Frances – Things I’ve Never Said

_______________________________________

Sensibilidade. Essa é a palavra mais propicia para descrever Things I’ve Never Said, primeiro disco de Sophie Frances Cooke, inglesa de 23 anos. Já são nos primeiros sopros e versos de “Don’t Worry About Me” que a ruiva dá indícios de qual será o ritmo de boa parte desse disco e já ficamos arrepiados desde esse inicio. Com um piano poderoso e uma voz estonteante, Cooke conduz com maestria seu primeiro álbum e se apresenta ao mundo da música, oficialmente, de maneira brilhante.

Frances começa bem devagar em Things I’ve Never Said, mas já é possível enxergar um quê de grandiosidade em sua carreira. Além de sua voz característica e que se dá muito bem com o seu piano bem dedilhado, Frances acerta muito bem em suas letras e acaba entregando um produto perfeitamente embalado. Consigo enxergar semelhanças bastante marcantes com o primeiro disco de Adele (19) aqui e Frances tem tudo para trilhar o mesmo caminho de sua conterrânea, apesar de se arriscar mais no folk e no jazz do que no soul.

Talvez uma das coisas mais preciosas aqui no disco seja o fato de que Frances consegue fazer a maioria de suas músicas utilizando apenas sua voz espetacular combinada com um piano muito marcante e uma bateria bem levinha. São em poucos momentos que aparecem instrumentos diferentes, como guitarras e sintetizadores – e, geralmente, essas são as músicas menos interessantes do álbum.

Mesmo que essas músicas aonde ela foge do combo impecável de piano + voz sejam aparições raras nesse primeiro registro (e em relação aos EPs anteriores sejam novidade), o interessante da Frances é que ela já começa a demonstrar, mesmo nesse primeiro álbum, um gosto por uma música pop de ritmos bastante genéricos, com fortes influências de Ellie Goulding e Taylor Swift. Exemplos desse escape do piano clássico e marcante acontecem em músicas como “No Matter” e “Say It Again”, aonde os sintetizadores predominam fortemente.

Essa entoada bastante forte ao “comum”, explorando arranjos mais populares e de fácil digestão, talvez seja o grande erro de Frances aqui e que, sem dúvida, precisa ser repensado um pouco em alçadas futuras e utilizado com muito cuidado. Toda a criatividade e destreza que ela demonstra nas músicas em que esses elementos não aparecem acabam indo por água abaixo quando o synthpop entra em cena. Ela, sinceramente, não precisa do ritmo para brilhar e sua voz, principal instrumento desse álbum, acaba ficando bastante apagada nessas situações.

Frances começa devagar, mas o brilho de sua voz e sua delicadeza aspiram grandiosidade e fazem o seu primeiro registro ser impactante de uma forma simples, porém única e certeira. Things I’ve Never Said apresenta o trabalho de Frances de maneira apropriada e reflete muito bem suas influências e os ritmos que ela desejava que a acompanhassem. É verdadeiramente incrível o que ela consegue fazer com tão “pouco”. A carreira da moça tem um ar significativo desde esses pequenos e primeiros passos e tem tudo para andar de maneira bem acertada. Sucesso.

OUÇA: “Don’t Worry About Me”, “Drifting” e “Let It Out”

Mount Eerie – A Crow Looked At Me

_______________________________________

Desde os anos 90, Phil Elverum tem feito o lo-fi parecer grandioso. Em seus dois grandes projetos — The Microphones e Mount Eerie –, o cantor-compositor estadunidense produz música ao mesmo tempo intimista e monumental. Sonoramente, isso já se expressou por meio de explosões de guitarras distorcidas, percussão errática e drone (com destaque especial para suas incursões no campo do Black Metal, em Wind’s Poem e Black Wooden Ceiling Opening.) Só que a grandiosidade estava também nos temas explorados em suas letras, quase sempre cantadas suave e monotonamente: Em seu extenso catálogo há, sim, o drama dos relacionamentos humanos, mas igualmente comuns são questionamentos existencialistas e reflexões profundas extraídas da Natureza — da luz brilhando entre as árvores no caminho de volta para casa; da água fria de um córrego descendo a montanha; do vento, do céu, das rochas.

