And Windows. Sua música assume dimensões sem formas e infinitas, o som preenche todo o ambiente com vocais profundos e serenos. Após fixar-se em Nova York, Byrne conseguiu transmitir e amadurecer , em seu novo trabalho, toda a espiritualidade, amor e compaixão da sua vida na estrada.

Eleita pela Pitchfork como um dos melhores tracks do momento, “Natural Blue” soa quase como um mantra. As coisas simples- melodias- que dão a força e o tom épico da música de total liberdade. Essa capacidade de unir a desordem da vida natural com a intimidade, também está presente na música “Follow My Voice”. Quando os acordes brutos de slide guitar encontram de forma orgânica a dureza e os sacrifícios feitos por amor, presentes na letra.

Produzido com Eric Littman e o violonista Jake Falky, o segundo álbum de Julie Byrne, mais maduro e com uma precisa harmonia, a re-insere na cena musical ao lado de Angel Olsen, Sharon Van Etten e Jessica Pratt, ao mesmo tempo que as distingue dessa. Not Even Happiness transmite um lirismo único derivado da natureza e daqueles momentos de paz inesperada e misteriosa, como quando esse álbum começa a tocar. Ela empresta sua alma a música, mesmo sendo tão difícil ser honesta em uma sociedade que encouraja certo grau de vulnerabilidade, conforme afirmou em entrevista à Stereogum.

OUÇA: “Follow My Voice”, “Sleepwalker” e “Natural Blue”.

Austra – Future Politcs

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Ao se apaixonar pela música independente a frontwoman Katie Stelmanis, que estudava ópera e música clássica à época, faz um som melódico e sombrio porém ao mesmo tempo límpido e dançante no projeto musical Austra. Stelmanis busca inspiração na mitologia eslava, na qual Austra é a designação de uma de deusa, para a identidade do grupo.

Future Politics vem como o terceiro registro de estúdio dos canadenses, que iniciaram seus trabalhos em Toronto. Liderados pela vocalista Katie Stelmanis, que também possui trabalhos solo lançados e colaborações com projetos anteriores, o grupo ainda conta com a colaboração eventual de Maya Postepski, Dorian Wolf e Ryan Wonsiak. Ao grupo são somadas, nas performances ao vivo, Sari e Romy Lightman com os backing vocals.

Future Politics foi lançado no dia 20 de janeiro e é entregue para a audição com 11 faixas. Neste registro, em meio aos elementos eletrônicos característicos e às batidas com influência de música eletrônica industrial e techno os vocais etéreos de Katie permanecem em destaque.

O novo disco foi precedido por Feel It Break – o debut, de 2011 -, e por Olympia, de 2013 e por alguns extended plays. Com data de lançamento planejada há tempo, coincidentemente o registro deste ano foi divulgado em tempos de uma política incerta e em um cenário internacional nada animador no que se refere a democracia. O álbum versa sobre (entre outros tópicos) um futuro melhor no plano político das coisas. Recentemente Katie declarou que tem esperança no futuro e que espera que o Future Politcs seja parte da trilha sonora da mudança que nós podemos criar.

OUÇA: “I Love You More Than You Love Yourself”, “We Were Alive” e Utopia”.

Japandroids – Near To The Wild Heart Of Life

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Remember that night you were already in bed, said ‘fuck it!’, got up to drink with me instead?

Sem querer parecer a chata do ‘Eu já conhecia antes de todo mundo’ mas já sendo um pouco, Japandroids é uma das minhas bandas preferidas desde o começo de sua carreira lá em 2009 com Post-Nothing. Músicas como “Rockers East Vancouvers” e “Sovereignty” fazem parte de minhas playlists já há quase dez anos, e a dupla canadense tem um lugarzinho muito especial dentro do meu coração. Então não, essa resenha não é imparcial. Deal with it. Pouco tempo depois de lançarem seu primeiro álbum, Brian King e David Prowse lançaram uma série de singles inéditos contendo covers em seus b-sides (incluindo versões incríveis de “Shame” da PJ Harvey e “Sex And Dying In High Society” do X) e uma compilação No Singles antes de nos presentearem com seu segundo álbum, Celebration Rock em 2012. E foi aí que o mundo começou a prestar atenção neles.

Celebration Rock é um marco, um álbum catártico e inesquecível, misturando punk, noise e classic rock e nos bombardeando com letras quase filosóficas sobre a efemeridade da vida e a necessidade de se viver e celebrar o ‘agora’, não importa quando seja que você ouviu o álbum. Anacrônico, também é a palavra. E aí então, depois de encerrarem a turnê promovendo Celebration Rock, a banda decidiu iniciar um hiato por tempo indeterminado. E a cada mês que se passava sem notícias dos dois, meu medo de que a banda havia acabado de vez aumentava exponencialmente. Já vimos isso acontecer antes – bandas lançando um primeiro álbum ótimo e em seguida uma obra prima unânime, e geralmente era aí que a banda decidia acabar. My Bloody Valentine, Neutral Milk Hotel… São muitas as histórias que começam, e normalmente acabam assim. Mas não, não o Japandroids.

Quase cinco anos se passaram, mas em 2016 a dupla anunciou que haveria sim um terceiro álbum. Eu, pessoalmente, quase morri – ainda mais depois de ouvir a música nova, que dá nome ao álbum, “Near To The Wild Heart Of Life”. ‘Meu Japandroids está vivo!‘, eu pensava. Sozinho, na maior parte do tempo, pois trata-se de uma banda que mesmo tendo lançado uma masterpiece ainda não é (e nunca será) muito conhecida fora de seu nicho específico. Mas nada me importava, Japandroids ia lançar um álbum novo. E eles nunca decepcionam. Nem mesmo lançando um álbum que é basicamente uma antítese ao seu anterior.

Near To The Wild Heart Of Life é o álbum no qual a dupla permitiu experimentações que nunca fizeram parte de sua música antes, como violões e sintetizadores. O fato de que isso é digno de nota só prova o quão simples seu som sempre foi – guitarra e bateria, ponto. Esses novos elementos fazem diferença no resultado final? Sinceramente, não. E isso é o mais maravilhoso de sua presença, tudo continua funcionando como sempre foi e sem grandes mudanças no som de forma geral. É possível, sim, perceber em quais faixas eles aparecem mas o clima geral de Wild Heart é o mesmo de sempre. Só que ‘quase’.

Aqui, dessa vez, o Japandroids não tem medo de desacelerar e se focar mais nas melodias apresentadas. É um fato que não há hinos-capazes-de-encher-estádios como “The House That Heaven Built”, “Younger Us” e “Heart Sweats”. É também um fato de que as músicas em seu novo trabalho são bem menos urgentes e gritadas do que eram antes, e isso é ótimo. Wild Heart mostra um Japandroids maduro que sabe dar valor às coisas pelas quais é preciso lutar e se esforçar, como manter um relacionamento. Não há músicas sobre acordar de madrugada pra ir beber com seus amigos, e nem sobre o quanto a vida é passageira e sem volta. Aqui, eles cantam sobre decisões difíceis de serem tomadas, sobre estabilidade, sobre lutar para se manter o que já tem.

Near To The Wild Heart Of Life é um álbum que cabe perfeitamente dentro da discografia do Japandroids, que mostra que a banda amadureceu nesses quase dez anos tanto quanto seu público, talvez até mais. Mas, claro, ainda mantendo sua essência – existem coisas pelas quais ainda se vale a pena gritar, não importa se você tem vinte anos ou quarenta.

OUÇA: “Near To The Wild Heart Of Life”, “Arc Of Bar”, “Midnight To Morning” e “No Known Drink Or Drug”