Em seu último álbum, A Crow Looked At Me, Elverum não está mais tentando extrair significado do mundano. Não há mais espaço para as metáforas e analogias que colorem sua discografia. Não há espaço — porque o tema que ocupa todas as 11 faixas desse disco é a morte de sua esposa, Geneviève. No ano passado, apenas meses após o nascimento de sua primeira filha, o casal descobriu que Geneviève sofria de câncer pancreático em estágio terminal. Poucos meses depois, apesar de uma campanha que arrecadou dinheiro para seu tratamento, ela faleceu. E pouco depois disso, Phil gravou esse disco: no quarto onde sua esposa morreu, usando os instrumentos que um dia pertenceram a ela, enquanto sua memória ainda estava fresca.

Então não, não havia espaço para grandes elucubrações — e Phil fez questão disso. Em entrevista à revista Paste, ele explicou: “Essa coisa aconteceu comigo. O impulso que eu senti em mim mesmo foi tipo, ‘O que vou contar ao mundo sobre isso? O que eu vou extrair disso?’ E então imediatamente senti que isso é tão nojento. Só essa perspectiva já me era impossível”. Nas letras de A Crow Looked At Me, estão retratadas, com clareza arrebatadora, várias facetas de seu luto. E mesmo na descrição de seu sofrimento, ele é direto e preciso. O que sobressai é a negação de quaisquer significados criados a partir da morte de sua esposa, e a tentativa de capturar a morte como ela é, em toda sua magnitude e consequência. “Música e poesia podem às vezes ser uma máscara ou um borrão por cima da realidade”, considera.

Pode parecer um total oximoro fazer música sobre a morte ao mesmo tempo em que se defende que não se deve cantar sobre a morte (“A morte é real / E não é pra ser cantada / Não é pra ser transformada em arte”, determina Phil na abertura do disco, “Real Death”). De alguma forma, Elverum é consciente do conflito e caminha essa linha tênue ao melhor de sua capacidade: Ele não tenta transformar a morte em arte, mas tão somente registrá-la. Na sexta faixa do álbum, “My Chasm”, ele canta: “Minha perda é um abismo que levo comigo à cidade / E eu não quero tapá-lo / Olhe para mim / A morte é real”. Em A Crow Looked At Me, somos constantemente confrontados com este abismo, e com nossa própria mortalidade. E o ponto de tudo isso é que não existe um ponto: a morte é arbitrária, sem sentido, brutal. Não é um aprendizado nem uma oportunidade para crescimento pessoal. Nem a instrumentação, aqui majoritariamente acústica e tranquila (som familiar à qualquer um que tenha acompanhado a discografia de Mount Eerie, em capítulos como Dawn ou Lost Wisdom), oferece algum resquício de paz. A impressão que se tem ao ouvir, mesmo em escuta desatenta, é de estar submergindo cada vez mais no abismo descrito por Elverum, com os raios de luz sumindo pouco a pouco de vista.

E aí está o negócio: É difícil ouvir esse disco. Mais difícil, talvez, seja criticá-lo, recomendá-lo, dar nota a ele. Seria quase como dar nota ao luto de Elverum. “Esse novo álbum quase não é música. É só eu falando o nome dela em voz alta, a sua memória”, ele contou à Pitchfork.  Todavia, isso diz muito sobre o quão bem-sucedido Mount Eerie foi em seus objetivos com essas 11 músicas. É inteiramente possível, então, admirá-lo por sua honestidade, pela potência de suas letras, por sua capacidade de solidificar algo tão abstrato quanto a mortalidade. É possível saber, ouvindo apenas uma vez, que esse disco é importante, ainda que não seja de todo agradável.

OUÇA: “Real Death”, “My Chasm” e “Emptiness Pt. 2”.

Frànçois & The Atlas Mountains – Solide Mirage

_______________________________________

Quando ouvimos indie, parece que esse gênero musical é quase que exclusividade da língua inglesa. O primeiro choque ao ouvir Frànçois & The Atlas Mountains é acostumar-se com as letras em francês.

O quarto álbum da banda francesa de indie-pop nasce de uma necessidade de desvencilhar-se da passividade artística dos últimos álbum com melodias calmas e climáticas. As letras em Solide Mirage são usadas como ferramenta de manifestação política diante dos acontecimentos internacionais. Como o indie pop torna-se mais político no aspecto lírico da música, essa mudança não fica muito evidente para ouvintes não-francófonos. Desse modo, os arranjos ainda melódicos soam mais como um escapismo da realidade do que comoum mecanismo expressão política.

O single “Grand Dérèglement” é um dos mais representativas dessa nova trajetória musical da banda. A letra versa sobre as grandes migrações do século XXI, sobre populações obrigadas a adaptar-se a uma nova realidade. O clipe é uma colaboração entre François Marry (fundador da banda) e o dançarino palestino Mohamed Okal, que migrou com a sua família dos conflitos da faixa de Gaza, onde era motorista de uma ambulância. Mohamed dança dentro do Palácio da Justiça de Paris, marcando essa paradoxo de luta por direitos humanos e dos refugiados em paralelo ao discurso nacionalista da extrema direita francesa.

Esse jogo de contrastes está presente não apenas no título do álbum – Solide Mirage. A sólida miragem é dicotômica em todas as músicas, erguido sobre contrastes musicais, a album é uma mixagem de diversos estilos e influências. Ritmos africanos, grunges, baladas folk, batidas eletrônicas marcam um novo território da banda que rebela-se da inclinação natural ao indie francês melancólico e busca consolidar-se com um discurso humanista e ativista.

OUÇA: “Grand Dérèglement”, “1982” e “Apocalypse à lpsos”.

Passion Pit – Tremendous Sea Of Love

_______________________________________

Antes de discorrer sobre a música de Tremendous Sea Of Love, o novo disco cheio do Passion Pit, precisamos falar um pouco sobre suas motivações. Michael Angelakos, a cabeça e voz do Passion Pit, possui um histórico de doenças mentais, incluindo depressão e transtorno bipolar. As primeiras canções do disco soltas no youtube vieram para divulgar o Wishart Group, projeto com a finalidade de dar suporte legal, educacional e tratamentos de saúde com foco em saúde mental para jovens artistas. Tremendous Sea Of Love é então o disco que nasceu do difícil recente histórico de seu criador e que tem a missão de divulgar esta boa iniciativa para o resto do mundo.

Como música, o projeto já nasceu muito bem sucedido. Tremendous Sea Of Love é um disco curto, mas isso nem de longe é um problema. Angelakos nos pega pela mão e nos transporta ao seu mundo em poucos segundos e a típica atmosfera “passion pit” já fica clara logo na primeira canção, a instrumental “Moonbeam”. A canção possui os elementos clássicos da banda: o esperto uso de sintetizadores e os mais variados efeitos eletrônicos. O já conhecido tom lúdico permeia todas as canções do registro, tanto as mais expansivas quanto as mais serenas, deixando clara a assinatura de Angelakos.

O álbum é, gloriosamente, mais estranho e bem menos polido do que seu antecessor, Kindred de 2015. Angelakos trabalhou praticamente sozinho na criação de Tremendous Sea Of Love e isso fica claro devido a simplicidade do som e a boa aproximação com os primeiros lançamentos da banda. Não há aqui nenhuma tentativa de chegar ao mainstream ou de ganhar novo público como ocorreu com Kindred. No entanto não se deve confundir simplicidade com pobreza. Não há sequer um minuto desperdiçado com arranjos fracos ou pouco inspirados em Tremendous Sea Of Love.

O que pode fazer falta para alguns é que neste novo registro não existem singles fortes como “Take A Walk” e “I’ll Be Alright” por exemplo, presentes em Gossamer de 2012. Mas de maneira geral, Tremendous Sea Of Love é tão coeso e coerente em suas faixas que estas canções mais pegajosas não parecem necessárias. Os números instrumentais e as canções curtas podem faze-las parecer inacabadas, mas esse é justamente um dos objetivos de Angelakos. Nas palavras do artista, essa foi a forma que encontrou para se aproximar mais da música como arte e se importar menos com a música como produto de consumo.

Depois do fraco Kindred, o novo disco é refrescante e um grande acerto. Musicalmente, Tremendous Sea Of Love é a volta por cima que Angelakos precisava. Talvez a forma com que foi lançado, o impeça de atingir um público maior, mas sem dúvidas, permitiu o alcance do público certo: aqueles que assim como Angelakos sofrem com transtornos psicológicos e recebem pouco apoio. Nos resta torcer para que Tremendous Sea Of Love represente a mesma volta por cima para sua vida pessoal e que essa estabilidade nos traga futuros lançamentos ainda melhores. Tomara ainda que essa empreitada atinja sua plenitude e represente apoio e esperança para os que tanto precisam.

OUÇA: “Somewhere Up There”, “Hey K”, “I’m Perfect” e “For Sondra (It Means The World To Me)”.

Depeche Mode – Spirit

_______________________________________

Essa não é a primeira vez que o Depeche Mode resolve tratar de política em suas músicas – “People Are People” e “The Landscape is Changing” são alguns exemplos de trabalhos com uma carga política por trás – mas é inegável que Spirit é o trabalho mais politicamente carregado da banda. O décimo quarto da banda é uma inesperada afirmação política – mas o interessante é que não se pode afirmar que o disco é um resultado do turbilhão e da divisão política em que se encontra os Estados Unidos no momento: as músicas foram compostas antes das grandes mudanças na política norte-americana. O que é certo, porém, é que este novo trabalho da banda cai como uma luva para a situação do país após as eleições de 2016.

É uma boa notícia para quem gosta da discussão política e para aqueles que se interessam em saber o que seus ídolos pensam sobre o cenário político norte-americano – e é também uma boa notícia para aqueles que são, pura e simplesmente, fãs de Depeche Mode. Sim, o trio fala de política como raramente fez antes – mas ele fala do jeito que sempre fez. A sonoridade de Spirit é puro Depeche Mode. Se tem alguma banda capaz de fazer o ouvinte dançar ao som das barbaridades (ou não, dependendo do ponto de vista de cada um) políticas atuais, é Depeche Mode. E isso, a banda faz com maestria.

E esse é o maior ponto positivo de Spirit: o ouvinte pode encarar “Going Backwards” como uma marcha de protesto ou simplesmente como mais uma das boas e envolventes músicas da banda. Mas não é apenas de política que Spirit fala: na segunda metade do álbum, o grupo volta à temática dos relacionamentos, sempre com um tom levemente sombrio, com a característica mistura da música eletrônica e do rock praticados pela banda desde os anos 80.
OUÇA: “Where’s the Revolution”, “The Worst Crime”, “You Move”.

The Jesus and Mary Chain – Damage And Joy

_______________________________________

Dizem que no espaço o som não consegue se propagar. Não importa quão grandes sejam as outras diferenças que existam, como a gravidade e a falta de um céu azul, o silêncio pode ser a maior delas. O mundo é um lugar de barulho. Mesmo nas regiões mais inóspitas, podemos ouvir os grilos na mata ou vento nas dunas do deserto. Para a maioria de nós, no entanto, são outros ruídos que ocupam nossos ouvidos. Viver na cidade é não poder escapar do barulho de pessoas, de máquinas e toda uma miríade de coisas. Muitas vezes a solução que encontramos para escapar é a imersão completa em sons que sejam da nossa escolha. Colocamos os fones de ouvido e criamos o soundtrack das nossas vidas. A ação de escolher essa trilha sonora é mais do que simplesmente compor o mundo à nossa volta, é uma forma de expandir tudo que guardamos dentro de nós para o lado de fora. Não à toa Shakespeare definiu a vida como som e fúria. E que banda se encaixa melhor nessa definição do que Jesus and Mary Chain?

Desde 1984 a banda dos irmãos Reid tem buscado traduzir a existência humana em música, como tantas outras tentam, mas com um grande diferencial: o caos do barulho. O shoegaze é um movimento conhecido por explorar a beleza dos ruídos, não dá para escutar os clássicos do gênero sem se impressionar com como uma leveza etérea surge dos reverbs e dos wah-wah. As variadas formas de metal também abordam o barulho, cada uma a sua maneira. Mas o que The Jesus and Mary Chain faz é algo único. Não é uma construção rebuscada ou violenta, os ingleses buscam um primitivismo que estava lá no punk, mas com sensibilidade. Escutar a abertura do primeiro single dos ingleses, “Upside Down”, pode ser um choque para quem não conhece a banda. Para mim, com certeza, foi. Mas, por outro lado, todo aquele caos se comunicou comigo de um modo que poucas sonoridades fizeram ao longo da minha vida. The Jesus and Mary Chain é uma banda para quem tem um mundo de cacofonia dentro de si. Isso faz com que seja especialmente boa para se ouvir durante a adolescência, aquele período incerto em que somos todos uma grande confusão. Mas, diferentemente de tantas bandas, o apelo deles não se restringe a esse público, justamente porque o mundo, e a existência contemporânea ainda mais, é um grande emaranhado de sons que não fazem sentido. A capacidade de explorar tanto o potencial destrutivo quanto a possível beleza no caos é o que faz The Jesus and Mary Chain uma banda de importância transcendental.

Dito isso, é claro que eu tinha grandes expectativas para o primeiro álbum da banda desde 1998. Nesses quase vinte anos o mundo mudou bastante, mas a verdade é que aquele papel central do som em nossas vidas só cresceu. Seria fácil errar a mão na hora de conciliar essas duas coisas, ao mesmo tempo, poderia ser interessante ver como os acontecimentos dos últimos anos poderiam enriquecer a produção. No fim das contas, o resultado da reunião da banda, Damage and Joy, é um álbum que nos traz os mesmos elementos de sempre, não existe nenhuma novidade nessas 14 faixas. Isso pode ser decepcionante por um lado, mas não deixa de ser também impressionante que, depois de todo esse tempo, não tenham gravado um disco abissal, como costumam ser muitos desses que marcam reuniões de bandas após um longo hiato. Na verdade, se alguém dissesse que Damage and Joy é um álbum perdido que foi gravado há 20 e poucos anos, seria fácil acreditar. Ainda que não chegue perto do clássico Darklands, não faz feio junto da discografia de The Jesus and Mary Chain.

Não encontramos aqui aquela visceralidade que caracteriza uma parte da obra dos ingleses, mas sim uma continuidade do seu lado mais afeito a baladas, que poderiam ser B-Sides do já citado Darklands. Isso não quer dizer que as distorções características da sonoridade que construíram ao longo de décadas tenha sumido, muito pelo contrário, está aqui, e com a mesma força que sempre teve. TJ&MC não “amadureceu”, como acontece com tantas bandas, continuam os mesmos de sempre, e aqui isso é uma vantagem, por conseguir conectar a banda àquela cacofonia dentro de seus ouvintes. Damage and Joy está longe de ser perfeito, em faixas como “Always Sad” parecem estar fazendo um cover ruim de si mesmos, com letras extremamente fracas. E o álbum é desnecessariamente longo, tudo que vem depois de “Facing Up The Facts” podia ter ficado na sala de edição, mas isso não tira o mérito de conseguir continuar a produzir música significativa tanto tempo depois do ápice de sua carreira. Se continuarem assim, estou ansioso para ver os próximos álbuns dos irmãos Reid. Isso sim é um barulhinho bom.

OUÇA: “All Things Must Pass”, “War on Peace” e “Mood Rider”.

Gone Is Gone – Echolocation

_______________________________________

Quando anunciado no ano passado o mais novo “supergrupo” Gone Is Gone, houve um pouco de expectativa em torno da parceria entre Troy Sanders (do Mastodon), Troy Van Leeuwen (mais conhecido pelo Queens of the Stone Age), Tony Hajjar (At the Drive-In) e Mike Zarin (multi-instrumentista que já colaborou em projetos do Van Leeuwen). Essa expectativa deve ter aumentado quando eles lançaram o single Violescent em abril do ano passado.

Mas é bem provável que tudo isso tenha ido por água abaixo em alguns quando ouviram o EP (homônimo) em julho de 2016. Após ouvir uma música tão empolgante e viciante quanto “Violescente” e se dar conta de que só ela realmente compensava no tão anunciado trabalho.

Entretanto, apesar disso e de não haver muito furor sobre o supergrupo, a banda já anunciou que no próximo ano lançaria um álbum. E este foi lançado no início de 2017, em janeiro – o Echolocation.

Echolocation foi anunciado o lançamento do single “Gift” em novembro – que também não empolgou muito. No entanto, o recente disco foi tão bem elaborado, que agora esse single faz sentido no conjunto e se tornou uma “boa música” – tem até um toque “pop”.

O novo trabalho do grupo possui doze canções bem posicionadas. É possível perceber um começo, meio e fim. Iniciado com “Sentient”, de forma leve, dando já uma ideia de como será todo o álbum: aquele som melancólico pautado por guitarras com distorções na medida certa e com ápices muito bem seguidos por toda a banda, com um toque doom metal (que fica muito bom na voz Troy Sanders, vale dizer).

“Gift”, “Resurge”, “Dublin”, “Ornament” e “Paws” configuram o barulhento do doom – todas com momentos raivosos e cheios de lamentações. Depois, “Colourfade” retoma a melancolia, que explode no cover de “Roads” do Portishead e volta ao ‘normal’ em “Slow Awakening”/“Fast Awakening”.

Sobre “Roads” vale falar algo mais sobre: ficou ótimo. É difícil imaginar as músicas do Portishead serem tocadas por outras pessoas que não eles mesmos, ainda mais sem a voz sensacionalmente sutil e performática ao mesmo tempo da Beth Gibbons. Mas eles conseguiram. Foram muito inteligentes na escolha de colocar muito mais peso à música, e o vocal sussurado e sofrido.

Outro fator que dá outro toque ao disco é a “Slow Awakening” logo seguida pela “Fast Awakening”: cantar de forma lenta e depois rápida os versos “There is always someone to drive you crazy/ In so many ways” enfatiza a mensagem, além de demonstrar que o fato de alguém te incomodar pode ser triste, porque acontece sempre e você não aguenta mais ou isso não é mais novidade, quanto dar raiva de sempre ter alguém enchendo seu saco.

A reta final do álbum é com “Resolve” – música a princípio um pouco deslocada do contexto da proposta do disco até então, mas que afinal, combina – com dedilhado digno de indie folk no início e voz contida, tem seus momentos mais lindos quando o dedilhado se vai (isso não significa que ele seja ruim), e os acordes passam a ser acompanhados pela bateria de leve. Que culmina e finaliza em “Echolocation”, uma faixa que tem muito a oferecer, até mesmo quando ouvimos atentamente ao seu refrão: “Energy/ What you give/ The echo ride/ Coming to you in return/ Energy/ Scatter in the wind and grow”. No final, após mais um refrão, se instaura um clima apoteótico, com palavras sendo cantadas (talvez) em um megafone ao longe, que não conseguimos ouvir direito que mensagem nos fala – mas será que ela não nos fala sobre o karma do refrão?

Sobre isso ainda não se sabe. O que ficou registrado mesmo é que Gone is Gone pode ter um futuro promissor.

OUÇA: “Sentient”, “Roads” e “Echolocation”.

Laura Marling – Semper Femina

_______________________________________

Laura Marling lança seu sexto álbum Semper Femina, um registro sonoro introspectivo marcado por histórias/experiências. Assim, a voz potente da cantora e os belos arranjos das canções nos apresentam crônicas-musicais, nos levando para uma atmosfera intimista, mas densa. É como se Laura Marling abrisse seu quarto, nos deixasse entrar e nos contasse seus anseios ao pé de nossos ouvidos.

Trata-se de um álbum simples, mas extremamente belo com letras e arranjos que traduzem muito bem as vivências da cantora e a nova fase de sua vida. Laura canta memórias, revive através das canções situações que colocariam a cantora como uma mulher madura, vivida e que aprendeu com os tombos da vida.

Semper Femina é sobre cotidiano, desafios, busca por autonomia, relações amorosas, relações abusivas, dores, medos, liberdade e mudanças na vida de uma mulher. E apesar da leveza do álbum, existe o peso de ser mulher, escrever sobre tudo isso e cantar sobre isso. Este álbum é uma cicatriz e entendemos bem a experiência e a dor por trás de frases como ‘’I banish you with love (…) you can’t come in, you don’t live here anymore’’; “A change of course, a strange discord resolved’’ ou ‘’Love waits for no one’’ .

Assim, a jovem britânica atinge sim a expectativa, Semper Femina é simples e maravilhoso, não podemos desmerecer o cuidado com cada canção e como cada uma delas atinge nosso próprio cotidiano. Estamos trocando confidências quando ouvimos e nos encontramos em alguma frase cantada. Somos aqueles jovens adultos com 20 poucos anos e que sofrem com os medos, amores, estabilidade financeira/emocional e que precisam lidar com esses desafios para ‘’encontrar’’aquele ponto de superação/maturidade.

Em linhas gerais, o álbum canta tudo isso, ele canta memórias, problemas e mudanças muito bem acompanhado por cordas e vocais, e é neste ponto que ressaltamos a sua relevância musical. Sabemos muito bem que inúmeras pessoas musicalizam o cotidiano, mas a Laura Marling fez isso com Semper Femina de um jeito tão especial e sutil, que me sinto tocada/emocionada com cada guitarra, violão, violino que acompanha cada frase dessas belas crônicas sonoras. Por fim, Laura Marling é a narradora e nós somos o público sentado em roda com os ouvidos bem atentos.

OUÇA: “Soothing”, “Don’t Pass Me By”, “Wild Once” e “Nothing, Not Nearly”.

Real Estate – In Mind

_______________________________________

Real Estate é aquele tipo de banda que agrada a grande maioria das pessoas com pouco. Seja com uma das canções ou um dos discos, o grupo de New Jersey sempre surpreende com o seu estilo marcante, riffs de guitarra inconfundíveis e uma atmosfera musical tranquila que acalma até os corações mais aflitos. Real Estate é uma daquelas bandas que faz questão de te lembrar que está tudo bem.

In Mind mostra-se uma boa continuação de todos os discos da banda. “Darling”, primeiro single lançado, é uma ótima prévia do restante do álbum. “Stained Glass” e “After the Moon” mostram, de forma tímida, o grupo explorando outras vertentes de seu gênero musical. Aqui o disco se dirige para vertentes mais relacionadas ao rock psicodélico com guitarras mostrando serviço em várias linhas diferentes e novos efeitos usados. “Two Arrows”, a melhor canção do disco, lembra o disco Days, com o final maravilhoso de “All The Same”. Aqui o que marca é o final instrumental com vibes mais puxadas pro lado Tame Impala.

“White Light” e “Holding Pattern” continuam mostrando o lado que a banda explorou nesse disco. Riffs trabalhados e rápidas mudanças de melodia e ritmo criam duas tracks cheias de detalhes a serem ouvidos.

“Time” é uma das faixas mais lindas de todo disco e conta conta com uma levadinha de música de elevador de qualidade. Escrita pelo baixista da banda, Alex Bleeker, “Diamond Eyes”, única música com menos de 3:00, reflete influências do folk.

“Same Sun” e “Saturday” fecham In Mind com mais riffs bem trabalhados e encaixados. “Saturday” ainda conta com uma ótima parte instrumental e um solo lo-fi que deixam saudades assim que acabam.

Real Estate se encontrou num gênero musical e mostra que ainda consegue surpreender no seu nicho musical, que parece ser gigante. In Mind é aquele tipo de disco gostoso de ouvir do começo ao fim, e quando acaba dá vontade de ouvir tudo de novo. Assim como outros discos da banda, Real Estate é uma boa companhia para um Domingo solitário que gosta de te lembrar que tudo está bem, e vai continuar assim.

OUÇA: “Two Arrows”, “Stained Glass” e “Same Sun”.

Los Campesinos! – Sick Scenes

_______________________________________

all these sick scenes played out in my memory

O Los Campesinos! sempre foi uma banda muito ativa e prolífica. Entre 2008 e 2013 eles lançaram nada menos do que cinco álbuns. Isso resulta em praticamente um álbum por ano e uma carreira muito consistente ao longo de todo esse período de atividade. O septeto de Cardiff, País de Gales, é uma das bandas mais coerentes da atualidade e, mesmo fugindo aqui e acolá da sua proposta inicial, adicionando novos elementos a sua gama de sons característicos, sempre acaba entregando álbuns incríveis, além de muito bem construídos, aparados e produzidos. Felizmente não foi diferente no sexto álbum que sai agora em 2017. Esse foi o maior intervalo entre álbuns para a banda, mas ainda bem que o longo hiato não afetou em nada a incrível musicalidade deles.

O Los Campesinos! sempre deixou bem claro que, infelizmente, a banda sempre foi algo muito divertido pra eles e não um compromisso sério (felizmente, talvez?). Isso reflete na baixa quantidade de shows que eles fazem ao redor do planeta (raramente fogem do Reino Unido por longos períodos de tempo) e, também, é consequência do fato dos mesmos possuírem empregos fora da banda. Essa pressão assalariada cresceu bastante no fim do processo criativo de No Blues e foi a grande responsável pelo hiato de quase quatro anos. A vontade de produzir algo novo surgiu com as comemorações de aniversário de uma década da formação em 2016.

Sick Scenes foi gravado durante quatro semanas em Amarante, Portugal – como é muito bem descrito no single principal do álbum “I Broke Up In Amarante” – e, como a grande maioria dos discos da banda, de maneira esporádica e separada. Gareth – o vocalista e compositor principal – sempre foi muito produtivo para compor letras intensas que caibam perfeitamente nas harmonias escolhidas por Tom, principal responsável pelos arranjos musicais. Essa separação de processos criativos não funciona muito bem para boa parte das bandas, que precisa se isolar conjuntamente em lugares remotos para que a criatividade apareça, mas para os Los Campesinos! parece funcionar extremamente bem, reflexo de todos esses álbuns incríveis e marcantes entregues por eles.

Algo que também sempre me chamou atenção na carreira deles foi a morbidez de suas letras abafadas no meio de camadas de som típicas de twee e indie pop. Os próprios inclusive confirmaram que a obsessão pela morte e bandas que seguem essa linha são forte influência em sua carreira. Aqui em Sick Scenes essas camadas de indie pop mesclam-se muito bem com um som mais pesado, beirando o hardcore, resgatando ideias dos primeiros álbuns da banda; e essas letras obsessivas continuam bastante presentes e evidentes (vide “5 Flucloxacilin”, um antibiótico, e “Got Stendhal’s”, referente à síndrome psicossomática).

Sick Scenes segue à risca a linha criativa de seus álbuns anteriores e se aproxima muito das pontas dos espectros, tanto do primeiro álbum – Hold On Now, Youngster… – com seus refrões explosivos e gritados, músicas fortes, e ritmos mais acelerados, quanto dos imediatamente antecessores – No Blues e Hello Sadness – com músicas de batidas mais leves e calmas. As guitarras muito bem alinhadas com uma bateria marcada amarram tudo muito bem junto dos backing vocals e das letras sensacionais.

No fim das contas tenho pra mim que Sick Scenes é o álbum mais representativo do Los Campesinos! até agora. O longo período de pausa por conta da “vida de adulto”, os outros compromissos além da banda e as pressões econômicas levaram à uma demora maior para que esse sexto disco viesse à luz. Sick Scenes, entretanto, não reflete todo esse amadurecimento, ainda soa bastante jovial e mostra todo o gás que a banda ainda possuí.

A vida longa pra banda sempre me pareceu impossível por conta dessa vontade/necessidade dos membros se sustentarem por outros meios – afinal, o Los Campesinos! dificilmente vai sair/tem vontade de desse meio mais underground, fazendo shows pequenos e de baixo apelo -, mas ainda bem que isso em nada afeta a produtividade musical de excelência, com músicas que se sustentam muito bem sozinhas e são únicas dentro de um mesmo propósito. Um brinde a criatividade deles e que eles deem pano nessa continuidade, linearidade e coesão que são intrínsecas à banda.

OUÇA: “Renato Dall’Ara (2008)”, “Sad Suppers”, “I Broke Up In Amarante” e “Hung Empty”